Araucária é uma cidade que tem diversas indústrias geradoras de calor e poluição atmosférica, formando uma ilha aquecida na Região Metropolitana de Curitiba.
A população de 120 mil habitantes tem uma saúde precária, chegando ao absurdo de 800 mil exames laboratoriais/ano – a cidade com a maior renda per capita do Paraná.
Dia 16 de janeiro de 2010 começa em Araucária com o fechamento da principal via urbana, a Avenida Victor do Amaral, a única avenida com árvores da espécie Tipuana com mais de 20 anos.
É impossível entender a justificativa ou justificativas da Prefeitura, por intermédio de suas secretarias de Urbanismo, Obras e Meio Ambiente (que têm a obrigação de proteger e conservar a biota urbana e rural), de proceder de forma brutal, mutilando árvores fora de época (verão), quando estão em pleno desenvolvimento vegetativo.
O calor e umidade estão no pico e cortar de forma radical a totalidade das copas põe em risco a sobrevivência destas árvores, que ficam suscetíveis à entrada de fungos, bactérias e insetos, numa ação criminosa, tipificada na lei de crimes ambientais 9.605/98 e na lei do Código Florestal 4.771/65.
Árvores plantadas em vias públicas são da comunidade. Não pertencem ao proprietário do imóvel em frente, nem ao prefeito de plantão, nem a seus secretários. As pessoas vão e as árvores ficam, para resfriar em até 8ºC a temperatura das vias urbanas, filtrar a poeira, a poluição atmosférica, a erosão e o aquecimento global pelo seqüestro de carbono de sua copa, tronco e raízes.
As árvores urbanas são sobreviventes de um meio altamente agressivo e predador desde a mais tenra idade. Além do vandalismo, não dispõem de água, fertilidade, espaço para as raízes e são mutiladas constantemente, fazendo com que menos de 10% das plantadas sobrevivam depois de 20 anos, quando então poderão ser consideradas adultas.
Existe ainda a resistência da comunidade em conservar, manter e proteger as árvores em vias públicas, sob a alegação da queda de folhas, levantamento de calçadas, recobrimento de fachadas comerciais, entupimento de bueiros, etc. Há muita resistência e pouca consciência e educação ambiental. Este é um dos motivos para que em algumas ruas da cidade, incluindo a Av.Victor do Amaral, algumas árvores fossem abatidas sem que apresentassem problemas fitopatológicos ou morfológicos a pedido (de forma oral) por proprietários de imóveis.
As ações positivas das árvores urbanas dificilmente são ressalvadas à comunidade.
Recentemente, a Copel substituiu a rede de alta tensão da Avenida Victor do Amaral pela rede compacta, acabando com a necessidade das constantes podas de manutenção. Estávamos crentes que as mutilações nunca mais aconteceriam. Ledo engano.
Temos muito ainda a caminhar, para moldarmos um futuro sustentável para as futuras gerações !
—-
José Paulo Loureiro é engenheiro agrônomo e especialista em Gestão e Manejo de Sistemas Florestais. Formado pela UFPR em 1982, é diretor da empresa Phytotécnica Ambiental que atua na área de recuperação ambiental e produção de mudas de árvores e plantas ornamentais.
Não há matéria relacionada.
22 de janeiro de 2010