
Levantamento feito por telefone em março com 1,2 mil recém-formados por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni) mostrou que 80% estavam saindo da escola com emprego garantido. O estudo foi feito pelo Ibope a pedido do Ministério da Educação.
O índice era de 56% antes do ProUni. A pesquisa revelou que para 68% a renda familiar aumentou desde o ingresso na faculdade. Houve, porém, acentuadas diferenças entre regiões. Enquanto no Sul, 69% apontaram melhoria, mas só 23% falaram em aumento significativo, para 36% do Norte e Centro-Oeste a renda aumentou muito.
Já me deparei com pesquisas mostrando que nem sempre essa relação é positiva e é preciso ter em mente que a situação do Brasil difere bastante de países mais desenvolvidos nos quais o percentual de pessoas que concluem a universidade é infinitamente maior.
Apesar disso, já começamos a ter por aqui algo que nesses países é bastante comum e acontece há muito tempo: pessoas trabalhando em funções as mais diversas e sem relação com o diploma que têm.
Sem querer desmerecer o aspecto positivo que a pesquisa do Ibope revela, é bom lembrar que elevar percentualmente qualquer resultado quando se parte de números baixos é fácil. Por exemplo, você pular de dois para quatro, ou seja, dobrar, é bem mais simples do que passar de 2 mil para 4 mil, que é igualmente o dobro.
Também não podemos nos esquecer de que a grande maioria dos desempregados brasileiros se situa entre os jovens com diploma universitário, mas que não conseguem trabalho, ou porque não têm experiência, ou porque o País não cresce como deveria para absorver a mão-de-obra que anualmente as universidades colocam na rua.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) provou isso em abril, apenas um mês depois da pesquisa do Ibope. Dessa vez o estudo abrangeu Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, ou seja, as seis maiores metrópoles brasileiras.
Ali o desemprego chegou a 9% em março, sendo que o número de desempregados cresceu 141 mil em relação a fevereiro e superou os 2 milhões pela primeira vez desde setembro de 2007. A maioria dos desempregados estava entre os jovens e os mais escolarizados. Os de 16 a 24 anos foram os mais atingidos, com o desemprego subindo de 18,9% em fevereiro para 21,1% em março.
No que diz respeito à educação, os menos afetados foram aqueles com até oito anos de estudo, ou seja, os que nem chegaram a concluir o ensino fundamental, o degrau mais baixo da educação no Brasil. Não esquecer que o ensino fundamental substituiu os antigos pré-primário, primário e ginásio, e tem nove séries.
Enquanto a taxa de desocupação desse grupo com até oito anos de estudos permaneceu praticamente a mesma, passando de 7% em fevereiro para 7,1% em março, a dos que têm de 8 a 10 anos de estudo, subiu de 10,3% para 11,3%, e, entre os com 11 anos ou mais, de 8,6% para 9,2%.
Isso, sem falar que gente mais qualificada, com MBA, por exemplo, demora para encontrar vaga depois de demitida. Para o IBGE, o aumento do desemprego se deveu à não abertura de novas vagas, provavelmente em decorrência da crise internacional. Em março, houve apenas 9 mil pessoas a mais com emprego em relação a fevereiro, enquanto a população economicamente ativa aumentou 151 mil.
Claro que não estamos defendendo que não é preciso estudar para conseguir emprego, mas que ninguém se iluda de que só o estudo basta para poder trabalhar. Ao mesmo tempo, é bom nem calcular o quanto o Brasil joga fora por não aproveitar essa qualificação.
* Com Lucila Cano.
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Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social.
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