Um dia desses uma câmara amadora flagrou a selvageria de um grupo de policiais contra indefeso ladrão. Era um mísero jovem esquálido, talvez pela fome ou para saciar o vício em cola-de-sapateiro, que se aventurara furtar algum bem de um condomínio classe média, de Maceió.
A violência chocou as pessoas e, por causa disso, as autoridades prometeram tomar providências contra os agressores; mera retórica que dá em nada, já que a vítima não passava de um pobre coitado.
A mesma polícia que pisa e arrebenta um miserável por insignificante furto, curva-se obsequiosa frente a um deputado ladrão, por exemplo. Há casos em que policiais até ajudaram parlamentares a subtrair propriedade alheia. Um roubo bem maior.
Comportamento idêntico ocorre no âmbito da justiça, quando juízes interpretam as leis conforme sejam os argumentos empregados pelos defensores dos poderosos. Daí consolida-se a injustiça. Quem rouba milhões, salvo raríssimas exceções, não é penalizado, enquanto o larápio pé-de-chinelo termina morto ou na penitenciária. Em qualquer circunstância, os mais pobres são as vítimas. As cadeias estão repletas de réus sem eira nem beira.
Nossa sociedade tem leis implacáveis contra os pequenos, os chamados ladrões de galinha ou portadores dos três “pês”. No entanto, essas mesmas leis tornam-se amenas ante os “Guabirus, os Navalhas e os Taturanas”, conhecidos como ladrões de colarinho branco.
Alagoas é o paraíso desses bandidos. O próprio governador Teotônio Vilela Filho foi flagrado na “Operação Navalha”, da Polícia Federal e até hoje, recebeu nenhuma punição. O seu mandato está no fim e tudo indica que será renovado. Segundo o ex-Delegado Federal, Sr. José Pinto de Luna, dos 103 municípios alagoanos, pelo menos 99 são administrados por prefeitos desonestos. A operação “Guabiru”, da PF, colocou vários desses prefeitos gatunos na cadeia. A justiça soltou-os a todos. Recentemente, essa mesma Polícia Federal desbaratou uma quadrilha encastelada na Assembléia Legislativa de Alagoas. O bando, composto por vários deputados estaduais, havia se apoderado ilicitamente de cerca de 300 milhões de reais, dos cofres públicos. O processo teve grande repercussão e várias instituições da sociedade civil alagoana pressionaram pela condenação dos larápios. O Ministério Público tomou atitude e um desembargador honesto cassou os mandatos dos parlamentares envolvidos. Não demorou, contudo para o Supremo Tribunal Federal absolvê-los liminarmente e restituir-lhes as cadeiras, onde se encontram até hoje.
Agora, legislando em causa própria, os deputados Taturanas aumentaram o duodécimo da Assembléia – que já estava 3 milhões de reais mensais acima do valor legal estabelecido – em mais alguns milhões. Sabe-se que o Governador Vilela fechou a porta, vetando o projeto legislativo. Contudo, “esqueceu” uma janela aberta e por ela estão a entrar os argumentos jurídicos dos Taturanas. Pelo visto, essa sangria do erário nem tão cedo será estancada.
Como as coisas por aqui parecem casa de mãe Joana, a Câmara de Vereadores de Maceió, que recebe um milhão de reais mensais a mais do duodécimo municipal, ampliou sua gastança milionária em R$ 7 milhões, só com verba de gabinete. Segundo o Jornal Extra (edição semanal de 01 a 08 de abril/2010), o Vereador Galba Novaes, futuro presidente do Legislativo Municipal, justificou: “É preciso que se entenda que a verba de gabinete é indenizatória – o vereador não recebe para gastar, gasta para poder ser ressarcido”. Lindo, não é mesmo!
Voltando aos ladrões pequenos, que na maioria dos casos, roubam para sobreviver, já que ninguém dá, nem jamais lhes deu nada – e, também por não terem podido freqüentar as salas de aula, vêm a sociedade fechar-lhes as portas – quando furtam, muitas vezes são massacrados, ora pela Polícia ou noutras situações, pelo povo, que faz justiça com as próprias mãos, quando consegue agarrá-los. Esses miseráveis pagam com a vida, a felicidade efêmera que o poder de alguns trocados alheios lhes traz por alguns minutos de suas desgraçadas existências.
Em contrapartida, o empresário, o magistrado, o promotor, o advogado, o governador, o prefeito, o deputado, o político, todos enfim que se locupletam com o dinheiro público, que esnobam, humilham e tripudiam sobre o trabalho honesto das pessoas, ficam livres e impunes em nosso País.
São eles: Respeitáveis Ladrões!
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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