VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

12 de outubro de 2009 18:51 

Os prefeitos e as árvores ornamentais de Maceió

O saudoso ambientalista José Lutzemberg costumava dizer que ao ser indagado pelas pessoas, na rua, sobre o estado de saúde do meio-ambiente, respondia sempre com um sorriso amarelo e sem palavras.

Quando alguém do povo, em Maceió, cumprimenta-me e pergunta como vai a Natureza, respondo simplesmente: mal! E vou embora. Não dá mais para conversar, nas vias públicas, assunto de Ecologia, desculpem-me! Gato escaldado de água fria tem medo.

Árvores mutiladas.Minha terra possui os recantos mais bonitos e o povo mais hospitaleiro do Nordeste. Em contrapartida vicejam os piores políticos do Brasil, depois do Maranhão. Juntam-se a eles, uma dezena de grandes empresários astutos e desonestos.

Agora, façamos um simples exercício mental: vamos misturar os políticos com os dez grandes empresários e deixar Alagoas nas mãos deles, conforme se encontra, para ver no que vai dar.

Alguém chegou a alguma conclusão? Bem, acrescente que a população é paupérrima, mal informada e tem o vício de vender o voto e que a Imprensa mantida pelas doações governamentais, travestidas de cotas de divulgação das “realizações” da administração pública, tende a ficar calada.

Certamente, o caríssimo leitor já tirou suas conclusões.

Pois bem. A partir desse simples raciocínio, deve esperar-se algo positivo em relação à defesa do meio-ambiente? Sem querer tergiversar: se eles não cuidam da saúde, nem da educação, nem da segurança, nem da assistência social, tampouco dos serviços de transporte, água e energia, do emprego e trabalho, cultura etc… Para eles meio-ambiente é um bicho.

De fato, a questão ambiental em Alagoas está no fim da lista de prioridades, se é que existe lista disso, por aqui. A tutela do meio-ambiente pelo Estado, que é do IMA e da Secretaria Estadual de Meio-Ambiente e Recursos Hídricos só funciona para empregar os apaniguados políticos. O mesmo ocorre com a Secretaria Municipal de “Proteção” ao Meio-Ambiente de Maceió – SEMPMA. Se sairmos na direção dos demais municípios alagoanos é pior, porque neles os órgãos tutelares nem existem de verdade.

Agora, vamos ao que interessa, deixemos de lado essa conversa de cercar Lourenço e falemos de nossas árvores ornamentais, porque se não ficarmos a lembrar delas decerto irão desaparecer mais depressa, ainda.

Maceió tem uma sorte danada com os prefeitos eleitos. O governo de Ronaldo Lessa foi desastroso. Em sua administração derrubaram-se mais de 1000 árvores ornamentais. Contudo, para ser justo, foi permitida a execução de um projeto privado de plantio de árvores ornamentais, trazido pelo Dr. Jairo Costa (FBCN), para Maceió, que não deu certo. Não vou analisar o que estava errado nele para não perder tempo. Mas, de antemão adianto que não contou com a ajuda da Prefeitura e culminou com o pior fracasso: não vingou uma só árvore! Depois de Ronaldo Lessa veio Kátia Born Ribeiro – Prefeita, com dois mandatos. Nos seus oito anos consecutivos no comando de Maceió, árvore nenhuma foi plantada, em compensação desapareceram tantas que perdi a conta. Nossa Cidade beirou o topo; é a segunda Capital mais árida do Nordeste. Agora, temos Cícero Almeida- Prefeito, já no segundo mandato. Aí, vamos dar a César o que é de César. De todos os prefeitos de que tenho notícia, o atual é o maior inimigo do meio-ambiente. Cognominado “O Homem de Concreto”, pretendia substituir a nossa “sem graça” arborização ornamental, por árvores de cimento armado pintadas de verde, porque segundo ele arvores naturais só servem para cair sobre os automóveis. E a população aplaudiu. Mas, o secretário Ricardo Ramalho, da SEMPMA, fincou o pé em defesa das plantas. Disse não ao Prefeito e apresentou um projeto revolucionário. Engenhoso, o agrônomo Ricardo Ramalho, mandou remover a copa de todas as árvores ornamentais – nos canteiros centrais das ruas e avenidas, nas praças públicas, nas calçadas, em qualquer lugar onde elas pudessem causar “danos” ao povo. Imaginem! Estava tão entusiasmado com a “salvação” das plantas que se esqueceu da existência, de pelo menos uma ONG ecologista viva, em Maceió, para lhe barrar os passos: a Sociedade Ambientalista Mãe Natureza – SAMAN. Resolvemos dar um basta, antes que ele degolasse toda a nossa arborização. Fizemos denúncia ao Ministério Público Estadual. Agora ele deu uma paradinha. Em retaliação, no dia da árvore, 21 de setembro, mandou mutilar oito amendoeiras que plantei, há vinte anos, defronte da minha casa e só não deu cabo delas porque cheguei a tempo e esperneei muito. Tanto que alguns amigos meus de uma emissora de rádio local, ouviram e alarmaram. Apareceu a Polícia e algumas pessoas que me ajudaram a atrapalhar a operação. Ele freou, mas prometeu voltar depois.

Assim como o futuro do meio-ambiente, no Planeta, a arborização decorativa urbana de Maceió, está por um fio. O MPE é lento e parece ter má-vontade conosco. Eu soube à boca miúda, que eles já estão de saco cheio com as minhas reclamações. Acho que uma hora dessas vão fazer ouvidos de mercador e o meu último bastião cairá por terra. Não sei mais o que fazer.

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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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