Quando me levantei pela manhã dirigi-me à varanda do meu quarto, como sempre faço todos os dias. Debrucei-me no peitoril e logo avistei um rapaz maltrapilho que veio sentar-se na calçada do meu prédio. Curioso, fiquei a observá-lo, do alto, no sétimo andar onde me encontrava.
O rapaz foi até o pé de uma das amendoeiras, apanhou alguns dos seus frutos caídos ao chão e começou a comê-los. Depois, encaminhou-se ao depósito de lixo e procurou por entre as frestas da grade, alguma sacola com restos de alimentos descartados. Volveu inutilmente o basculho sem nada comestível encontrar. Talvez, cansado demais ou desiludido pelo esforço vão, deitou-se no cimento duro da calçada e ficou ali parado.
O jovem não passava dos dezessete anos de idade e pareceu-me ser mais um pobre a quem a vida madrasta costumara negar tudo, desde o berço. Comparei, inevitavelmente, aquela existência miserável com a de outros rapazes de sua idade, origem nobre, que se acordado nesta mesma hora estaria a empanturrar-se à mesa com inúmeras iguarias. Pensei nessa desigualdade em que o velho capitalismo claudica pesadamente e suscita toda uma gama de juízos desfavoráveis. Olhei à minha volta, estendi o olhar mais adiante, sobre muitas pessoas com as quais me relaciono; procurei uma explicação para essa disparidade e minha consciência elevou-se como se pretendesse achar um culpado na entidade abstrata que chamamos de Deus, em quem todos os crentes depositam sua fé e esperança por dias melhores… Não fora um raciocínio lógico esse em procurar culpados abstrusos. O erro estava ali bem claro, transparente, palpável na ganância das pessoas.
Deixei apressadamente a sacada para interfonar. Pedi que o porteiro avisasse ao rapaz para esperar, pois logo eu desceria com um desjejum. Fui à cozinha, aqueci a sopa que sobrara do jantar e pus em uma lata vazia de leite em pó, enquanto passava manteiga no pão e nas bolachas cream-cracker que encontrei no armário. Fatiei uma banda de melão. Depois, enchi um copo de café e coloquei tudo no elevador. Informei ao funcionário do nosso prédio acerca dos alimentos que havia providenciado e ele os deu ao jovem faminto.
Voltei à varanda. Lá embaixo, o rapaz alimentava-se vorazmente. Entretido, com aquela inocência dos famintos, parecia apressado como se estivesse receoso de que algum intruso viesse arrebatar-lhe o providencial café da manhã. Tivera sorte naquele dia, fato raro em sua vida desventurada. Ele que distintamente de tantos outros, como ele, sem ter nada de seu, conformara-se com o sofrimento tal qual uma predestinação, quiçá por um sábio conselho materno não olvidado com o propósito de preservar-lhe a vida. Conhecera já em sua curta existência, outros jovens cujo infortúnio arrastara para o mau caminho e àquela hora, decerto não mais estava entre os vivos. Ele não. Era calmo, obsequioso, resignado…
De repente, voltou-se para o prédio, levantou os olhos e me alcançou com o olhar. Sorriu para mim, colocou a mão direita no peito esquerdo e acenou. Eu entendi o que ele quis dizer: estava agradecido e me levaria no coração!
Não contive as lágrimas. Era Sexta-Feira Santa e eu acabara de realizar uma boa ação.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA –
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