Os incêndios que temos presenciado pela TV, nos últimos dias, estão devastando o patrimônio vegetal e cobrindo de cinzas o solo. Para nossa tristeza, esse desastre está a ocorrer, com mais força, em terras brasileiras, notadamente, na Amazônia e no Cerrado.
Quando vejo, ouço ou leio sobre essa calamidade, que são as queimadas, um misto de revolta, impotência e tristeza invade o meu coração e o desânimo toma conta de mim.
Faz mais de vinte anos que me engajei no movimento ecológico alagoano e, modéstia à parte, tenho ajudado a mantê-lo vivo por todo esse tempo, apesar dos pesares. Por outro lado, graças à minha militância ambientalista tive oportunidade de interagir com um dos maiores ecologistas que o Planeta já conheceu: José Antônio Lutzenberger. É dele a expressão que tomei emprestada para título desta coluna.
Enquanto vivo, Lutz combateu essa maldição e morreu sem que pudesse vê-la extinta ou mesmo reduzida, em nosso País. Ele não se cansava de explicar os males que as queimadas sistemáticas acarretam à fauna e à flora, provocando ainda a destruição do cenário natural. À fauna, dizia que entre outros animais, os jabotis, as cobras, sapos e pererecas, lagartos, tatus, pássaros como os beija-flores e tico-ticos; insetos como as abelhas, mamangavas, borboletas, besouros e gafanhotos; a fauna do solo, representada por formigas, térmitas, caracóis, centopéias, escorpiões e minhocas; um número enorme de insetos voadores que são atraídos pela luz das chamas e até mesmo animais de grande porte, também, alcançados e mortos pelos incêndios. Quanto à flora, Lutzenberger destacava espécies belíssimas das orquidáceas, bromeliáceas, cactáceas, várias plantas rasteiras endêmicas e mesmo algumas como as epífitas, com ocorrência em arbustos e árvores de pouca altura e as próprias árvores baixas e altas que sofrem a calcinação e carbonização dos seus troncos pelo fogo, tendem a desaparecer.
Sabe-se que no tempo do IBDF – Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, o Governo estimulava o reflorestamento com incentivos fiscais e, paradoxalmente, esse mesmo estímulo servia também, para o agricultor realizar o “encoivaramento” e a “queima”. A moda pegou e hoje, embora não exista mais aquela absurda discrepância oficial, os incêndios continuam de vento em popa.
Dizem que as queimadas fazem parte da cultura popular, tendo se transformado em tradição e vige na maioria dos estados brasileiros, senão em todos, desde a época do descobrimento, daí a concepção de “mato” ser entendida no sentido mais torpe, como foco de doenças, de umidade, de “bichos” e até, abrigo de ladrões. Essa visão pejorativa que só se vê por aqui e nos países mais atrasados, é a causa de um grande mal que se não for combatido com veemência pode provocar estragos irreversíveis e desencadear processo paulatino de extinção da fauna e flora nas regiões atingidas.
Sucede que autoridades, órgãos especializados oficiais e privados têm nenhuma ou pouca sensibilidade e não contribuem com medidas destinadas a resolver o problema. Não admira, portanto que a situação esteja piorada, com o incremento de um número cada vez maior de incêndios criminosos que, de forma arrasadora se alastram descontroladamente sem que se aviste solução.
Antes, por mera ignorância e agora por ganância pura, muitos produtores rurais grandes e pequenos, pecuaristas e populares de todos os tipos e classes, estes últimos sem finalidade, ateiam fogo nas florestas, nos campos, nos morros, nas beiras de estrada, nas redondezas das cidades, nos terrenos baldios e em todos os lugares onde haja “mato”.
Se a piromania permanecer desenfreada como está, de nada adiantarão outras preocupações e medidas de controle ambientais. O holocausto biológico provocado pelas queimadas é o problema mais urgente e grave com que se defronta o meio-ambiente no Brasil, com o agravante da demolição das paisagens.
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