VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

11 de julho de 2010 20:56 

Sem inspiração

Sentado frente ao computador e minha cabeça vazia. Lá fora, o ruído de vozes vinha de um apartamento qualquer no meu prédio. Alguém falava alto e pessoas riam desabridamente. Aquilo me incomodava, mas eu também, às vezes grito em casa e rio sem que ninguém reclame. Resignei-me, procurei concentrar-me na crônica que tinha a ver com as enchentes arrasadoras do mês passado. Eu estava a dever nova coluna sobre o assunto, entretanto as palavras não tomavam forma. Um mosquito me picou e como sou alérgico, a perna começou a coçar. Desviei a atenção do texto e pensei que se aquele maldito inseto fosse um “Aedes Aegypti” eu teria grande chance de apanhar dengue, como a manicura, Meire, que estava acamada com as gengivas sangrando. Veio prontamente, a lembrança de uma colega de minha esposa que morrera de dengue hemorrágica há poucos dias, mesmo sendo enfermeira…

Interiormente, esbravejei com todos os responsáveis pelo combate a essa epidemia que tomou conta do País, faz tempo. Não escaparam à minha ira, o Ministro da Saúde nem o Secretário Estadual, muito menos, o Governador Vilela que só pensa em reeleição. Lamentei ser o povo, também, culpado por tudo isso, pois muita gente vende voto e o resultado vem com a eleição de maus políticos. Vivenciamos mais uma tragédia e nossos parlamentares só arquitetam planos para abocanhar um pedaço das verbas que chegarem, por aqui. Alguém falou da preocupação do padre, durante a missa de hoje, sobre prováveis desvios de recursos federais e que ele soubera de um antecedente desabonador, através do Bispo de Cajazeiras, segundo o qual, uma pessoa bem informada dissera que do dinheiro doado pelo Brasil ao Haiti apenas a metade chegara por lá. O padre falara, ainda, em determinada matéria jornalística veiculada na TV, onde alguns prefeitos apareciam com semblantes vorazes, inclinados mais em se locupletarem do que preocupados com a miséria alheia, conjecturara o religioso.

Voltei-me para o teclado. As horas avançavam e não ocorria inspiração alguma. Pensei nos jornalistas que são obrigados a fechar matéria,diariamente, inspirados ou não. Recolhi-me à minha insignificância. Sou incompetente, mesmo. Passo toda uma semana a escolher o tema que quiser e nesse momento nada me ocorre. Que vergonha! Devo satisfação ao editor Calegari que a essa hora pode estar aguardando a crônica, inutilmente. Fechei os olhos, procurei abafar as risadas dos vizinhos, em vão. Será possível que sendo já tão tarde, aquele pessoal não se deu conta de que é proibido fazer barulho? Fui até a varanda e acendi a luz, a fim de que eles sentissem que estavam incomodando. Nada. Olhei o mar. Estava bravo explodindo ondas contra as areias enquanto o vento soprava com força. Os coqueiros balançavam e as palmas retorciam-se devido à ventania. Logo, senti frio e voltei para dentro de casa. Fiz correr a porta da sala e prontamente a zoada dos vizinhos diminuiu. Por que não pensara nisso?…

Comecei a escrever o título da coluna e parei. O tema era complicado
demais para aquela noite. Escolhi outro, mais outro e nenhum me agradou, até que Naime, minha companheira, chamou: -“Zé Luiz, venha dormir!”

Era madrugada. Desliguei o computador e fui me deitar. A crônica?… Bem a crônica fica para amanhã.

Boa noite!

———-
José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



Indique esta Mteria a um amigo

Matérias relacionadas:

  1. Muito além das ONGs


Colunas Anteriores
Visão nordestina

Todas as colunas


Amarnatureza.org.br - Jornal da Associação de Defesa do Meio Ambiente Araucária
Copyright © 2009