Era um almoço em família e um parente da esposa do meu sobrinho convidou-me para uma caçada na sua fazenda, em Quebrangulo/AL.
Senti um calafrio na espinha. Veio logo à mente Pedra Talhada, a reserva biológica federal que se encontra ali. De fato tratava-se dela mesma.
Meio sem-jeito e fazendo das tripas coração perguntei se não envolvia perigo de nos defrontarmos com a polícia ambiental ou com os fiscais do IBAMA, ao que o rapaz garantiu caminho livre. Disse que todo mundo da vizinhança caçava por lá. O Seu Miguelzinho, por exemplo, que é um fazendeiro antigo do entorno, toda semana vai à Mata e nunca volta de mãos vazias. O rapaz disse, ainda, que ele próprio, embora sem muita regularidade, de vez em quando trazia de lá um tatu. Meu sobrinho, que ouvira a conversa, fez uma careta e o rapaz não falou mais nada. Ele entendera o gesto e tentou justificar-se. Informou que não fazia como os outros, que eram insaciáveis, conformava-se em caçar, apenas um animal, por vez.
Voltei para casa cabisbaixo. Lembrei-me das minhas amendoeiras e das dificuldades que enfrento para protegê-las. Comparei os casos e resignei-me.
A Reserva Biológica de Pedra Talhada fica na serra das Guaribas, entre os estados de Alagoas e Pernambuco e foi considerada uma unidade de proteção integral no ano de 1989. É uma floresta perenifólia higrófila que se situa na transição entre a Zona da Mata e o Agreste/Sertão dos dois estados. Encontra-se a 882 m de altitude e sua área protegida é de 3.737 hectares. Abriga fauna diversificada com ocorrência de jaguatirica, do cervo brasileiro, lontra e raposa, macaco, tatu, paca, cotia, capivara, guandu, tamanduá e outros animais. Há, também, uma avifauna encantadora e endêmica. A flora apresenta árvores com 25 a 30 metros de altura e circunferência superior a dois metros, entre os espécimes mais desenvolvidos.
A transformação daquele ecossistema florestal em REBIA tinha a pretensão de resguardar várias nascentes, que garantem o suprimento de água da região, além de preservar amostras de espécies da fauna e flora da Mata Atlântica.
Sucede que o governo federal não deu continuidade à consolidação da reserva e esta, praticamente, ficou no papel, mesmo depois da aprovação da Lei 9985/2000 – SNUC. Os posseiros (70 famílias) permanecem há mais de vinte anos morando dentro da Mata e desfrutando o capital natural da maneira que conhecem, ou seja, caçando e desmatando para plantar lavoura, de modo a alimentar suas proles numerosas.
Eu soube que no lado de Pernambuco, a Mata está em situação pior, porque existem algumas serrarias, nas adjacências e devido a isso, não faltam machadeiros, por lá.
Recentemente, a tutela da Rebia Pedra Talhada passou às mãos do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade – ICMBio e a situação piorou. Os fiscais do IBAMA, que faziam de conta estar ali a trabalhar, foram removidos, enquanto um remanescente que aguarda a chegada de substituto tem argumentos de sobra para fazer nada, pois está sozinho. Como a “filial” do ICMBio mais próxima fica na Paraíba, a proteção da Mata encontra-se do jeito que o parente da esposa do meu sobrinho falou – entregue as baratas.
A criação da Rebia Pedra Talhada pelo governo federal parece ter servido para nada, além de conferir diplomas. Não são poucas as Faculdades que têm mandado estudantes e professores para lá. A Mata que é, de direito, uma unidade de proteção integral só pode ser visitada por pesquisadores e esses não param de chegar. Dali tem saído Trabalhos de Conclusão de Curso, Monografias, Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado. São milhares de pessoas ilustres que se beneficiam da presença daquele ecossistema e embora, conheçam a problemática dali, pois é inevitável, durante os trabalhos de campo, cruzar com os degradadores, pouco ou nada têm feito para defender a Floresta. Nenhuma ação, que se tenha notícia, foi desencadeada por esses intelectuais, em prol da Reserva. É como diz o provérbio: comeram a bóia e rasgaram o saco!
Não sei até quando aquele pedaço de Mata Atlântica vai resistir. Sob fogo cerrado de pessoas desinformadas, insensíveis ou mesmo dominadas por conveniências pessoais, a Mata aos poucos vai morrendo. Brevemente, não restará amostra alguma do Bioma e tampouco as nascentes que formam os riachos continuarão a fluir. Vai haver falta de água e todo mundo gritará que o Governo é o culpado, inclusive os políticos locais, que se utilizarão do mote em suas campanhas eleitoreiras.
A situação da Reserva Biológica de Pedra Talhada é preocupante e necessita urgentemente que o Ministério Público Federal tome uma providência enérgica para obrigar o Governo a protegê-la. Senão…
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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