
Ao final de palestras ou através de e-mails, é comum eu receber perguntas a respeito de como montar um projeto social. Minha resposta é sempre a mesma. Não importa se você é uma pessoa física ou representa uma jurídica: antes de fazer um projeto social, você precisa ser uma pessoa ou empresa socialmente responsável.
Isso significa o seguinte. Se você é uma pessoa física, comece pela sua casa: além, é claro, de respeitar os demais, economize água e energia elétrica; seja um consumidor responsável (escolhendo produtos de empresas comprometidas com a sustentabilidade e não comprando supérfluos); separe os materiais recicláveis e lhes dê a destinação correta; use os dois lados do papel; e, em vez de dar esmola, veja se pode fazer algo para a pessoa sair daquela situação.
Se representa uma empresa, parta do respeito aos funcionários, pagando salário justo e dando a eles condições dignas de trabalho; escolha fornecedores que não explorem mão de obra infantil nem agridam o meio ambiente; faça os melhores produtos ou preste os melhores serviços a preço justo; implante a reciclagem em todos os níveis (escritório, chão de fábrica, para quem trabalha em casa ou na rua).
Insisto: para uma pessoa, é melhor cuidar do seu quintal do que fazer parte de ONGs, ser voluntário numa creche ou dar dinheiro para os mais necessitados. Ou seja, ser socialmente responsável em casa e, com isso, procurar influir, sem ser chato, para que os demais membros da família, amigos, parentes, vizinhos também o sejam. Imagine a força multiplicadora da pessoa que começa a agir de maneira socialmente responsável e consegue, a cada mês, que outra faça o mesmo. A multiplicação disto é exponencial. Com mais um ponto positivo: quem embarca conscientemente na responsabilidade social numa mais volta a ser como antes.
Na empresa, é a mesma coisa. Cuide dos seus funcionários, produtos ou serviços e fornecedores antes de pensar em montar um projeto social ou contribuir mensalmente com uma creche. Claro que tanto para a pessoa física quanto para a jurídica, se puder cuidar do seu quintal e também ajudar financeiramente entidades ou pessoas, ótimo. Mas, de novo, faça uma projeção: se conseguir transformar os seus funcionários e fornecedores em pessoas e empresas socialmente responsáveis, não há limite para isso.
Isso vale mais para pessoas jurídicas, mas é só aplicar o mesmo princípio na vida pessoal. A busca desesperada por um “selo” de empresa cidadã e, atenção, depois querer faturar em cima disso, leva a erros que podem significar um prejuízo de dinheiro e de imagem com possibilidade até mesmo de falência.
Afinal, nunca é demais lembrar: pesquisas mostram que quando alguém gosta de algo pode falar a outras duas, três ou no máximo cinco pessoas. Mas quando não gostam, chegam a dez ou mais.
Eis alguns exemplos de erros mais comuns. Iniciar o projeto social sem ter clareza dos conceitos de responsabilidade social empresarial, como também dos da própria empresa. Definir como objetivo algo totalmente alheio ao que a empresa faz. Por exemplo, reformar ou construir casas da periferia se é uma empresa de informática. Claro que ela pode fazer isso: mas vai gastar muito mais tempo e dinheiro para selecionar um terceiro. Seria mais simples e produtivo instalar um local com computadores para as pessoas acessarem a web, com alguém instruindo ou mesmo dando um curso formal nessa área.
Outro erro: restringir a uma única pessoa ou departamento a responsabilidade pela implantação do projeto. Não envolver o alto escalão, nem abrir para todos os funcionários a possibilidade de participar com idéias ou mesmo trabalhar no projeto. Não definir claramente o que se pretende e quais as responsabilidades de cada um. Não procurar saber o que já foi feito, inclusive pelos concorrentes. Não definir verba, nem ter noção de longo prazo. Há muito mais, mas isso é o mínimo do mínimo.
* Com Lucila Cano.
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Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social.
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