5 de março de 2010 17:27 

Parque Nacional da Serra Vermelha está virando carvão, denuncia a Reapi

DA REDAÇÃO

A Rede Ambiental do Piauí (Reapi) denuncia manobra que estaria sendo articulada pelo governador do Piauí, Wellington Dias (PT) e pelo ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, para beneficiar o grupo JB Carbon, do empresário carioca João Batista Fernandes. Segundo a Reapi, a manobra consistiria em substituir a criação do Parque Nacional de Serra Vermelha pela ampliação do Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí, deixando fora de proteção área de mais de 100 mil hectares, explorada pela JB Carbon, para a produção de carvão. A Reapi divulgou nota de denúncia e repúdio, que obteve a adesão de 46 entidades ambientais.

ÍNTREGA DA NOTA DE DENÚNCIA E REPÚDIO

“A Rede Ambiental do Piauí vem a público denunciar e repudiar a visível manobra articulada a portas fechadas pelo governador do Piauí, Wellington Dias e pelo Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (ambos do PT), no sentido de tentar proteger a empresa JB Carbon, que grilou 114 mil hectares de terras públicas na última floresta do semi-árido do Nordeste, localizada na Serra Vermelha, no Sul do Piauí, e que vinha desmatando a mata nativa da Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica da região, para produzir carvão.

A manobra mascarada de “proteção aos ecossistemas” da região, consiste em não criar o
Parque Nacional da Serra Vermelha, mas ampliar o Parque Nacional da Serra das Confusões, deixando de fora exatamente a área da JB Carbon, uma vez que a proposta do Grupo de Trabalho Técnico, instalado pelo próprio Ministro do Meio Ambiente, propôs um polígono com área de 436.995 hectares para esta ampliação e o que está sendo veiculado na
Imprensa, tanto nos sites oficiais do MMA e do governo do Piauí, quanto em outros sites, é que a ampliação do Parque Nacional da Serra das Confusões será de apenas 270.000 hectares. Fica clara dessa forma a existência de uma manobra para deixar de fora da ampliação proposta a parte mais importante da Serra Vermelha.

Não questionamos a necessidade de se ampliar o Parque Nacional da Serra das Confusões, que já é a maior unidade de conservação na Caatinga e que mesmo assim precisa mesmo ser ampliada para proteger a rica biodiversidade ameaçada da região. Entretanto, deixar de fora a área mais nobre da Serra Vermelha é um absurdo e mostra existirem interesses e
dívidas eleitoreiras entre o governador do Piauí e a empresa JB Carbon, uma das prováveis
financiadoras da sua andidatura à reeleição para governador. Vale lembrar que quem comanda a JB Carbon é o empresário carioca João Batista Fernandes, conhecido do Ministro do Meio Ambiente, que também será candidato nas próximas eleições.

É realmente muito estranho que o Ministro tenha formado um Grupo de Trabalho Técnico (anunciado publicamente pelo próprio Ministro durante a Semana da Mata Atlântica,
realizada no Rio de Janeiro, em 2008 e depois oficializado através de portaria), com os mais capacitados técnicos do MMA, do ICMBio, do governo do PI e da Rede de ONGs da
Mata Atlântica, para aprofundar os estudos na região sobre a importância biológica e propor o desenho do futuro Parque Nacional da Serra Vermelha e agora desconsidere todo
o trabalho técnico realizado durante meses, que consumiram significativos recursos públicos, em troca de uma proposta sem fundamentação técnica e claramente eleitoreira.
Levando em conta os discursos do Ministro Carlos Minc sobre “desmatamento zero e o jogo duro com os empresários devastadores”, chega-se a conclusão de que essas medidas não serão aplicadas no Piauí.

A sociedade piauiense e brasileira espera outro tipo de atitude por parte dos governantes. Que se crie o Parque Nacional da Serra Vermelha ou que se amplie o Parque Nacional da Serra das Confusões, mas com o polígono sugerido pelo Grupo de Trabalho Técnico, sem deixar nenhuma área de fora e muito menos por conta de negociatas de interesses escusos.

Teresina (PI), 23 de fevereiro de 2010.
Rede Ambiental do Piauí – REAPI ”
reapi.pi@gmail.com

ENTIDADES QUE ASSINAM A NOTA DE DENÚNCIA E REPÚDIO

1. Rede Ambiental do Piauí – REAPI
2. Fundação Rio Parnaíba – FURPA
3. Apremavi – Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida
4. APROMAC – Associação de Proteção ao Meio Ambiente de Cianorte
5. Associação de Defesa do Meio Ambiente Araucária – AMAR
6. APEDEMA-RJ
7. Rede Mata Atlântica – RMA
8. Vitae Civilis Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz
9. FBOMS – Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
10. Centro de Orientação Ambiental Terra Integrada – COATI – Jundiaí
11. In-PACTO Instituto Proteção Ambiental – COTIA/SP
12. Instituto Memorial J.Quadros – COTIA/SP
13. Centro de Estudos Ambientais – CEA
14. Instituto Ambiental Vidágua
15. Associação Movimento Paulo Jackson
16. Sociedade Agrense de Produção Ecológica – SAPE
17. Instituto para o Desenvolvimento Ambiental- IDA
18. Movimento Baía Viva e Movimento de Defesa do Rio Macaé
19. AGB-Rio Associacao dos Geografos Brasileiros
20. Bicuda Ecológica
21. Amigos da Natureza – APAN
22. Sociedade Terra Viva
23. Associação Mineira de Defesa do Ambiente – Amda
24. Ameca – Associação Movimento Ecológico Carijós
25. Organização Bio-Bras
26. Instituto de Pesquisa da Mata Atlântica – Ipema
27. Associação em Defesa do rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar – Apoena
28. Instituto de Pesquisas Ecológicas – IPÊ
29. Fórum Carajás
30. Rede Brasileira Ecossocialista
31. Associação Alternativa Terrazul
32. ONG Mira-Serra
33. ONG-Gambá
34. REDECRIAR – Reciclando a Cidadania em Rede Interdisciplinar
35. Instituto Novos Saberes
36. Grupo de Defesa Ecológica – GRUDE – RJ
37. Rede Brasileira de Informação Ambiental – REBIA
38. Sociedade Educacional “Fala Bicho”
39. SOS Mata Atlântica
40. 4 Cantos do Mundo
41. Instituto Centro de Vida – ICV
42. Associação Ecológica Força Verde
43. Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – AGAPAN
44. Sociedade do Sol – SP
45. Fase
46. Associação Potiguar Amigos da Natureza – ASPOAN
47. Conservação Internacional
——-

Serra Vermelha ameaçada pelos interesses políticos


Dionísio Neto
Rede Ambiental do Piauí – REAPI

No sul do Piauí está localizada a Serra Vermelha, a qual possui uma importante floresta brasileira, que é considerada um ecótono, com presença de três biomas: caatinga, mata altântica e cerrado. Estudos do Ministério do Meio Ambiente – MMA apontam que a região é uma área prioritária para a preservação, e existia na época da ex-ministra, Marina Silva, o interesse por parte do MMA de se criar mais uma Unidade de Conservação no Brasil, mas o governador do Piauí, Wellington Dias, vetou a criação do Parque Nacional, juntamente com o ICMbio favorecendo novamente as inúmeras carvoarias.

A reunião para decidir o futuro da Serra Vermelha foi realizada a portas fechadas na sede do governo do Piauí, nesta última segunda-feira (08), com a participação do governador, IBAMA, e do presidente do ICMbio, Rômulo Melo. Na pauta estavam a Serra Vermelha, revisão do mapa da mata atlântica no Piauí e da criação do projeto de conservação do peixe-boi no litoral piauiense.

O governador está fazendo manobras para evitar a criação do Parque, sendo que na primeira delas ele deseja retirar o Piauí da Mata Atlântica, e a outra é fazer com que o presidente Lula assine um decreto, no próximo dia 05 de março, que amplia o Parque Nacional Serra das Confusões em 193 mil hectares, com isso deixará de fora mais de 300 mil hectares da Serra Vermelha, beneficiando assim, empresários que devastam terras públicas para a produção de carvão destinados as siderúrgicas e estimulando o trabalho escravo.

A região continua sendo desmatada, pois a fiscalização é insuficiente e existe má vontade dos órgãos competentes em proteger a biodiversidade da região. Além da grande repercussão negativa na mídia nacional e internacional o governo insiste em entregar a área para grandes empresas destruidoras, como é o caso da JB Carbon, cujo projeto Energia Verde foi paralisado pela Justiça Federal. O fato comoveu a sociedade brasileira, mas projetos parecidos podem voltar ameaçando a maior parte da floresta.

O movimento ambiental no país tem se mobilizado e apoiado a criação do Parque Nacional com uma campanha em defesa da Serra Vermelha, organizada pela Rede Ambiental do Piauí e importantes ONGs como a Fundação Rio Parnaíba. Mas o movimento ambiental teme pelo pior, pois o governador do Piauí foi financiado na última eleição pelo ramo da siderurgia e está comprometido com os interesses destas empresas. O fato pode ser comprovado nas contas de campanha política no site do TSE, onde o governador do PI recebeu 150 mil reais da Companhia Siderúrgica Nacional – CSN. A criação da UC fere os interesses de grandes empresas poluidoras ligadas ao ramo.

A região abriga diversas espécies ameaçadas de extinção a exemplo do primata bugio, da anhuma e da onça pintada, e com a não criação do Parque a floresta pode desaparecer ainda mais depressa.



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