Acho que a nossa civilização precisa ser repensada com urgência, por causa das extravagâncias que pratica. O nosso comportamento é tão sem sentido que mais parece a letra das músicas do Zé Ramalho. Se refletíssemos só um pouquinho, haveríamos de nos envergonhar de tanto esbanjamento. O pior de tudo é que é o meio-ambiente sozinho quem paga o pato.
Vejam, por exemplo, o papel do tijolinho de barro queimado (foto) que se se emprega na construção de calçadas, em passeios públicos de pedestres, em pisos de ciclovias, ilhas de semáforos e até em estacionamentos para automóveis. Esses artefatos cerâmicos são produzidos em várias cores e podem ser vistos por quase toda a orla marítima de Maceió. Ele veio como uma moda do sudeste e tomou conta das cidades nordestinas, inclusive a nossa. Entretanto, trata-se de um verdadeiro descaso para com a Natureza.
Aqui, o prefeito Cícero Almeida deu continuidade à renovação do piso do passeio público à beira-mar que a ex-prefeita Kátia Born começara, substituindo o pavimento de brita encaixada (foto) pelo de tijolo que é considerado mais bonito e que, por conta do seu nivelamento regular, é preferido pelos pedestres. Até aí, tudo bem. Concordo que é preciso atender a vontade do povo e que estimulá-lo a caminhar deve ser uma das prioridades dos governos municipais, especialmente pelas razões de todos conhecidas, entre as quais, a que sugere ao bom administrador público que o cuidado com a saúde dos munícipes deve encabeçar a sua lista de prioridades, sobretudo pelo bem do próprio erário.
Sucede que esse tijolinho bonitinho representa a devastação de florestas nativas inteiras para serem queimadas nos fornos das olarias. Os estados produtores campeões do nordeste são Pernambuco e Rio Grande do Norte. A Paraíba não fica atrás e também possui muitas cerâmicas e poucas matas. A Caatinga desses estados praticamente desapareceu nas chaminés dos produtores de tijolos. Afora esse crime ambiental acintoso, que é o desmatamento, ele vem seguido de outro quase tão nocivo quanto, que é a extração da argila. Exaurida a matéria prima, no local restarão crateras que nunca serão tapadas e tampouco receberão os cuidados que a exploração deveria requerer. Todavia, como ninguém obriga, quem come a carne não rói o osso…
Ora, alguém poderia perguntar: “Por que não se fabricam esses tijolinhos de pedra, já que a rocha é o elemento mais abundante no Planeta?” Entre outras coisas, estou certo de que o empecilho não deve ser o peso porque o tijolo de argila ou de pedra deve ser igual ou próximo, nesse aspecto. Além disso, se o propósito é construir calçada não há motivo para preocupação se o artefato é mais leve ou mais pesado, pois nesse caso, o peso é o que menos importa. Quanto ao custo de produção, duvido que fique mais caro fabricar um tijolo de pedra do que um de barro. Então, qual é o problema? No momento o que me ocorre em prejuízo da aceitação do artefato de pedra é o fato dele não ficar liso como o tijolo de argila. Ora, alguém poderia duvidar dessa informação, porquanto com toda a tecnologia que existe atualmente, é inadmissível não existir maquinaria capaz de produzir um tijolo de pedra tão lisinho quanto o de barro. Então, qual é o problema, de verdade? A meu ver o único entrave é a falta de sensibilidade por parte dos empresários e a negligência do governo. No entanto, de um modo geral, a própria sociedade, como já disse no início desta coluna, é que não se dá conta da sua condição perdulária; esbanjadora de recursos naturais.
Eu dei toda essa explicação com o intuito óbvio de que repensemos nosso comportamento desatinado, pelo menos nesse item e também, gostaria de indagar dos economistas ligados ao governo – os que vivem a alardear a necessidade da criação de empregos – se o trabalho nas pedreiras não abriria bem mais vagas para mão de obra de baixa qualificação do que o das cerâmicas?
No caso de uma resposta positiva fica a idéia para ser aproveitada. Do contrário, deixe como está para ver como é que fica. Seu rei mandou dizer que contasse mais vinte e quatro. Entra por uma perna de pinto sai por uma perna de pato.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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