
Há no mínimo cinco anos, minha mulher e eu separamos em recipientes diversos papel, plástico, metal, vidro e embalagens longa vida. É raro, porque usamos baterias recarregáveis, mas às vezes temos alguma bateria comum, que acondicionamos em separado.
Ao menos uma vez por semana, vamos a um supermercado próximo de casa levar o que foi recolhido. Evitamos fim de semana e feriados, que é quando a maioria das pessoas tem mais tempo e o movimento de entrega do material reciclável é muito grande.
Normalmente, há duas pessoas recebendo o material num canto do estacionamento do supermercado especialmente destinado a esse fim, mas já cheguei a ver quatro pessoas trabalhando lá.
O trabalho é intenso porque a quantidade do material entregue ultrapassa a minha capacidade de cálculo. Nunca vi caminhões saindo de lá carregados, mas imagino que sejam necessários vários e diversas viagens.
De certa forma essa rotina de separar o que é reciclável e levar para aquele supermercado encerrava um ciclo que deixava a mim e a minha mulher com a consciência do dever cumprido. Imagino que o mesmo deveria acontecer com as demais pessoas que também lá levavam o que tinham de reciclável em suas casas.
Mas a Folha de S.Paulo (27/1/10) acabou com o nosso sossego. A matéria com o título acima dizia que o “material que o paulistano entrega para ser reciclado não é totalmente aproveitado e vai parar nos aterros sanitários”. E que o “desperdício reduz ainda mais a margem de lixo reciclável em SP; coleta seletiva dá conta de menos de 1% de todo o lixo produzido”.
Cartas de leitores publicadas nos dias seguintes, repercussão em outros veículos de comunicação e depoimentos de pessoas deixaram claro que o que antes parecia ser um dever cumprido acabava de se transformar numa fonte de preocupação.
E apesar de num primeiro momento todos nos sentirmos frustrados na tentativa de contribuir para a conservação do nosso planeta e darmos destino correto aos materiais, logo muitos começaram a exigir das autoridades o cumprimento da parte que cabe a elas.
Seguiram-se também ameaças com a arma aparentemente única de que dispomos e que pode ser ainda mais eficaz num ano de eleições como este: castigar nas urnas quem não está correspondendo às obrigações que lhe cabem.
Sou dos mais críticos com a reciclagem de modo geral. Não por achar que ela não deva ser feita. Mas por discordar dos motivos que levam uma parcela grande de brasileiros a ter na reciclagem importante fonte de renda.
Para muitos, a reciclagem foi o único meio de subsistência que sobrou após tanto tempo à busca de um emprego mais condizente com sua capacidade de trabalho.
Para piorar, os catadores de material reciclável são os que menos ganham, ficando para os atravessadores – que compram deles e revendem para empresas – a maior parte do ganho.
Tudo isso, mais essa triste notícia do desperdício de 35% do que poderia ser um aumento considerável na renda dos muitos que sobrevivem da coleta, quase me levam a entregar os pontos de vez.
No entanto, aproveitando um título menos famoso de um dos livros do J. D. Salinger, que acabou de falecer e fez dinheiro e fama com “O apanhador no campo de centeio”, acho que a gente não pode desanimar.
Portanto, pra cima com a viga, moçada.
* Com Lucila Cano.
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Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social.
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