RESPONSABILIDADE SOCIAL E ÉTICA

LUCILA CANO*
lcano@terra.com.br

31 de dezembro de 2010 0:09 

Propósitos de Ano Novo

Na semana passada recebi uma mensagem de Natal que destacava logo de início uma frase de Guimarães Rosa: “Cada criatura é um rascunho a ser retocado sem cessar”.

A frase do autor que se enfronhou na natureza humana para escrever suas obras tem tudo a ver com o tema desta coluna.

Todo ano, na virada para um novo ano, as pessoas se desdobram em propósitos. Os mais comuns são as promessas para largar um vício ou fazer dieta para emagrecer. Os pedidos seguidos de rituais que se estendem até o Dia de Reis também já se incorporaram à tradição dos brasileiros.

No íntimo, todos sabemos que tantos propósitos estão diretamente relacionados à imensa dificuldade que o ser humano tem para mudar atitudes e comportamentos.

As montanhas instransponíveis que erguemos em nossa frente são resultado das mesquinharias, do orgulho excessivo, da falta de autocrítica. Elas impedem uma visão de longo alcance e afetam nossa vida social e profissional. E a frustração por não atingirmos os propósitos idealmente desenhados é explicada por nosso total despreparo em processos de mudança.

Um caminho a percorrer

Especialistas em gestão dizem que a mudança só ocorre se percorrermos algumas fases: sensibilização para o assunto da mudança; reflexão a respeito de todas as ideias, dados e percepções que surgiram na fase anterior; alinhamento das ações a um plano de execução; implantação e o devido acompanhamento do plano.

Parece difícil, complexo demais? A recomendação profissional de um consultor em gestão de pessoas é de que verifiquemos se essas fases já não ocorreram em situações nas quais conseguimos mudar de fato.

Concordo que mudar é muito difícil e chegar a esse nível de domínio do comportamento, classificando-o através de fases, só me parece possível às custas de um amplo exercício de reflexão.

De qualquer maneira, por que não tentar? O ganho deve nos transformar em pessoas melhores, preparadas para o convívio com outras pessoas, tanto no trabalho quanto na vida pessoal.

Além do âmbito pessoal

Não tenho nada contra os propósitos pessoais e intransferíveis. Eu mesma já me comprometi com vários. Confesso que nem todos cheguei a cumprir. Mas, aproveitando a temporada, sugiro que, além do âmbito pessoal, nos coloquemos propósitos mais universais.

Universais, sem dúvida, mas viáveis e benéficos a nós e aos próximos, habitantes deste mesmo planeta. Listo alguns exemplos, aos quais, acredito, o leitor terá outros a acrescentar: não jogar papel na rua (extensivo a pontas de cigarro, palitos de sorvete etc.); não buzinar nas imediações de hospitais; não avançar com o carro na faixa de pedestres; não comprar produto pirata; dar lugar aos idosos no transporte público; não fechar cruzamento; não desperdiçar água; não provocar queimadas e assim por diante.

Listados dessa maneira, os propósitos universais não parecem tão difíceis, embora a prova só se valide na prática. Por isso, um único propósito pode abranger todos os demais e ser prontamente lembrado, a qualquer momento, o ano todo: não faça aos outros o que você não quer que os outros lhe façam. Ou seja, respeito é bom e todo mundo precisa e gosta.

Vivemos em uma época de forte individualismo. Objetivos maiores como eliminar a fome, preservar o meio ambiente e agir pela paz mundial só serão conquistados pela somatória das pequenas ações, aquelas que de fato nos modificam.

Por isso, convido o leitor a também se inspirar pela frase de Guimarães Rosa. Se cada criatura é um rascunho a ser retocado sem cessar, não percamos tempo. Vamos trabalhar para que 2011 nos dê a oportunidade de construirmos relações mais verdadeiras e harmoniosas e que, sem reservas, sejamos mais tolerantes, compreensivos, pacientes, respeitosos, éticos.

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* Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

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Lucila Cano é jornalista especializada em projetos editoriais, consultoria
empresarial e produção de textos sobre Responsabilidade Social e Ética.
a coluna., criador desta coluna.



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