VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

8 de setembro de 2010 14:47 

Um milhão de árvores de mentira

Hoje, quando me dirigia ao centro da cidade concentrei-me em observar a reposição de algumas árvores feitas pela Prefeitura de Maceió. Que pobreza, meu Deus! São três espécies, apenas (por pouco não temos uma monocultura), as plantas que enfeitam o canteiro central da Avenida Fernandes Lima, as quais dão uma idéia do que será o “Projeto um milhão árvores” de que a SEMPMA – Secretaria Municipal de Proteção ao Meio-ambiente de Maceió faz tanto estardalhaço.

Por falar em estardalhaço, concordo com o candidato a presidente da República, Plínio de Arruda Sampaio (não é meu candidato) quando promete, se for eleito, acabar com a verba pública de publicidade. Nisso, ele tem razão. O que os governos gastam com propaganda não está escrito. É uma coisa vergonhosa e nociva que funciona como ferrolho para os raptores encastelados no poder fecharem as portas da cidadania!

Aqui, em Alagoas, o caso é sério. Nem nessa época de campanha política, as pessoas bem informadas podem se valer dos meios de comunicação, a fim de discordar do Governo. A situação é tão grave que até os candidatos adversários não arranjam espaço e mesmo os que detêm a concessão de canais de TV, não vão fundo nas denúncias, com receio de suas emissoras perderem o patrocínio oficial. Sabe qual foi a fórmula encontrada pelos “experts” para evitar manifestações? Foi criar a figura do moderador! Pois é. Ninguém fala ou escreve sem a permissão dele!

E, o povo?… Bem, o povo vende voto e com o dinheiro, produto desse negócio sujo satisfaz alguma necessidade imediata ou adquire um bem supérfluo.

Aí, você me pergunta: “o que isso tem a ver com as árvores?” Nada e tudo! Porque, enquanto a Mídia ilude o povo, por exemplo, com essa mentira do plantio de um milhão de árvores, pessoa alguma consegue espaço para contestar – o moderador não deixa!

Ultimamente, só se fala no tal “Projeto de um milhão de árvores” que é uma mentira deslavada, dessa que nem o Jocão conseguiria contar melhor, se vivo fosse. A propósito: Jocão foi o maior mentiroso da história do nordeste brasileiro (prometo uma crônica inteira sobre ele, algum dia). Por enquanto, o Prefeito Cícero Almeida e o Secretário Ricardo Ramalho (SEMPMA) estão bem à frente dele. Inventaram essa história de um milhão de árvores que se transformou no mote da Imprensa falada, escrita e televisada de Maceió. Os anúncios repetem, repetem, repetem tanto que se o Ministério Público não intervier logo, por certo vai dar oportunidade para mais um descaminho do nosso dinheiro.

O problema é que a Prefeitura com essa falácia tem deixado muita gente de queixo caído. Pior, pessoas cultas e de boa fé. Algumas que me conhecem fazem troça dizendo que o prefeito chamado de “homem de concreto” vai se transformar em plantador de árvores…

Como se dará isso eu não sei. O que tenho visto é outra coisa: por cada mudinha que a Prefeitura planta, concomitantemente, promove a derrubada, mutilação ou torna doente cinco a dez árvores adultas. É como o diz o ditado: cobre um santo e descobre outro(s).

A falta de vergonha é completa. Vejam só. O engodo começa com a Prefeitura convidando o povo, através da Mídia, para receber graciosamente, mudas de árvores que em tese serão plantadas e vingarão. Ora, senhores, pergunto: Como pode dar certa essa coisa sem que haja um projeto específico, como também, sem que os patronos recebam orientação técnica e tampouco exista tutela criteriosa, por parte do órgão ambiental, no sentido de proteger os vegetais?… Nenhuma pessoa com algum discernimento deveria crer nisso, porque é o mesmo que acreditar na existência de Papai Noel. Na verdade, o que está a ocorrer, em Maceió, é a desarborização da cidade. Este sim é um fato visível a qualquer observador e não representa novidade alguma, porque a praga vem desde a administração do prefeito Ronaldo Lessa, passando por dois mandatos de Kátia Born-prefeita, até estes dois governos de Cícero Almeida, o prefeito atual. Todos foram administradores de triste memória.

No caso presente, uma prova desse embuste, preparado pela SEMPMA, pode ser encontrada, no canteiro central da Avenida Fernandes Lima, onde outrora existia enorme variedade de árvores, plantadas no Governo Luiz Cavalcante, há quase 50 anos e que foi paulatinamente suprimida, em face das mutilações e dos abates efetuados pela própria administração da Prefeitura de Maceió, desta e das outras mencionadas acima, que provocaram a decadência prematura das plantas, ao ponto de precisarem ser sacrificadas. Pois bem. Aquelas árvores que ocuparam durante várias décadas a principal avenida do bairro do Farol, além de serem mais numerosas eram também superiores em beleza e diversidade biológica, reduzidas agora a arborização simplória que lá se encontra.

Diante de toda esta bandalheira só me resta um caminho: vou mandar minha coluna para o Núcleo de Meio-ambiente do Ministério Público de Alagoas, porque propaganda enganosa é crime.

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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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