Um dia desses discuti com minha irmã Norma, que foi professora durante boa parte de sua vida, sobre os limites da educação. Ela, naturalmente, defendeu a causa e garantiu que na maioria dos casos os problemas brasileiros decorriam da falta de educação.
De certo modo, concordo em alguma coisa, com o ponto-de-vista dela, pois também acredito que a educação, no que tange ao ganho de conhecimento e modificação do comportamento, torna as pessoas mais aptas para entenderem os processos de convivência no mundo civilizado, mas discordo inteiramente, quando ela se entusiasma e sugere que a instrução é a panacéia para todos os males.
Não é não, em absoluto! E não preciso ir muito longe para contestar essa assertiva, porque convivo com as provas diariamente, na minha rotina de ecologista. Nesse ponto, na questão do trato com os objetos naturais e genericamente, em relação ao meio-ambiente, falo sem medo de errar: educação serve para nada!
Tenho certeza que ninguém daqui está interessado (a) em conhecer a lista interminável de casos que guardo na memória, por isso vou restringir-me a um caso em particular, que se passou faz poucos dias e aconteceu com pessoas minhas conhecidas; gente culta e bem informada.
Pois bem. Mês passado, uma caravana viajou a passeio com o fim de visitar um parente que possui uma fazenda, no meio do mato, no Estado do Maranhão. Lá não tem água encanada, nem energia elétrica e a povoação mais próxima fica há cerca de cinquenta quilômetros. Conforme contaram, ninguém que reside ali compra a carne ou o peixe com que se alimenta, tudo vem da floresta. Os viajantes, também, não sentiram escrúpulo de consciência algum em abater os animais silvestres que fizeram parte das suas refeições, enquanto lá permaneceram. O pior de tudo é que adquiriram no caminho de volta, pelo menos três papagaios. Quando perguntei se não recearam serem flagrados pela fiscalização, eles riram e disseram que a estrada estava repleta de negociantes e livre de fiscais.
Fiquei estarrecido! Certamente, por aquelas bandas, não existem, de fato, órgãos tutelares de meio-ambiente, só no papel. Meu consolo é saber que os três animais trazidos estão em ótimo estado de saúde, segundo me disseram.
Como vocês estão vendo, para aquelas pessoas esclarecidas caçar ou mesmo criar animais silvestres é coisa sem importância.
Em contrapartida, o fato de minha irmã, que é uma pessoa idosa, defender com unhas e dentes o instituto da educação já não me aborrece. Faz tempo não trato, com ela, de assunto ligado a Ecologia. Ela, assim como a maioria das pessoas na sua idade jamais se sensibilizarão com as coisas da natureza, estou ciente disso. O que me deixa entristecido é lidar com jovens, muitos dos quais no exercício do magistério, que falam de educação com a mesma veemência dos antigos e sem compromisso nenhum. Quando, em algumas oportunidades, queixei-me do descaso das pessoas para com a Natureza, responderam com ar de superioridade, que era falta de educação. Que pessoas educadas não cometem esse tipo de delito. Calei-me, como sempre me calo nesses momentos. Interiormente, eu sei e isso me basta, que a gente vetusta receia perder sua comodidade caso aceite defender os princípios ecológicos e como já estão mais pra lá do que pra cá, nunca haverão de engajar-se nessa luta. Por outro lado, que dizer dos moços? Ora, caberia a eles, por razões óbvias, abraçar a causa com todas as forças, porém, isso não se dá.
E ninguém me diga que é por falta de educação!… Não é mesmo! Os seres humanos – está provado – colocam antes de tudo suas conveniências pessoais.
No caso dos procedimentos delituosos, como o das pessoas que caçam animais silvestres, não tem educação que dê jeito, só cadeia mesmo!
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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