José Lindolfo do Amparo, conhecido por Zé Lindo, de lindo não tinha nada. Era baixo de estatura, mas robusto, cabeça grande, rosto de queixo fino, nariz torto e bochechas murchas. Estas, devido à falta de alguns dentes. Os olhos pequenos, bem vivos e negros como os cabelos, contrastavam com a tez amarelada.
Não era bonito de se ver. Seu vizinho, Adevan Barbosa, soltava pilhéria, quando o encontrava: -“Um cara como o Zé Lindo, de noite, no escuro, se for assassinado, a pessoa que o matar, por engano, não é criminoso, é caçador”.
Trabalhava no açougue do Seu Nadinho, na separação das carnes dos ossos, formando postas, que pendurava nos ganchos de aço inoxidável.
A sorte dele estava no casamento com a Regina, mulher afeita ao trabalho, e ao sogro aposentado do INSS que era viúvo sem outros filhos. De sua parte, só tinha um descendente, Raimundo – o Mundinho – um garoto de doze anos. Economicamente não vivia mal. O Cícero, seu amigo de copo, sabia disso; da última vez que se encontraram pedira emprestado vinte reais, fazia já duas semanas e ainda não pagara.
Domingo de manhã, Zé Lindo resolvera cobrar, com o propósito de ir ao jogo com aquele dinheiro. Ficou de tocaia na porta da venda, onde o velhaco trabalhava, até às treze horas, mas ele não apareceu. Desde que liberara o dinheiro nunca mais o vira. O cara era mais escorregadio do que mussum1 ensaboado.
Voltou para casa, aborrecido, pensando – um dia, até as pedras se encontram. Como não queria perder o clássico CSA x CRB, no Trapichão, emprestou o valor da entrada do sogro e saiu correndo para ver o azulão. Por falta de dinheiro não levou o Mundinho, fato que o deixou de consciência pesada. Mas, fazer o quê?…
Costumeiramente, chegava cedo ao estádio e sentava-se no alto da arquibancada central, que é destinada aos azulinos, em um local onde não havia gente na sua retaguarda, em face do hábito pouco recomendável de que era portador, ou seja, o de cuspir no chão.
Naquela tarde, o seu lugar já havia sido ocupado, pois chegara atrasado. Não teve escolha. Ficou no meio do povaréu. Estava inquieto. Nervoso pelo fracasso na cobrança que o impedira de trazer o filho e mais, ainda, pelo placar em branco, mesmo com o CSA estando melhor na partida.
À medida que o tempo passava e os nervos ficavam mais tensos, a boca enchia-se de saliva e ele, no lugar onde se encontrava, não podia cuspir.
Como todo clássico, o jogo empolgava. Ora o CSA dominava, ora o CRB dava o troco. Um respondia ao outro e o gol estava prestes a acontecer. Os ânimos da torcida vinham à flor da pele.
De repente, o Marujão abre a contagem, através de Almir, numa jogada de bate – pronto, culminando em um gol de bela feitura, que deixou os azulinos felizes da vida.
Mas, Zé Lindo resiste. Boca cheia de saliva a descer laringe abaixo, sufocando-o. O grito de gol preso na garganta, sem poder explodir.
O jogo prossegue. O galo vai à frente com tudo. Aperta de um lado, aperta do outro. O CSA se defende e prepara o contra-ataque, mas não surpreende a defesa regatiana. A situação fica tensa para o time da Avenida Mutange. O tempo parece que não passa. Zé Lindo preocupado. O Azulão todo atrás, com o intuito de segurar a vitória. O CRB continua pressionando. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Já no final da partida, aos quarenta e sete minutos, o atacante Reinaldo, em um lance duvidoso, empata o jogo.
Zé Lindo não agüenta. Uma raiva incontrolável domina-o. Olha para o bandeirinha e profere: -“Off side, lad…!” Não completou a frase. Um grosso jato de saliva esguichou pela vaga dos incisivos que lhe faltavam, atingindo fartamente, a careca de um azulino à sua frente e espargindo em outros torcedores azuis.
Houve protestos e gestos ameaçadores, por parte das vítimas. Uma das mais atingidas, um homem forte e alto, voltou-se para o estouvado e agarrou-o pela beca, enquanto este morrendo de medo gritava: – Eu sou azulino, gente! Eu sou azulino!…
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1 Mussum – peixe fino, comprido e liso, semelhante a uma cobra, encontrado nos brejos.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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