NOS DENTES DA MOTOSSERRA
Li esta semana um artigo do Secretário Xico Graziano, sob o título, “Motosserra sem ideologia”, publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, que me deixou perplexo.
Nele, Graziano solta o verbo sem nenhum pudor. Sua fala surpreende porque, em público, os políticos costumam ser politicamente corretos. Ele não foi!
Vimos um artigo bem escrito, próprio de quem sabe manipular as letras. Tem conversa para derrubar avião e qualquer um que não seja bem informado pode ser laçado pela tapeação. Até na Lista CNEA (Cadastro Nacional das Entidades Ambientalistas), do CONAMA, ele foi sugerido para reflexão. Acreditem!
A Crônica descreve uma paisagem, cuja fotografia a maior parte dos ambientalistas já viu. Todos sabem, por exemplo, que partido político nenhum defende a Natureza. Nem o PV! Todavia, esse fato não significa dizer que não possa existir ecologista com ideologia. Pode sim! Independentemente da cor que adotem os seus integrantes, desde que o verde prevaleça, a convivência entre os pares é possível assim como o amor pelo ecossistema.
Agora, Seu Xico, não me venha com essa história de que as madeireiras asiáticas não foram preponderantes para a instalação dos desmatamentos, assim como afirmar não estar diretamente ligado à devastação das matas, o fato de estarem os grandes latifúndios nas mãos de empresários e de políticos corruptos, que não vou aceitar. Ninguém devasta floresta sem que haja estrada, principalmente na Amazônia. E a criação extensiva de gado bovino, ali, por acaso é obra dos pequenos agricultores?
E quanto aos indígenas? É muito fácil atirar pedra nos índios, eles vêm sendo vilipendiados, agredidos, chacinados e roubados pelo homem branco, sem condições de se defenderem, faz muito tempo. Sua versão das palavras de Orlando Villas Boas, sobre o índio ser anti-ecológico, é de doer na alma, dá uma conotação de que o grande indigenista brasileiro contestava o modo de vida dos nativos, o que não é verdade. O comportamento do Selvagem que derrubou o açaizeiro não significa necessariamente, que toda a tribo proceda da mesma forma ou que seja uma orientação passada pelos ancestrais dele; tenho certeza de que não é assim. Aquele índio, se é que ele derrubou mesmo a árvore para surrupiar o cacho de açaí, pode ser apenas um indivíduo desgarrado – uma ovelha negra, aquilo que na sociedade “civilizada” chamamos de marginal e que, portanto, não se deve generalizar, sob pena de transformar-se em preconceito!
Outra coisa, falar de Rousseau e Schumacher nesse tom descortês e pedante, utilizado pelo Senhor, faz lembrar os boçais que, por desconhecerem a singularidade de cada época, não alcançam o seu real valor. Uma pena!
Já que o Senhor diz conhecer profundamente a história da nossa civilização, inclusive a da colonização da terra de Tio Sam e desde que o seu pragmatismo o conduziu a desfechar ataque tão descabido contra os índios norte-americanos, no caso dos bisões, cumpre-me apenas colocar a seguinte questão: Será que os indígenas dos Estados Unidos eram tão falto de inteligência, que de uma hora para outra, à simples presença de armas sofisticadas, teriam se deixado levar ao cúmulo de promover matança indiscriminada dos animais que serviram para alimentá-los, durante gerações, terminando na penúria? Ora, isso é conversa para boi dormir!
Não admira que o Senhor tenha se lembrado dos “Sem-terra”, pois ultimamente eles vêm sendo alvo dos atiradores da direita reacionária, sobretudo, os grandes latifundiários que tentam passar falsa idéia à sociedade de que o MST é um antro de comunistas, de invasores e saqueadores do patrimônio alheio. Isso é meia-verdade e como tal não se sustenta. O fato de existir na cúpula do Movimento, pessoas ideologicamente de esquerda não invalida a proposta de liberar um pedaço de terra para quem nada tem de seu. O MST é, talvez, um dos raros projetos sérios desse País e eu acredito que essa seriedade se deve aos marxistas, independentemente do fato de ter se estabelecido no Governo Fernando Henrique Cardoso e continuado sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva. Ele vem paulatinamente corrigindo uma injustiça social histórica, que é a posse da terra, no Brasil. Algumas correções de rumo precisam ser feitas e certamente haverão de acontecer, a fim de que o Movimento se consolide e possa produzir frutos, sustentavelmente. Entre essas modificações está a necessidade de orientação quanto ao respeito pela Natureza. No mais, a massa do MST, pode ter certeza, não possui ideologia, só quer terra para trabalhar e viver.
Não vou discutir outros pontos do seu artigo para não ser cansativo e por entendê-los sem maior relevância, exceto à sua afirmação de que o fator responsável pelos problemas enfrentados pelo meio-ambiente é a explosão populacional humana. Nisto concordo inteiramente com o Senhor. Esta sim é a pura verdade! Tudo o que se produz, o que se pesquisa e inventa, no Planeta, tem como objetivo atender às necessidades humanas. Quanto mais gente exista tanto mais recursos haverão de ser extraídos da Natureza. Aí está a causa principal de todos os problemas ambientais, com educação ou sem ela, conscientemente ou não. É lamentável saber que nenhum governo até o momento teve coragem de enfrentá-la.
Com Dilma, Serra, Marina ou qualquer candidato de partido nanico, ideológico ou não, que venha a ser eleito, os números da espécie humana continuarão a crescer em um planeta finito que é a Terra e, por isso, nossas florestas, enquanto existirem, estarão sempre nos dentes da motosserra.
As questões ambientais precisam ser levadas a sério por todos, senão … O Planeta ficará como a cantiga da perua – de pior a pior!
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