VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

4 de julho de 2010 19:18 

Uma planta de estimação

Sabe aquelas plantas que você encontra nos supermercados? Que
estão sempre floridas nos vasos em uma secção destinada só para elas? Pois
bem. Aquelas plantinhas me atraem e eu gosto de olhá-las toda vez que vou
fazer compras. Fico por ali, a espiar embevecido com tanta beleza. Penso ser
dessas coisas que o homem cultiva e vende, mas que é algo bem mais elevado
do que um simples objeto: é como se as pessoas nos oferecessem um
sentimento, um mimo, um carinho…
Outro dia comprei uma begônia, depois uma kalanchoe, que é também
chamada de flor da fortuna, e mais uma violeta. Coloquei-as todas na varanda
do meu quarto, sob a sombra de outras plantas, conforme orientava o
prospecto. Minha esposa, Naime, não gostou e disse com desdém: “Belo
ecologista é você! Compra plantas que logo vão morrer! Além disso, está
jogando dinheiro fora!”
Ao contrário da previsão dela, as plantinhas permaneceram floridas por
cerca de seis meses. Após esse tempo, quando as flores murcharam, mudei
as plantas para vasos maiores, na esperança de que elas se desenvolvessem,
lá. Não deu certo. As três morreram e eu fiquei com a consciência pesada.
Um dia, na abertura do ateliê de pinturas da minha sobrinha, Amanda,
ganhei uma daquelas plantinhas. Estava como as do supermercado, em vaso
plástico e repleta de flores, só que essas eram vermelhas. Botei-a embaixo do
ciumento alfinete, no suporte metálico, exposta ao sol do inverno e, como as
suas desditosas antecessoras, também, na varanda do meu quarto, livre do
vento da praia.
Do mesmo modo que as outras, as flores resistiram por um semestre
inteiro. Dessa vez fui mais cuidadoso ao transferí-la para um recipiente
maior e ela vingou. Sem demora e já um pouco mais crescida, renovou a
florada. Era um encanto: Lindas! Levei-a para a sala de estar onde não
passava despercebida a ninguém. Graças a isso, fui alvo de elogios, pois as pessoas
queriam saber como eu conseguira fazê-la procriar novamente, vez
que segundo constava, só os especialistas logravam êxito nessa tarefa.
De minha parte, eu estava feliz da vida. Pretensioso, cheguei até a
pensar que por ser ecologista e, obviamente, amar os vegetais, houvesse me
saído bem, talvez por uma deferência, dessas que a Natureza só abre para os
seus.
Destacado dos outros mortais, guardei por algum tempo a idéia de
cultivar um comércio de plantas ornamentais, só desfeito quando dei de mim,
que além de idoso eu padecia regularmente com dores na coluna lombar.
Todavia, a begônia, que eu ganhara, depois de florescer pela
segunda vez, entrou em recesso, seguramente para renovar suas forças.
Nesse ínterim tratei-a com todo carinho; pus adubo, aparei as folhas que
amareleceram e nunca me esqueci de irrigar, de acordo com o manual técnico.
A danada cresceu, alcançou cinqüenta centímetros de altura e quase
não cabia sob as plantas maiores. Estava mais viçosa do que antes, com
folhas grandes, carnudas e caule vigoroso. Ficou ali vegetando por mais de
um ano sem florescer. Demorou tanto que Naime, por eu ter confidenciado
sobre o meu suposto prestígio junto à Natureza, passou a zombar de mim. Ela
sentenciou que aquela planta não voltaria jamais a florescer e o que sucedera
antes, fora um mero acaso. Calei por mais de dois anos. Fiquei assim até a
semana passada, quando notei umas hastes novinhas despontando no topo
de cada um dos galhos. Esperei por dois dias, para ter certeza, e ao surgirem
os primeiros botões, convidei minha sarcástica esposa a fim de testemunhar
o fenômeno. Estive propenso a fotografar, mas pensei bem: primeiro, o
editor Antônio Calegari, ainda não aprendeu a introduzir fotografia no site e
o responsável por essa área, o Divon, não gosta de ser perturbado quando
sai para acampar nos fins de semana; segundo, com a fotografia, alguns
abelhudos poderiam questionar o nome da planta que eu não tenho certeza
se é begônia mesmo; e, por último, não quero que a minha planta seja alvo de
mau-olhado virtual.
Agora, se alguém ousar repreender-me por eu estar falando de plantas,
em um momento desses, onde Alagoas sente as maiores agruras, podem ficar
certos de que não me esqueci disso e vocês não perdem por esperar.
Até breve!

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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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