Na década de 1960, o futebol alagoano atravessava um período obscuro. Ingerências políticas ocorriam diretamente, transformando espetáculos, influenciando o resultado das partidas e até a destinação dos campeonatos. Era o período da Revolução de 1964.
Nessa época, um episódio insólito, envolvendo um dirigente e um jogador do Clube Esportivo Capelense, virou manchete na Imprensa alagoana.
Foram protagonistas daquele capítulo, o diretor de futebol, José Cláudio da Silva e o zagueiro Pires.
De estatura elevada, compleição robusta e físico avantajado, Zé Cláudio poderia ser enquadrado, com facilidade, naquilo que chamamos popularmente, de um verdadeiro guarda-roupas. Não fora sem motivo que lhe haviam colocado o apelido de “Vagão de Viçosa”, no seu tempo de jogador de futebol, devido à sua terra natal, Viçosa e ao seu corpo volumoso, como é óbvio, mas também, pela exagerada virilidade que empregava nas jogadas sobre os adversários, muitas vezes alijando-os das partidas. Dos gramados para a função administrativa sua filosofia de trabalho pouco mudara. Era um jogador casseteiro na Direção de futebol do Capelense – clube patrocinado pela Prefeitura de Capela e por um usineiro do Município. Seu trabalho consistia, basicamente, nos cuidados com a preparação física e na imposição de rigorosa disciplina, ao plantel. Nesse item era inflexível: jogador que não cumprisse os seus mandamentos sofria punição inusitada: levava uma surra de tabica. Instrumento este que o Zé deixava exposto, pendurado na parede interna do refeitório, como sinal de advertência aos desacautelados. Mais de um craque tivera, já, oportunidade de provar, no próprio corpo, a ardência daquela chibata.
O campeonato alagoano de 1965 estava sendo muito disputado e o olhar de Zé Cláudio deu pela necessidade da contratação de um jogador diferenciado, experiente, líder em campo, de preferência um zagueiro renomado, pois, sua defesa andava claudicando. Logo, foi contratado o central Pires, ex-jogador do Clube de Regatas Brasil e de vários outros times por esse Brasil afora, um atleta viajado e com grande bagagem.
Ao chegar a Capela, Pires não gostou da alimentação que era servida aos jogadores e menos, ainda, do asseio dado ao ambiente do refeitório, além dos banheiros; fato que o fez procurar o dirigente Zé Cláudio, exigindo deste, a contratação de uma faxineira e a substituição do cozinheiro, pouco afeito à higiene.
Mesmo a contragosto Zé Cláudio atendeu às reivindicações do jogador, embora, interiormente, articulasse vindita quando a oportunidade fosse favorável: “quem tem com que me pague, nada me deve”, pensara.
As coisas melhoraram sobremaneira, com a chegada do Zagueiro, o qual assumiu, verdadeiramente, o seu papel de líder, encaminhando as requisições, na qualidade de porta-voz do grupo, o que irritava Zé Cláudio, porém este suportava calado, enquanto aguardava momento propício para a desforra, preferencialmente, após a conquista do campeonato, porquanto o time vinha bem no certame, estando na ponta da tabela.
A disputa pelo título chegava às vésperas do quadrangular decisivo. O adversário era o CRB e o jogo seria em Capela, com mando de campo do Capelense. Domingo, o Estádio Manoel Moreira, reduto do time local, encontrava-se lotado. Zé Cláudio estava eufórico. Uma vitória sobre o Galo da Pajuçara deixaria seu Clube com uma mão na taça. O jogo, contudo, não teve o desfecho esperado. O CRB que começara perdendo de 1×0, reagiu e virou o marcador nos minutos finais.
Zé Cláudio ficou furioso, mas não extravasou sua ira nos vestiários. Esperou o retorno do plantel às dependências do Clube. Ali, quando todos foram reunidos para o jantar, tomou da palavra e começou as descomposturas, vociferando palavrões contra os jogadores, sem poupar nenhum. O grupo ouvia constrangido, porém, impassível. Ninguém ousava replicar. De repente, Zé Cláudio tomou da chibata e ordenou ao volante Valtinho, – a quem considerou o principal responsável pela derrota, pois, falhara no combate ao atacante do CRB, na jogada que resultara no segundo gol regatiano – que viesse até onde ele se encontrava, para levar umas lapadas.
Pires não suportou a humilhação contra um companheiro de trabalho. Levantou-se bruscamente e encarou o gigante, reprovando sua atitude enquanto informava disposição de não permitir que a ameaça fosse cumprida. Zé Cláudio não contou história, partiu para cima do zagueiro com a fúria de um cavalo enlouquecido. Pires, apesar de estatura mediana, cerca de um metro e setenta, talvez, imprópria para a posição de zagueiro, ganhara o respeito dos adversários pela grande impulsão com que vencia as jogadas pelo alto. Uma passagem histórica em sua carreira aconteceu quando defendera o CRB em uma partida onde tivera como adversário o jogador Ferreti, do CSA, ex-atacante do Botafogo do Rio de Janeiro, com quase dois metros de altura, mas que perdera para si todas as bolas aéreas. Quando Zé Cláudio avançou em sua direção, ele negaceou o corpo, ao mesmo tempo em que, agilmente, golpeava com uma cadeira, o lombo do agressor. Em seguida, aproveitando-se da síncope do inimigo, disparou porta a fora, deitando a correr, pelas ruas da cidade, sem ser perseguido.
Já, em Maceió, Pires relatou, à Imprensa, os acontecimentos verificados em Capela, causando verdadeira comoção.
Alguns dias após, passadas as emoções e com os ânimos acalmados, um jornalista afoito dirigiu-se à Capela para entrevistar Zé Cláudio.
Em lá chegando, recepcionado pelo Dirigente e conduzido para as dependências da concentração, sentaram-se à mesa do refeitório, onde foi iniciada a entrevista.
O repórter, ao longo do encontro, expôs mais de uma vez o seu ponto-de-vista contrário à atitude truculenta do Diretor interiorano deixando-o aborrecido. À medida que os quesitos iam sendo postos, Zé Cláudio ficava cada vez mais irritado, sem no entanto, deixar transparecer sua cólera. Em dado momento, porém, não suportando as críticas e em um rompante sem precedentes, levantou-se, tomou do chicote que estava na parede e desfechou violento golpe na mesa. Ante a estupefação do jornalista, bradou: -“Ta vendo isso aqui?” Disse exibindo a chibata. –“É uma tabica de cipó-fogo! Serve pra bater no Pires e em cabra safado como você!“.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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