Era domingo de tarde, dia de clássico no Mutange. Centro Sportivo Alagoano – CSA e Clube de Regatas Brasil – CRB, disputavam a liderança do campeonato. Casa cheia: pessoas de pé, bandeiras alvicelestes e alvirrubras tremulando. Gente que nem formiga. Alegria e confusão. Raspadinha, pipoca, cachaça, cerveja, bolo, amendoim, tapioca, picolé e bolacha; cachorro-quente, pastel de vento e churrasquinho de gato, na brasa. Uma festa.
Atrás da barra que fica próxima da entrada principal, lado direito, na parte alta de um pequeno morro, junto aos vestiários, com uma vista privilegiada do campo, costumava ficar o Pedro.
Era um tipo comum: estatura mediana, cor branca, olhos castanhos, compleição robusta – sem chegar a forte – e careca. Usava, regularmente, terno azul-claro, camisa branca sem gravata e chapéu preto de massa; também, não largava um guarda-chuva, chovesse ou fizesse sol. Pedro era bom caráter. Católico, ia à missa aos domingos de manhã e à tarde não perdia jogo do CSA.
Era ordinariamente calmo, de fala mansa e educada. Homem respeitador e incapaz de ofender alguém. Contudo, Pedro tinha uma mania que transformava sua atitude pacata, de gestos comedidos, repentinamente, em estouvado torcedor. Essa postura aloprada, incompatível com a sua índole, observada nos estádios, valeu, a ele, a alcunha de Pedro Doido.
Naquela tarde, Pedro estava mais inquieto que de costume. Logo que o jogo começara, ele descera e subira já duas vezes a rampa, balbuciando palavras ininteligíveis. Em campo, o CRB apertava e Marcelo escorando de cabeça um cruzamento de Neném, abria o marcador para o Galo.
Pedro desceu de novo a ladeira. Chapéu na mão esquerda e guarda-chuva, em riste, na direita, tirando fino no povo – que o conhecia – no trajeto para o alambrado, como a reclamar falha do goleiro Barbosa.
O CSA deu saída. Pedro voltou a subir a rampa. O CRB se encolhia sob pressão. Pedro finca a ponta do guarda-chuva na terra. O centro-avante Clóvis escapa pela direita, ultrapassa Bernardo e cobre Moacir. Gol do CSA. Pedro dispara ladeira abaixo. Pula com as duas mãos para o céu – guarda-chuva na direita e chapéu na esquerda, a gritar: – “Goool! É gol do CSA! É gol do Azulão! Gool! Gool! Gool!”…
Termina o primeiro tempo. Pedro retorna ao seu lugar no morro e já mais calmo, aguarda de cócoras o reinício do jogo.
Segundo tempo, o CSA volta disposto. Logo aos cinco minutos, Bewilson adentra pela área e desempata, em bela jogada. – “Goool! Goool! Goool! É gol do CSA! Gool! Gool! Gool!”…
O Azulão não estava satisfeito com o placar, queria mais. Aos vinte e nove minutos, depois de uma confusão na lateral do campo, Cardoso faz o centro e Bewilson de novo, desta vez, desviando de cabeça, aumenta. CSA 3×1. É demais. Pedro pula. Pedro chora. Pedro grita: – “Gool! Gool do CSA! Gool! Eita Azulão macho da gota! Eita time de cabra macho! Esse é o meu CSA!” Gool! Gool!…
O relógio marcava trinta e seis minutos do tempo final, quando o Galo inicia a reação. Ascendino Santos, chefe da torcida, sacode a charanga e empurra o time para a frente. Pedro pressente o perigo; volta a inquietar-se. O Alvirrubro ataca. Aluga o campo do Azulão. O meia Pingüim, de fora da área, chuta por cobertura. O CRB diminui. CSA 3×2.
Pedro dispara encosta a baixo e não volta a subir a rampa. Fica a correr por trás do gol de Barbosa, resmungando tristemente: – “Goleiro frango! Frangueiro! Eita Barbosa frangueiro! Frangueiro! Peça pra cagar e saia, frangueiro!”…
Súbito, Pedro pára. Põe o chapéu na cabeça, empunha o guarda-chuva com as duas mãos, estende os braços, perpendicularmente ao tórax, em posição de combate – inimigo invisível, procedente do chão – arma paralela ao corpo, dirigida para baixo.
O atacante Nanãe recebe a bola, em tabela com Pingüim, cede a redonda para Marcelo que se desloca atraindo Boleado, enquanto passa a redonda. Nanãe entra livre para fulminar Barbosa.
Pedro crava violentamente o guarda-chuva no chão. 3×3.
Um grito lancinante desperta Pedro de sua loucura. O guarda-chuva trespassara o pé do Neto, pacato torcedor regatiano.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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