
Na coluna da semana passada, procurei mostrar um balanço do que a responsabilidade social fez no segundo semestre de 2009. Lembro agora, através de alguns exemplos, que ainda há muito que fazer.
Sócia do BNDES na “lista suja”
Em junho, o governo federal incluiu na “lista suja” do trabalho escravo a Brenco, empresa da qual o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tem 20% do capital. Entre o fim de 2008 e início de 2009, o BNDES colocou R$ 1 bilhão na empresa para implantar unidades de processamento de cana e plantação de lavoura em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, e, assim, passou a fazer parte do conselho de administração.
O aporte financeiro se deu meses após fiscais terem encontrado trabalhadores em situação degradante em Goiás e Mato Grosso. A Brenco negou as acusações e entrou na Justiça, conseguindo liminar que impede o ministério de incluí-la no cadastro.
Empresa brasileira, com investidores norte-americanos, a Brenco informou na época que ia investir, até 2015, R$ 5,5 bilhões para implantar dez unidades, “o que lhe permitirá uma capacidade de moagem de 44 milhões de toneladas por safra”.
Criada em 2004 pelo Ministério do Trabalho, a “lista suja” informa quais as empresas e pessoas “flagradas com trabalhadores em situação análoga à escravidão”.
No início de julho, o Conselho de Ética rejeitou o parecer que pedia perda de mandato do deputado federal Edmar Moreira, conhecido como o “deputado do castelo”. É bom não esquecer, entre outras, esta pérola dita em 6 de maio por Sérgio Moraes (PTB-RS) deputado federal, então relator do caso: “Estou me lixando para a opinião pública. (…) Vocês [imprensa] batem, mas a gente se reelege. (…) Todos sabemos que ele [Moreira] foi boi de piranha”.
Ou ainda esta, do próprio Edmar Moreira (sem partido-MG), em 20 de maio, a respeito do seu castelo ao se defender no conselho: “Quis o destino que fosse em formato de castelo, poderia ter formato de iglu, piramidal”.
No início de julho, a imprensa denunciou que o “comércio de carne bovina omite origem do produto”. Enquanto supermercados diziam que o “consumidor não tem como saber procedência exata” e que “suspenderam compra de fazendas do Pará”, foi encontrada carne de frigorífico daquele Estado “à venda em loja na capital paulista”.
Também em julho, saiu na imprensa que “escola usa professor para promover produto”. Segundo as notícias, as redes COC e Dom Bosco ofereciam seus 4.800 docentes para ações de marketing que incluiam distribuição de brindes na volta às aulas. As escolas se justificaram dizendo não cobrar nada e que “a ideia é agradar aos alunos e criar um envolvimento maior com as suas ações”.
Segundo a proposta das escolas encaminhada ao mercado publicitário, “os professores –‘promotores de sua marca’- podem atuar em ações de merchandising nas portas de vestibulares nas quais distribuem brindes patrocinados (como chocolates, sucos e chicletes) e vestem camisetas com as marcas. Além disso, em sala de aula, os docentes podem dar produtos com cartões de boas-vindas na volta às aulas ou distribuir atividades extracurriculares no ensino infantil com o logotipo do patrocinador”.
De acordo com matéria em jornais, “Recentemente, por exemplo, alunos do COC ganharam biscoitos recheados que acompanhavam um jogo de formar palavras trazendo impressa a marca da guloseima. Em outras ocasiões, fabricantes de chocolate distribuiram amostras com o objetivo de ‘dar energia’ aos estudantes.
* Com Lucila Cano.
Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social.
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