18 de fevereiro de 2010 13:21 

Orgânicos: certificação só será obrigatória em 2011

DANIIEL MELLO, LÚCIA NÓRCIO, LUIZ AUGUSTO GOLLO, VITOR ABDALA

AGÊNCIA BRASIL

No mercado de alimentos orgânicos, as associações de produtores vão além da simples intermediação de vendas.

Além de dar a seus associados orientação sobre o manejo e a venda dos alimentos, elas garantem a certificação dos produtores, que dividem os custos desse serviço.

Os membros da Associação de Agricultura Ecológica (AGE) do Distrito Federal, por exemplo, aprenderam juntos os princípios da produção orgânica. Com 20 anos de atuação, a AGE tem atualmente 17 associados, sendo 12 deles ativos (os que levam produtos para vender nas feiras).

Os associados da AGE só comercializam os alimentos que produzem em feiras. Eles estimam em R$ 15 mil por semana o total vendido pelo grupo. Depois de retirada a porcentagem da associação e dos gerentes de pontos de venda, o valor obtido é dividido entre os produtores.

O gerente da AGE, Marilberto Zavão Lima, diz que não tem dificuldade para vender. “A dificuldade é ter produto para vender.”

Deusmar Alves, produtor do Sítio Mangabeira, que trabalha com orgânicos há 16 anos, conta que aprendeu o que sabe na AGE e que há muita troca de informações com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF).

“Hoje a Emater cresceu muito, abriu muito espaço para o crescimento da agricultura orgânica, mas, no início, a gente tinha mais informações só entre nós mesmos produtores.” Ela destaca o tipo de auxílio que os produtores recebem da associação e a ajuda que prestam uns aos outros. “Nosso lado técnico hoje é bastante informal. Quando um produtor tem dificuldade já vem procurar saber com outro o que está certo, o que está errado.”

Também filiado à AGE, Jorge Artur Chagas produz orgânicos há 25 anos. Segundo ele, no início, a associação não tinha ajuda do Poder Público. “Os programas agropecuários são bastante voltados para o modelo convencional, ainda hoje há dificuldade”, afirma Chagas, que defende a venda sem intermediários. “A venda nas feiras é o ideal para a produção local. O consumidor sabe o que está comendo, conhece o produtor e o sítio.”

O Sítio Gerânio, de Francisco Marcolino, produz orgânicos desde 1988. “Percebemos a importância do alimento orgânico ao ver os males causados pelo convencional – entre os próprios produtores, muitos passavam mal de tanto usar veneno, tanto produto químico. Aí, a gente viu a necessidade de não mexer mais com esse tipo de produto.”

Por motivo semelhante, José Ibaldi, dono da Chácara Santa Cecília, decidiu converter sua produção para orgânicos em 1998. “Não estava me sentindo bem usando produtos químicos, sobretudo agrotóxicos. Aquilo não estava me agradando, e também aos empregados que trabalhavam comigo, porque me pareceu prejudicial à saúde do pessoal todo.”

Para iniciar a nova atividade, Ibaldi conversou com outros produtores, visitou propriedades e fez cursos na Emater. A empresa reuniu um grupo de produtores para discutir comercialização de orgânicos e daí surgiu a ideia de criar o Supermercado Orgânico da Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa-DF), em 2001.

Em dezembro do mesmo ano, uma associação de produtores orgânicos começou a funcionar na Ceasa, inicialmente em um estacionamento. Quatro anos depois, eles foram para um galpão e atualmente contam com apoio de um mercado na Ceasa que funciona durante dois dias na semana. As vendas semanais ficam em torno de R$ 15 mil.

Há também barracas que vendem produtos orgânicos em diversos pontos da cidade. Uma delas funciona semanalmente, há cerca de seis anos, em frente ao Ministério do Meio Ambiente, por meio de parceria entre os funcionários e produtores do Assentamento Colônia I.

Dora Sugimoto, que presidia a Associação dos Trabalhadores do Ministério do Meio Ambiente, conta que a ideia surgiu em 2003, quando fez um trabalho sobre economia solidária com alunos da Escola Técnica de Unaí, a convite da Universidade de Brasília (UnB).

Ela sugeriu, então, que os funcionários agissem como se fossem consumidores. Eles fizeram então uma visita ao assentamento e doaram sementes orgânicas aos agricultores.

“Uns 40 dias depois, eles apareceram com os produtos, e nós pensamos: ‘agora temos que fazer a nossa parte’.” Foi daí que surgiu a feira, lembra Dora, que consome orgânicos desde essa época. “Você economiza na farmácia a diferença que gasta num preço mais diferenciado.”

Custos explicam diferença de preços

 Custos maiores podem explicar os preços mais altos dos produtos orgânicos nas feiras e nos supermercados. Para alguns produtores, entretanto, a comparação pode não ser tão simplista.

O alimento orgânicos é mais caro do que o convencional, mas esse tipo de comparação não pode ser feita, diz o agrônomo Jorge Artur Chagas de Oliveira, dono do Sítio Alegria, em Brasília. É mais caro porque não são produtos iguais. “Por isso, os preços são diferentes.”

“Não é dizer que o produto orgânico é mais caro. O produto orgânico precisa de mais mão de obra e de mais tempo para a produção”, conta Deusmar Alves, dono do Sítio Mangabeira.

O pesquisador Francisco Vilela Resende, da Embrapa Hortaliças, concorda com os produtores e explica que a produção de orgânicos pode ser um pouco mais cara por causa dos custos adicionais, como a certificação e a necessidade de mais mão de obra.

“Mas, com exceção disso, [o gasto com orgânicos] não é tão elevado. No início, o custo pode ser um pouco mais elevado [com a certificação e a mão de obra], mas a partir do momento em que a propriedade começa a funcionar num sistema orgânico de produção, esses custos tendem a se igualar aos da produção convencional”, afirma o pesquisador.

“A produtividade do orgânico depende da cultura plantada. Nas ‘mais problemáticas’, como a do tomate, a da batata e a do morango, a produtividade é menor. Não temos tecnologia para obter a mesma produtividade”, diz Resende. Ele ressalta que, nas folhosas, a produtividade, em geral, é a mesma.

No período de transição da terra – quando não se usam mais agrotóxicos, mas a produção ainda não pode ser vendida como orgânica – os gastos são mais elevados. “Nesse período de um ano [de conversão] o produtor tem uma diminuição na lucratividade. Esse é um problema, precisaria haver uma forma de subsídio para o produtor resistir e continuar na atividade”, afirma Resende. Depois da transição, o lucro do produtor vai aumentar porque os preços são, no mínimo, 30% mais altos.

Para Resende, o que explica a diferença no preço é a questão da oferta e da procura, pois a demanda por orgânicos supera a oferta. Ele admite, no entanto, que sempre haverá diferença de preço porque o orgânico é um produto de melhor qualidade.

“Mesmo que a oferta se torne suficiente para atender ao mercado, o produto orgânico tem que custar um pouco mais, porque tem valor agregado. O consumidor deve ter sempre em mente que é um produto de melhor qualidade.”

Os consumidores acreditam que o preço, apesar de mais elevado, compensa.“É um caro que vale a pena. É uma diferença mínima para quem busca qualidade de paladar e de vida”, afirma Clícia Maria da Silva Cardoso. O dentista Fábio José Turco concorda. “Certamente é um comércio mais restrito, mais caro. Porém, existe a certeza de estar consumindo um produto melhor.”

Preocupação com saúde motiva consumidor

 A preocupação com a saúde e com o impacto ambiental é o principal fator que leva o consumidor a buscar produtos orgânicos.

É o que aponta o pesquisador Francisco Vilela Resende, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Unidade Embrapa Hortaliças.

Resende diz que o interesse em alimentos sem resíduos de agrotóxicos e de produtos químicos é cada vez maior.

Ele ressalta, porém, que não existem pesquisas conclusivas da Embrapa comparando a quantidade de nutrientes e sais minerais nos alimentos orgânicos e nos convencionais. Algumas pesquisas da empresa, no entanto, mostram que os orgânicos têm mais vitamina C e antioxidantes.

O pesquisador explica que o método de produção do alimento também influencia na qualidade nutricional. “Se você tem um alimento produzido em sistema orgânico, que tem maior qualidade agregada, mas não é manuseado de forma correta, ele vai perder qualidade.”

Além disso, a comparação entre orgânicos e convencionais deveria ser feita com alimentos produzidos na mesma área, mas, de acordo com Resende, é impossível produzir os dois tipos de alimento no mesmo terreno.

Para os consumidores, não é apenas a ausência de agrotóxicos que determina a preferência por orgânicos. Eles também destacam a durabilidade e o sabor diferenciado dos alimentos. “Duram muito mais, são mais saborosos, mais crocantes e têm melhor textura”, afirma a consumidora Teresa Cristina Oliveira, de Brasília.

“Consumo orgânicos porque sou agrônoma e sei o mal que fazem os agrotóxicos, não só para quem consome, mas também para a natureza em geral”, diz Muriel Saragoussi, que aderiu aos orgânicos há 20 anos.

Na casa do militar Fábio de Matos, só se consomem alimentos orgânicos. Ele percorre quatro lugares todo os sábados para compor a feira da semana. Matos diz que sua saúde melhorou desde que começou a consumir alimentos orgânicos, há quatro anos.

“Concluí que talvez as doenças que aparecem na televisão fossem por causa de alguma coisa que as pessoas estavam consumindo. A gente sabe que a má alimentação causa um monte de problemas. Eu percebi claramente que minha saúde melhorou.”

No dia a dia, alguns consumidores combinam produtos orgânicos com alimentos convencionais, como a professora Kátia Cardoso. “Não dá para fugir totalmente [dos produtos convencionais]. Nem todas as frutas são orgânicas”, diz.

De acordo com o pesquisador Francisco Resende, da Embrapa Hortaliças, a oferta de frutas orgânicas ainda é restrita porque “falta estímulo para os produtores”. Ele explica que a plantação de frutas é um investimento de longo prazo porque converter a terra de produção convencional para orgânica leva dois anos e o resultado do plantio também é mais demorado.

No caso das hortaliças, carro-chefe dos orgânicos, a conversão demora um ano e é possível ter resultados em 30 dias, segundo ele.

Processamento pode expandir fronteiras de alimentos sem agrotóxicos

O beneficiamento de produtos orgânicos pode ser uma maneira de abrir novos mercados, diz a empresária Fernanda Kurebayashi, que dá como exemplo as geleias que fabrica em Gonçalves, no sul de Minas Gerais.

A framboesa orgânica plantada na região é uma fruta muito frágil e necessita de uma série de cuidados, como transporte refrigerado, para chegar intacta ao consumidor final. A empresária destaca que, mesmo com tais precauções, as longas viagens acabam gerando perdas que são repassadas ao agricultor.

Porém, ela garante que a geleia orgânica de framboesa chega em perfeito estado a lugares como os estados do Amazonas e de Santa Catarina e a cidades da França e da Alemanha. Por isso, ela afirma que a associação entre agricultores e processadores, além de agregar valor ao alimento, permite à produção “ultrapassar barreiras”. Fernanda ressalta que, depois de processado, o produto pode ser conservado por até dois anos.

Segundo a empresária, a exportação de frutas in natura é possível somente com o uso de grandes quantidades de conservante ou com métodos muito caros de congelamento, o que torna esse tipo de comercialização viável apenas para grandes produtores.

Para Fernanda, a produção orgânica inverte essa lógica. “Outra vantagem do orgânico é essa, pequenos produtores conseguem ter uma rentabilidade que não teriam trabalhando no modelo convencional.” No caso das geleias orgânicas, cada vidro custa o dobro do produto convencional.

Esse nicho abre espaço inclusive para comunidades tradicionais como os quilombolas de Ivaporunduva, no município paulista de Eldorado. A banana produzida na região é orgânica por tradição. “Nossos antepassados nunca trabalharam com veneno, desde que fundaram a comunidade”, explicou José Rodrigues, que foi duas vezes coordenador da associação dos 35 produtores da comunidade.

Segundo Rodrigues, os quilombolas estão buscando certificação para outras culturas, como mamão, limão e abobrinha, para rotular como orgânicos produtos que historicamente são plantados sem agrotóxicos ou aditivos químicos.

O agricultor diz que a certificação permitirá que a comunidade estabeleça contratos com grandes redes de supermercado, como já está sendo negociado para a produção de banana.

No entanto, ele aponta uma “pequena dificuldade que precisa ser superada”: a travessia de um rio, necessária para escoar as bananas, ainda é feita de balsa. De acordo com Rodrigues, essa barreira logo será superada com a construção de uma ponte.

Chefs de cozinha afirmam que pratos ficam mais saborosos

O sabor e o aroma mais acentuados também são pontos que diferenciam o alimento orgânico do convencional, garante Renato Caleffi, chef de um restaurante paulistano especializado nesse tipo de culinária. “Em termos de produto final, sensorial, o orgânico tem muito mais sabor, muito mais aroma, mais cor e um peso maior, inclusive, do que o convencional.”

Ricardo Andrade, que comanda a cozinha de um restaurante em Gonçalves, no sul de Minas Gerais, observa que o alimento orgânico é “menorzinho e tem sabor mais forte”. Especializado em culinária mineira, o restaurante de Andrade usa apenas produto orgânicos na preparação dos pratos. “Cozinha moderna com um toque caipira”, define o lema da casa.

A versatilidade dos alimentos produzidos sem aditivos químicos é outra vantagem apontada pelo chef Renato Caleffi. Ele ressalta, porém, que tais produtos tanto podem ser “destruídos”, quando passam por exemplo por um processo de fritura, quanto valorizados, em receitas que realçam seu sabor natural.

Ele aponta ainda a confusão feita pelos que relacionam alimentação orgânica com alimentação vegetariana e outras similares. São coisas diferentes, explica Caleffi, lembrando que existem carne, ovos, laticínios e até bebidas alcoólicas orgânicas.

Quanto ao preço, Caleffi recomenda que não se pense no fato de o orgânico custar mais, mas no pouco valor do convencional. “O raciocínio não é que o alimento orgânico seja mais caro, o convencional que é muito barato, só que ele causa malefícios.” Ele procura combinar ingredientes mais baratos com outros mais caros para oferecer preços mais em conta. Produtos de origem animal, como carnes e laticínios, por exemplo, são mais caros.

Agricultores associam respeito ao meio ambiente e aos animais

Azia e desconforto constante no estômago são sintomas que o agricultor Paulo César de Castro relaciona aos agrotóxicos usados para impedir o ataque de pragas na lavoura de batatas. “Tinha o estômago ruim o tempo todo. Sempre que ia fazer uma pulverização, sentia muita azia”, diz.

O mal-estar causado pela aplicação do veneno foi um dos fatores que levaram Castro a trocar o modelo convencional pelo plantio de alimentos orgânicos há dez anos. “[Comecei a plantar orgânicos] por medo de ser contaminado ou contaminar alguém com agrotóxico. Se vem na embalagem que é veneno, boa coisa não é”, afirma o produtor.

Depois que começou a trabalhar com produtos orgânicos, conta Castro, o mal-estar “foi sumindo aos poucos e graças a Deus acabou”. Ele foi um dos primeiros produtores a aderir à cultura sem defensivos ou aditivos químicos no município de Gonçalves, em Minas Gerais. Com cerca de 5 mil habitantes, o município, localizado na Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais, está se tornando um importante produtor de alimentos.

A preocupação com a conservação do meio ambiente também foi um dos fatores que fizeram com que Castro mudasse a forma de cultivo. “[O agrotóxico] contamina o solo, contamina a água. Quando você faz uma lavoura muito grande, acaba que em uma chuva muito forte desce tudo para as águas. A consciência pesa”.

A preocupação com o bem-estar dos animais também é lembrada por quem opta por alimentos orgânicos, ressalta a veterinária Ísis Mari, autora de uma pesquisa sobre as diferenças entre ovos orgânicos e convencionais. “Quando a pessoa conhece um pouco mais sobre o sistema de produção de ovos, fica mais sensível à questão do bem-estar animal.”

De acordo com a veterinária, a produção convencional das granjas gera muito sofrimento para as galinhas. Nas granjas, as aves têm o bico cortado para evitar que se machuquem, mas as brigas são constantes devido à falta de espaço. As aves também se ferem e deformam os pés nas grades onde ficam presas.

Na criação orgânica, as aves têm mais espaço e sofrem menos, garante a veterinária. Além disso, diferentemente das criadas em granjas tradicionais, as aves não recebem antibióticos e outros remédios para acelerar o crescimento. Ísis Mari diz que, apesar dos resíduos dessas substâncias encontrados nos ovos serem apontados internacionalmente como seguros, os consumidores de orgânicos preferem não ingeri-las.

No entanto, os custos do modo de criação diferenciado, inclusive com a alimentação das aves, acabam fazendo com que os ovos orgânicos custem até três vezes mais do que os convencionais. Ísis Mari destaca que as pessoas pagam o preço por causa de seus “ideais”, mas reconhece que os ovos orgânicos não têm valor nutricional maior do que os tradicionais.

Turismo de Gonçalves também cresce com mudança de modelo agrícola

O cultivo de alimentos orgânicos em Gonçalves, no sul de Minas Gerais, não impulsiona apenas a agricultura local, mas também o turismo. Atraídas por frutas, verduras e legumes produzidos sem agrotóxicos ou aditivos químicos, cerca de 500 pessoas visitam todos os sábados a feira promovida pelos agricultores do município.

Grande parte dos visitantes sai da Grande São Paulo, a cerca de 200 quilômetros de Gonçalves. Eles aproveitam para subir a Serra da Mantiqueira e desfrutar das cachoeiras e outras atrações do município mineiro. Dos morros, a vista é panorâmica. Dos vales, é possível apreciar a serra coberta de vegetação.

“Muita gente que está aqui vem de São Paulo para comprar. Passa o fim de semana e leva a feira para casa”, conta Carla Beschizza, sócia e administradora da Orgânicos da Mantiqueira – empresa responsável pela comercialização dos alimentos orgânicos produzidos na cidade.

Alguns visitantes gostam tanto do lugar que acabam indo morar em casas no meio do vale, que se avistam do alto da estrada. Esse foi o caso da empresária Fernanda Kurebayashi, que há sete anos mudou-se de São Paulo para Gonçalves, cidade com cerca de 5 mil habitantes.

Ex-bancária, Fernanda gostou da qualidade de vida do município e começou a fazer planos de viver no lugar. Ela conta que pesquisou sobre o que poderia fazer para viver na cidade e optou pela produção de geleias artesanais.

Atualmente, a loja de Fernanda vende geleias exóticas para os estados do Amazonas e de Santa Catarina e exporta para a França e a Alemanha. Um dos produtos é a geleia de tamarillo, um tipo de tomate silvestre. Tudo é feito com açúcar orgânico e com frutas colhidas na região e cultivadas sem defensivos agrícolas.

Fernanda acredita no potencial turístico das belezas da Serra da Mantiqueira combinado com o apelo ecológico e saudável da alimentação orgânica. “O sonho de alguns proprietários e empresários de Gonçalves é transformar a cidade em um polo orgânico.”

Em agosto, a empresária participou do 5º Inverno Orgânico, evento realizado anualmente, com o objetivo de difundir a cultura da alimentação orgânica, unindo a oferta de opções gastronômicas a apresentações musicais e oficinas de culinária. O festival é uma iniciativa da Orgânicos da Mantiqueira apoiada por restaurantes e pousadas da região.

“O [alimento] orgânico é um canal bom de turismo”, diz Carla Beschizza, que reclama da falta de apoio da prefeitura. Segundo ela, com essa ajuda seria possível tornar o evento mais conhecido e atrair mais visitantes “Na verdade, falta mão de obra, infraestrutura e apoio da prefeitura. Se a prefeitura apoiasse, dava para fazer um superevento.”

O prefeito Luiz Rosa da Silva explica, porém, que só não ajuda porque não tem condições. “O município não tem condições de dar tudo o que o povo precisa”, admite Rosa, embora reconheça que o turismo já tem importante papel na economia local. Nos últimos anos, o número de pousadas mais do que dobrou, passando de 13 para 30.

O chef Ricardo Andrade confirma a vocação turística do município. Sócio de um restaurante, ele diz que o turismo caminha a “passos largos” na cidade, apesar de ainda estar longe de ser um grande polo de visitação. “É cedo ainda, muita gente está pela primeira vez na cidade.”

Ele ressalta que Gonçalves não está pronta para o turismo de massa, como municípios próximos, entre os quais Campos do Jordão. “Acho que também que turismo de massa não será o forte da cidade. Aqui o pessoal tem essa preocupação com meio ambiente, qualidade de vida. Gonçalves acaba atraindo um público mais com esse perfil.”

Município mineiro muda de sistema e se transforma em polo de produção

A cidade mineira de Gonçalves, localizada em um vale da Serra da Mantiqueira, está se tornando um importante centro de produção orgânica. Há cerca de dez anos, a cultura mais importante do município era a batata.

Os agricultores não estão conseguindo produzir o suficiente para atender à demanda crescente por legumes e verduras plantados sem agrotóxicos. “Falta produto. Na verdade, tentamos aumentar a produção, mas o clima não está ajudando”, afirma Carla Beschizza, sócia e administradora da Orgânicos da Mantiqueira, empresa responsável por comercializar a produção da região.

“Aqui está se tornando um polo de orgânicos. Mas tem muita gente que ainda planta cenoura e batata no sistema convencional”, diz Carla.

A maior parte da produção orgânica da cidade mineira é vendida em São Paulo, em cestas com dez itens que são entregues em domicílio. Segundo Carla, a instabilidade do clima, no entanto, prejudica a montagem das cestas, impedindo a manutenção da diversidade de produtos. Algumas vezes, as temperaturas chegam a variar 10 graus centígrados num mesmo dia.

Também faltam distribuidores para escoar a produção em São Paulo. “Pode fazer propaganda aí, quem sabe aparece mais alguém”, brincou a empresária. A maior parte da produção de orgânicos de Gonçalves não é vendida nos supermercados e, sim, entregue a oito pessoas que a redistribui ao consumidor final. Elas recebem as cestas em Pirituba, região norte da capital paulista, e as revendem por um preço que varia de R$ 30 a R$ 35.

O modo de distribuição alternativo e alguns contratos com supermercados garantem um faturamento mensal de aproximadamente R$ 50 mil Orgânicos da Mantiqueira. Carla explica que a maior parte dos rendimentos é destinada aos produtores. “A empresa funciona basicamente como uma cooperativa”, explica.

A renda obtida com a venda da produção proporciona uma vida razoável aos agricultores dedicados a orgânicos. “Nenhum deles está nadando em dinheiro, mas também não há nenhum pobrezinho.” Carla conta ainda que metade desses produtores adota um sistema de agricultura familiar, enquanto o restante contrata empregados como em uma propriedade tradicional.

Um dos responsáveis por implementar a plantação de verduras e legumes sem agrotóxicos em Gonçalves, Paulo César de Castro utiliza em suas terras um modo de produção misto. São quatro pessoas trabalhando, incluindo ele próprio e seu pai, e os outros dois são contratados. Eles usam na produção um trator comprado recentemente. “Aqui não tem mão de obra, então, a gente tem que investir em equipamento para aumentar a produção e se cansar menos.”

De acordo com Castro, a produção orgânica exige até três vezes mais do agricultor porque, como não há uso de herbicidas, é maior o manejo manual. Ele vê esse modo de produção até como uma possível solução para a falta de emprego no campo. “Se a gente conseguisse aumentar bem mais a produção de agricultura orgânica, com certeza ia ter menos deslocamento de mão de obra para a cidade. Agricultura orgânica exige muita mão de obra.”

O esforço é recompensado pela estabilidade de rendimentos. De acordo com o agricultor, os preços dos orgânicos variam muito pouco durante o ano. Outro ponto interessante é a rotatividade de culturas que permite colheitas constantes. “Toda a semana você está colhendo, tem uma estabilidade e um giro de dinheiro que facilita a vida da gente”, observa o produtor, diante de sua plantação de brócolis e couve-flor.

As terras das propriedade de Castro estão divididas em quatro partes: em uma, a terra acabou de ser preparada para ser semeada; na segunda, as plantas acabaram de brotar; na terceira, os vegetais estão prontos para serem colhidos e, na última, a colheita já foi feita.

“Antes não, você fazia o que a gente chama de lavoura das águas. Fazia uma ou duas grandes lavouras no ano. Se tivesse a sorte de conseguir um bom preço, estava sossegado. Se a lavoura fosse estragada por um temporal, não tinha outra pronta para colher e substituir a produção perdida.”

Os problemas de produção relacionados com o clima poderiam ser solucionados, na opinião do agricultor, com o desenvolvimento de sementes adaptadas às diferentes condições atmosféricas. “Sem uma pesquisa que nos leve a uma semente híbrida orgânica, adaptada a cada época do ano, vai ser complicado produzir. O clima está muito maluco.”

Curitiba tem primeiro mercado público especializado do país

O primeiro mercado público de produtos orgânicos do país foi inaugurado no início deste ano na capital paranaense. A partir daí, começou uma nova fase na comercialização de produtos agrícolas e agroindustriais diversificados, onde certificação é a palavra-chave, diz o diretor-geral da Secretaria Estadual de Abastecimento, Luiz Gusi.

Todo o circuito de comércio dentro desse mercado tem certificação orgânica: uma para os produtos e outra para as lojas. “O nosso controle reforça e garante a procedência de produtos industrializados e naturais, além de certificar o espaço onde eles são comercializados.” A Rede Ecovida de Agroecologia, que atua nos três estados da Região Sul, é uma das principais certificadoras.

As secretarias da Agricultura e da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior pretendem implantar mais sete unidades de apoio à certificação no estado, em parceria com o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) e com o apoio de instituições estaduais de ensino superior.

No projeto, consta a capacitação de técnicos e estudantes para atuar como consultores e auditores, fazer acompanhamento, análise e avaliação de estudos de caso de unidades familiares de produção orgânica. Orçado em R$ 2,5 milhões, o projeto prevê, ainda, a criação da Rede Paranaense de Certificação de Produtos Orgânicos.

Gusi lembra que, antes da inauguração do mercado, eram comercializadas basicamente hortaliças e frutas, mas o consumidor tinha que esperar os dias de feira para fazer as compras. Com o mercado, passou a existir um espaço permanente.

“Ali, foi estruturada uma cadeia de valor. Quem produz e comercializa agora tem certeza de que vai vender seus produtos e o consumidor tem a variedade do serviço orgânico no mesmo espaço. Ele pode fazer um lanche, tomar café orgânico, almoçar num restaurante orgânico, comprar produtos lácteos, embutidos, geleias, conservas e carnes orgânicas e até mesmo cosméticos. Existe uma cadeia de serviços, todos certificados.”

De acordo com Gusi, o mercado oferece mais de mil tipos de produtos sem agrotóxicos e aditivos químicos. “E há ainda condições para ampliar a variedade com certificação de origem.” Segundo ele, o mercado vende tanto o produto como o conceito de orgânicos. Por isso, ali o consumidor aprende a diferenciar o produto orgânico dos demais.

Situado no centro de Curitiba, ao lado do Mercado Municipal, o Mercado de Orgânicos está instalado num espaço de 3,7 mil metros quadrados, por onde circulam mais de 50 mil pessoas por semana. Existe ainda um espaço reservado para cursos e uma cozinha, especialmente montada para as aulas de culinária.

O mercado foi construído com recursos da prefeitura de Curitiba e do Ministério do Desenvolvimento Agrário. O custo total foi de R$ 2,51 milhões.

Para ganhar mercado, é preciso derrubar mitos como o do preço mais alto
A engenheira agrônoma Lúcia Helena Almeida, da Associação de Agricultores Biológicos do Rio de Janeiro (Abio) – uma das instituições certificadoras de produtos orgânicos mais antigas do país e com atuação em vários estados –, afirma que que não existe tradição de organização entre os agricultores fluminenses e que, por isso eles acabam nas mãos de intermediários, o que encarece a produção.

“Mas nem sempre o intermediário é o vilão; muitas vezes é o parceiro que embala e transporta o produto, e até criando sua embalagem – o que o produtor não faz”, ressalva.

Parcela crescente da produção orgânica chega às prateleiras de supermercados graças a um esforço empresarial de sucesso, mas também se presta à manutenção do mito “produto orgânico é caro”. Praticamente todas as pessoas ouvidas pela reportagem da Agência Brasil disseram que é um mito que interessa ao comércio convencional para aumentar o preço de uma mercadoria que não custa necessariamente mais para ele.

“Os produtos orgânicos enfrentam também um problema sério de logística, da saída do produtor até a chegada ao mercado. Como não têm aditivos, agrotóxicos, conservantes e, no caso dos animais, hormônios, não têm nem aquela aparência artificial, nem a resistência, também artificial”, explica o porta-voz da Feira da Glória, Renato Martelleto.

A realidade da produção orgânica do estado do Rio de Janeiro é frágil como a de outros mercados, com exceção de centros mais organizados, como o Paraná. Ainda assim, incentivados pelas instâncias governamentais e instituições privadas, produtores orgânicos buscam uma relação econômica mais adulta e madura. Afinal, segundo estimativas da Fundação Agricultura e Ecologia da Alemanha, o mercado brasileiro movimenta em torno de US$ 200 milhões por ano com orgânicos, também responsáveis pelo ingresso de US$ 30 milhões anuais em exportações.

A expansão desse mercado despertou a atenção das autoridades federais há mais de uma década, e desde então tem havido esforços para o desenvolvimento mais acelerado do setor. Historicamente, a produção de orgânicos no Brasil está concentrada em pequenas propriedades no cinturão verde dos centros de consumo, muitas, de uns tempos para cá, rotuladas como de agricultura familiar, o que facilita o acesso a linhas de créditos e benefícios próprios.

Verduras, legumes, carnes e demais orgânicos produzidos em tais propriedade são comercializados em feiras nas imediações, a preços competitivos com os dos produtos convencionais disponíveis no comércio formal da região, sobretudo hortaliças rapidamente perecíveis. Essa realidade é determinante para a derrubada do mito sustentado tacitamente pelo comércio convencional.

“Não somos um nicho de mercado e, por isso, vamos lutar pela universalização do consumo de orgânicos”, afirma o chefe da Coordenação de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Rogério Dias. Ele faz questão de desfazer o caráter artesanal que a maior parte do público consumidor atribui aos orgânicos: “Agricultura orgânica é muito mais tecnológica do que a convencional.”

Para o leigo, que pode achar estranha ou curiosa a afirmação, o agrônomo lembra que a agricultura convencional emprega agrotóxicos, conservantes, estabilizantes e outras substâncias químicas de baixo custo relativo, enquanto a orgânica requer busca incessante de tecnologias naturais alternativas para livrar seus produtos das pragas, doenças e outros prejuízos.

Segundo Hélder Carvalho, representante de vinhos, azeites e vinagres orgânicos em feiras cariocas, para prevenir e combater insetos que atacam as plantações,os agricultores recorrem a gansos e galinhas d’angola, que se alimentam deles. Ele ressalta que as galinhas d’angola “comem [os insetos] mas não ciscam e, por isso, não desenterram as sementes e plantas das covas”.

“Outros cuidados bem característicos do cultivo de orgânicos são os saquinhos de papel envolvendo as frutas ainda no pé”, acrescenta, citando goiabas e figos como frutas protegidas de pássaros e morcegos. “Isso pode encarecer os produtos, em comparação com os convencionais, mas não chega a ser uma diferença alarmante. Quem procura qualidade e sabor natural, prefere o produto orgânico. Até o café orgânico tem outro gosto.”

Na questão do paladar, uma das maiores defensoras dos produtos orgânicos é Maria Beatriz Dal Ponte, gerente do Centro de Gastronomia do Serviço Nacional da Aprendizagem Comercial (Senac) do Rio de Janeiro. Formada em letras e pós-graduada em administração, ela começou a se interessar pelos orgânicos há nove anos, tendo criado os três filhos com a produção da chácara familiar, em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul.

“As pessoas se equivocam na leitura da realidade. É preciso respeitar o ciclo da natureza. A produção e o consumo de orgânicos são o resgate de uma prática antiga da história da humanidade. E hoje os orgânicos são usados pelos chefs no mundo inteiro, o que mostra a tendência de ver a questão como de saúde, e não como coisa de alguma seita”, enfatiza Beatriz. Ela destaca ainda o mito da difícil aceitação, com a autoridade de quem abriu uma escola de gastronomia no Sul com a chancela do Instituto de Culinária Italiana para Estrangeiros.

Psicóloga e educadora, Míriam Langenbach, pratica desde 2001, no Rio de Janeiro e em algumas cidades vizinhas, o associativismo para a compra de produtos orgânicos. Na rede ecológica dirigida em colegiado por cerca de 30 pessoas, há 200 consumidores inscritos para receber em seu bairro produtos encomendados semanal ou quinzenalmente, dependendo do tamanho do grupo.

“É uma maneira prática e fácil de manter a alimentação sem precisar pesquisar e procurar aqui e ali. Nós fazemos as compras e entregamos em espaços públicos nos bairros, em dia e hora combinados. Pode ser por semana, ou por quinzena. Atendemos de Santa Teresa [bairro da capital fluminense] a Seropédica e Niterói [municípios do estado do Rio] ”, disse Míriam, que mantém na rede um nível básico de profissionalismo para encomendas, entregas e administração financeira. “Na base do voluntariado só, não dá.”

Em outra vertente, Fábio Seixas Guimarães também defende a produção orgânica e mais ainda: o aproveitamento integral dos alimentos. Na organização não governamental (ONG) Comendo de Tudo… um Pouco, ele propõe receitas que incluem cascas de ovos e de banana, talos de couve, folhas de couve-flor e de brócolis e outras habitualmente desprezadas pela culinária convencional.

“É preciso fazer a junção do orgânico com o aproveitamento integral. Afinal, não podemos defender o uso culinário da casca de banana cultivada com agrotóxico, não é mesmo?”, pergunta Fábio, cuja ONG distribui kits sobre aproveitamento integral em escolas, associações, clubes e outros lugares do Rio.

Produção pequena é causa dos altos preços, diz gerente de supermercado

 Atualmente, na Europa e nos Estados Unidos, já se encontram à venda alimentos orgânicos com preços bem próximos dos convencionais, mas, no Brasil, a diferença entre eles, muitas vezes, pode passar do dobro.

Para a gerente comercial de Alimentos Orgânicos do grupo Pão de Açúcar, Sandra Caíres, o motivo de tanta discrepância está na pequena produção de orgânicos no país.

“Na Europa e nos Estados Unidos, a diferença de custo do orgânico para o convencional fica entre 25% e 40%, no máximo. No Brasil, que ainda está embrionário no setor, as diferenças são absurdas, indo a mais de 100%, porque o país ainda não tem produção em escala”, afirmou Sandra.

Segundo ela, existe dificuldade para conseguir alguns tipos de alimentos orgânicos, principalmente frutas, e colocar à venda na rede de supermercados em que trabalha. Como as culturas frutíferas levam mais tempo para ser produzidas, e não há muito incentivo governamental, poucos agricultores conseguem enfrentar todo o processo até conseguir comercializar a produção, ressaltou.

Apesar de os preços ainda serem altos, o consumo de alimentos orgânicos é uma tendência, afirmou Sandra. E, quanto mais a população for se informando e a escala aumentando, os preços irão cair. “Diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, onde o consumidor sabe o que é um alimento orgânico e cobra, no Brasil, como esse conhecimento não vem da escola, é o varejo que faz essa oferta. Mas, quando isso acontece, a venda é constante e não tem volta”, afirmou.

Ela informou que, de janeiro a abril deste ano, enquanto a venda de produtos convencionais cresceu 10%, na comparação com o mesmo período do ano passado, a de alimentos orgânicos aumentou 40%. Para Sandra, o que tem levado as pessoas a comprar mais orgânicos é a preocupação com a saúde e a segurança alimentar. “O alimento orgânico é rastreado. Você sabe o lote que está comprando, quem é o fornecedor, e tem uma certificação que garante isso.”

Para o coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Rogério Dias, muitos supermercados consideram os alimentos orgânicos um nicho de mercado, o que acaba contribuindo para a manter os preços altos. De acordo com o agrônomo, é preciso haver uma rede que integre todos os setores da cadeia produtiva para que exista um mercado justo, como acontece em cidades pequenas, onde o alimento orgânico muitas vezes é vendido nas feiras pelo mesmo preço, ou até mais barato que os demais.

Dias destacou também que é importante o consumidor de orgânicos ter consciência de sua responsabilidade, dando preferência a alimentos da estação e procurando feiras e supermercados que invistam no desenvolvimento desse mercado. “Existe um entendimento entre os homens públicos de que agricultura orgânica não é nicho de mercado. É um novo modelo de desenvolvimento”, afirmou.

Governo paga até 30% mais por produto diferenciado

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sugeriu, há quatro anos, o pagamento diferenciado para os produtos orgânicos. “Foi uma forma de valorizar e estimular a produção agroecológica”, explicou o diretor de Política Agrícola e Informação da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Silvio Porto. A diferença pode chegar a até 30% em relação a alimentos produzidos convencionalmente.

“Como é um sistema diferenciado, um produto de maior valor biológico, que exige, por parte dos produtores, um desafio muito maior, às vezes, acarretando mais custos, consideramos justo pagar mais”, disse.

Os alimentos orgânicos ainda representam uma parcela pequena dentro do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que atende o Fome Zero e visa a estimular a agricultura familiar. No ano passado, dos R$ 276 milhões aplicados no PAA, apenas R$ 8,8 milhões, pouco mais de 3%, foram destinados a produtores e cooperativas que forneceram alimentos cultivados sem agrotóxicos.

A participação no programa depende da apresentação de uma proposta de fornecimento dos produtos à Conab por uma entidade representativa dos agricultores. De acordo com Sílvio Porto, apesar de ainda representarem uma pequena parcela no programa, os produtos orgânicos têm boa demanda.

“Se a produção fosse maior, compraríamos mais. O que acontece, às vezes, é que há organizações sociais que ainda não têm um nível de articulação muito forte e não dá para reconhecer o produto como orgânico”, disse ele.

O Censo Agropecuário 2006, produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), diz que mais da metade dos produtores de orgânicos não participa de qualquer organização social (54%). Entre os que têm algum vínculo organizacional, 36,6% são ligados a associações e sindicatos. Os que são ligados a cooperativas representam 5,9%.

De acordo com Porto, com a instituição do marco regulatório para o setor de orgânicos, ao qual toda a cadeia produtiva – dos agricultores aos supermercados – deve se adequar até 31 de dezembro de 2010, a tendência é que o percentual desse tipo de alimento dentro do PAA aumente mais rapidamente com a simplificação da forma de certificar os produtores.

Veja abaixo os dez produtos em que o governo mais investiu em 2008 por meio do PAA:

Produto Valor (R$)
Volume (em toneladas)
Banana 875.501 871,82
Mel de abelha 732.868 103,14
Batata 495.424 480,36
Raiz de mandioca 444.732 681,18
Feijão 375.149 164,52
Alface 338.546 206,84
Tomate 323.516 270,18
Suco 300.578 96,3
Cenoura 274.002 258,25
Laranja 262.746 375,22

Região Norte é a que menos consome esse tipo de alimento no país

A produção e o consumo de alimentos orgânicos no Norte do país ainda está “engatinhando” em comparação com as demais regiões. De acordo com a Comissão da Produção Orgânica do Pará (CPOrg-PA), a Região Norte é responsável por apenas 2,6% da venda de orgânicos no Brasil e é a que menos consome esse tipo de produto.

Levantamento da prefeitura de Belém indica que a agricultura orgânica concentra-se nas regiões Sudeste (60% da produção e comercialização) e Sul (25%). Na Amazônia, a produção ainda é incipiente, afirma a coordenadora da comissão, Martha Parry.

Martha atribui a pequena produção a fatores como o alto custo para a certificação dos orgânicos e a falta de capacitação técnica na região, o que inviabiliza a participação de maior número de pessoas na atividade. A certificação de alimentos orgânicos no país é feita atualmente por 20 empresas autorizadas pelo Ministério da Agricultura.

“O problema é que essas empresas estão todas no Sudeste e no Sul do país, e trazê-las para o Norte implica altos custos que, se efetivados, vão encarecer o produto.”

Apesar de considerado pelo ministério um mercado em plena expansão (o país tem 800 mil hectares de terras destinadas à agropecuária orgânica), Martha ressalta que muitos itens são produzidos na Região Amazônica de forma extrativista sustentável, ou seja, sem o uso de agrotóxicos. Contudo, para serem considerados orgânicos, precisam usar apenas fontes de nutrientes naturais em todo o processo de plantio e desenvolvimento.

“São alimentos orgânicos de fato, mas não de direito. Não é só pela ausência de agrotóxico que um alimento é considerado orgânico. Tem outros elementos envolvidos, como a saúde e o respeito ao meio ambiente”, esclarece.

Ainda assim, o Pará e o Amazonas – maiores estados da Região Norte – exportam guaraná, castanha e cacau – todos orgânicos. Em Manaus e em Belém, as comissões da Produção Orgânica promovem feiras para ajudar pequenos produtores a vender o que cultivam. “Somente quando o produtor faz a venda direta ao consumidor é que o comércio pode ocorrer sem a certificação. É o caso das feiras de orgânicos de Manaus e de Belém, feitas com relativa periodicidade”, diz Martha.

O pesquisador de genética e melhoramento do guaraná André Atroch, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Unidade Embrapa Ocidental, destaca que a produção de alimentos orgânicos na região ainda é feita de forma fragmentada e em pequena escala. Atroch defende a rediscussão dos mecanismos de certificação para reduzir os custos e a burocracia no setor.

“A grande dificuldade na produção de alimentos orgânicos é que não existe um sistema de produção organizado em larga escala. Precisamos organizar isso desde o homem do campo até a indústria”, afirma o pesquisador.

Assistência técnica e pesquisa são desafios para expansão do setor

 A procura por alimentos orgânicos vem crescendo mais rápido do que a oferta no Brasil. Apenas 1,8% dos agricultores adota esse modelo de produção no país, segundo o Censo Agropecuário 2006, divulgado em setembro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Existem no Brasil 5,2 milhões de propriedades rurais.

A dificuldade na compra de orgânicos é sentida pelos próprios consumidores, que têm que chegar bem cedo às feiras e supermercados para conseguir esse tipo de produto com qualidade e sem ter que enfrentar filas.

Os produtores, por sua vez, alegam que a falta de assistência técnica é a principal barreira para superar a escassez da oferta de orgânicos no mercado.

A falta de investimentos do governo no apoio técnico aos produtores, principalmente por meio das empresas de Assistência Técnica e Extensão Rural, ocasionaram o surgimento de um modelo diferente de orientação oferecido pelas empresas privadas de fertilizantes e defensivos agrícolas. E, por não usarem substâncias químicas na lavoura, os agricultores orgânicos acabam excluídos desse modelo.

“O desenvolvimento da agricultura orgânica passa, necessariamente, por uma assistência técnica pública”, afirmou à Agência Brasil o coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Rogério Dias. No governo, ele atua como uma espécie de coordenador de ações de estímulo à produção de orgânicos. “Se ela [agricultura orgânica] é interessante, precisa de políticas públicas, e não apenas de produtores investindo sozinhos em seu desenvolvimento”.

O diretor de Política Agrícola e Informação da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Silvio Porto, também destaca a importância do assessoramento técnico para o desenvolvimento do setor. Para ele, o atendimento aos produtores ainda é insuficiente.

“São poucos os técnicos que têm formação nessa área. Temos uma enorme limitação de assessoramento e falta uma política que, efetivamente, induza o desenvolvimento da agroecologia.”

O financiamento de núcleos de agroecologia em instituições federais de ensino, programado pela Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação, poderá contribuir para a redução do problema, com a formação de profissionais especializados e a difusão de pesquisas sobre o tema. Essa é a expectativa da coordenadora da secretaria, Caetana Resende.

“Queremos casar as duas coisas: formação de recursos humanos para dar assistência a essa produção, e levar aos produtores o que já existe [em termos de informação], para que eles possam escolher que tipo de produção vão ter dentro de sua propriedade”, explicou.

De acordo com o Censo Agropecuário, o agricultor que se dedica a essa prática, na maior parte dos casos, é proprietário das terras que cultiva (77,3%). Ainda conforme o censo, 41,6% têm o ensino fundamental incompleto e dois em cada dez não sabem ler nem escrever.

O secretário de Inclusão Social do Ministério de Ciência e Tecnologia, Joe Valle, que trabalha com orgânicos há mais de 20 anos, aponta outra barreira: o despreparo de funcionários de instituições financeiras que operam com linhas de crédito para o setor rural. “Já temos, em vários lugares, linhas de crédito específicas para orgânicos, mas falta conhecimento dos funcionários dos bancos.”

Setor espera grande desenvolvimento a partir do ano que vem
A edição de agosto da Revista Orgânica, que circula no Rio de Janeiro, mostrou a dimensão alcançada pela alimentação orgânica na principal potência industrial do planeta, os Estados Unidos.

“A primeira-dama Michelle Obama vai cultivar uma horta orgânica nos jardins da Casa Branca, sede oficial do presidente norte-americano. Da horta, sairão vegetais, ervas e legumes, como espinafre, acelga, couve, tomates pequenos e pimentas, diretamente para a cozinha, para alimentar a família Obama e também para refeições em eventos oficiais”, diz a publicação.

“Na realidade, a preocupação deles com alimentação saudável ficou bem clara na campanha eleitoral do presidente norte-americano. Este foi um tema recorrente, bem como a questão ambiental e o desenvolvimento sustentável. Infelizmente, por aqui a história é muito diferente”, comenta o coordenador da feira de produtos orgânicos da Glória, no Rio, Renato Martelleto.

A feira coordenada por Martelleto é a mais antiga da capital fluminense e, ao completar 15 anos de existência em outubro, passou a ter uma diversidade maior de alimentos ofertados. As barracas também passaram por uma reforma no seu desenho. Atualmente, 13 produtores são responsáveis pelo abastecimento de produtos, vindos da área rural de cidades da Serra dos Órgãos fluminense.

“Estive agora no Brejal, em Petrópolis, e fiquei triste com a situação dos produtores, sem condições financeiras para a colheita e o transporte até as feirinhas onde vendem. Se a Feira da Glória acabasse hoje, pelo menos 20 famílias do Brejal não teriam como sobreviver”, relata. Martelleto se queixa do pouco acesso dos pequenos produtores às medidas de estímulo criadas pelos governos, muitas, vezes, por razões burocráticas.

A questão da certificação obrigatória dos produtos orgânicos a partir de 2011, com a vigência da Lei dos Orgânicos, trará uma nova realidade ao mercado, na opinião não só de Martelleto como de outros interessados no assunto. Engenheira agrônoma da Associação de Agricultores Biológicos do Rio de Janeiro (Abio), Lúcia Helena Almeida comemora uma mudança que considera essencial no novo marco regulatório.

“A Abio poderá certificar e orientar os produtores, o que hoje não pode fazer. Uma coisa é certificar o produto como orgânico, vendo que é cultivado morro abaixo e não dizer nada. Outra coisa é ensinar o produtor a plantar em outro lugar, evitando a erosão. Isso é sustentabilidade, é princípio do desenvolvimento sustentável”, explica.

A aplicação da lei dará à produção orgânica brasileira uma personalidade institucional que não tem, praticamente reabrindo o mercado que já existe, mas de maneira precária. Como costuma enfatizar o coordenador de Agroecologia do ministério da Agricultura, Rogério Pereira Dias, “o consumidor que ter confiança no produto”, e o selo de certificação contribuirá para reforçar esse sentimento, na opinião dos participantes do processo.

Outra consequência da certificação obrigatória será o acesso mais fácil ao mercado externo, onde ela é pré-requisito para qualquer produto. Já estão em andamento, por exemplo, negociações com importadores alemães de orgânicos para adequar a certificação nacional aos moldes europeus.

Coordenador do Grupo Executivo de Agroindústria da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), o economista Antônio Salazar vê o mercado consumidor cada dia mais consciente como uma das origens da legislação mais rigorosa.

“Não só os produtos orgânicos estão em desenvolvimento. Os produtos convencionais também estão e a prova é que a agricultura procura utilizar cada vez menos defensivos, embora eles sejam necessários numa produção em larga escala. E a pesquisa científica, que leva aos transgênicos, busca exatamente produtos imunes às pragas e doenças evitadas pelos defensivos. Na minha opinião, é falsa a dicotomia entre transgênicos e orgânicos”.

Para ele, a produção e a comercialização de orgânicos “são o resgate de uma prática antiga da humanidade”. Mas o economista ressalta que o setor tem espaço limitado de expansão. “Não acredito que a produção orgânica alcance a escala da necessidade de alimentos no mundo de hoje. É claro que são produtos mais saudáveis e a iniciativa da família Obama é emblemática. Mas nem sei se há espaço no terreno da Casa Branca para uma produção capaz de abastecer a mesa dos eventos oficiais”, comenta.

A Firjan desenvolve projetos de fruticultura no norte e noroeste do estado, tradicionais produtores, respectivamente, de cana-de-açúcar e de gado. A proposta da federação é criar um polo produtor de frutas para o mercado interno e para exportação. Salazar comemora a primeira colheita de pêssegos, no norte fluminense, num total estimado de 400 toneladas, neste ano.

Produtores, investidores e consumidores ganham com regulamentação

 A regulamentação dos produtos orgânicos, à qual toda a cadeia produtiva deve se adequar até 31 de dezembro de 2010, deve trazer mais segurança a todos os envolvidos nesse processo. As certificadoras, que atestam se o alimento é orgânico, deverão ser creditadas pelo Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro), o que, segundo o presidente da Câmara Temática de Agricultura Orgânica do Ministério da Agricultura, José Pedro Santiago, deve elevar a qualidade no setor.

“Com a regulamentação, no mercado interno haverá possibilidades legais de coibir e punir a venda de produtos que se dizem orgânicos, mas não são. Isso é uma garantia para os consumidores e para a credibilidade do movimento orgânico”, afirmou Santiago.

Com normas oficiais para a produção de alimentos orgânicos, disse Santiago, investidores, importadores e também o consumidor brasileiro terão um quadro mais claro do setor, o que deverá promover o crescimento da produção e das vendas. “Nos Estados Unidos e na Europa, a produção e o consumo de orgânicos deram um salto após a aprovação das suas respectivas leis. Isso deverá acontecer também no Brasil.”

Além disso, Santiago ressalta a importância do banco de dados com as informações do setor que será criado no Ministério da Agricultura. “Preencheremos uma terrível lacuna. Hoje, não sabemos ao certo o que o Brasil realmente produz de orgânicos. Claro que isso terá impacto no mercado interno e vai ajudar muito nas exportações”, observou.

De acordo com o coordenador de Agroecologia do Ministério da Agricultura, Rogério Dias, a partir do próximo ano, haverá novos dados oficiais sobre o setor, a partir do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, que devem facilitar a aplicação de políticas públicas específicas.

“Com esse cadastro, vamos saber quem são os produtores, quantos são, onde estão e o que produzem. Vamos saber qual é a área de soja, milho, frutas, carnes, ovos e leite, porque no cadastro teremos também a atividade produtiva de cada um”, explicou.

Segundo o Censo Agropecuário 2006, divulgado em setembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção orgânica no Brasil concentra-se na pecuária e criação de outros animais (41,7%) e na produção de lavouras temporárias (33,5%).

A maior parte da produção (60%) é voltada para a exportação, principalmente para o Japão, os Estados Unidos e a União Europeia. A maioria do que segue para o mercado externo é de produtos in natura, processados da soja, açúcar, café, cacau, carnes, leite e derivados do mel.

Certificação obrigatória só será exigida a partir de 2011

 A certificação obrigatória dos produtos orgânicos, que será exigida a partir de 31 de dezembro de 2010, vai além de seu objetivo – a regulamentação do mercado, inclusive com os mecanismos de controle a cargo do Estado. A exigência entraria em vigor hoje (28), mas o prazo para os produtores se adaptarem foi prorrogado até o final do ano que vem.

Para os envolvidos no processo, é preciso também derrubar mitos, dos quais o principal é a crença generalizada de que os produtos orgânicos são muito mais caros do que os convencionais.

Apesar da crescente demanda, a agricultura orgânica ainda ocupa pouco espaço nas 5,2 milhões de propriedades rurais do país.

Dados do Censo Agropecuário 2006, divulgado em setembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que apenas 1,8% do total de produtores usam tal técnica.

Os ramos mais frequentes são a pecuária e criação de outros animais (41,7%) e a produção de lavouras temporárias (33,5%). A maior parte dos produtos, no entanto, é voltada à exportação (60%), especialmente para o Japão, os Estados Unidos e a União Europeia.

A preocupação com a saúde e o meio ambiente é um dos fatores que explicam o aumento da procura por alimentos orgânicos, em todo o mundo. Na produção orgânica, não podem ser usados agrotóxicos, adubos químicos e sementes transgênicas, e os animais devem ser criados sem uso de hormônios de crescimento e outras drogas, como antibióticos.

Além de produzir alimentos considerados mais saudáveis, na agricultura orgânica, o solo se mantém fértil e sem risco de contaminação. Os agricultores também ficam menos expostos, já que a aplicação de agrotóxicos, sem os devidos cuidados, é nociva à saúde.

Para controlar esse modo de produção, ainda com carência de dados sobre a quantidade de produtores e a área ocupada e de políticas públicas para seu desenvolvimento, o governo criou o Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (Sisorg), cujo selo será permitido a partir do momento em que o produtor estiver de acordo com as novas regras. O selo deverá estar em todos os produtos orgânicos brasileiros. A exceção é para os produtos vendidos diretamente por agricultores familiares.

Setor espera grande desenvolvimento a partir do ano que vem
A edição de agosto da Revista Orgânica, que circula no Rio de Janeiro, mostrou a dimensão alcançada pela alimentação orgânica na principal potência industrial do planeta, os Estados Unidos.

“A primeira-dama Michelle Obama vai cultivar uma horta orgânica nos jardins da Casa Branca, sede oficial do presidente norte-americano. Da horta, sairão vegetais, ervas e legumes, como espinafre, acelga, couve, tomates pequenos e pimentas, diretamente para a cozinha, para alimentar a família Obama e também para refeições em eventos oficiais”, diz a publicação.

“Na realidade, a preocupação deles com alimentação saudável ficou bem clara na campanha eleitoral do presidente norte-americano. Este foi um tema recorrente, bem como a questão ambiental e o desenvolvimento sustentável. Infelizmente, por aqui a história é muito diferente”, comenta o coordenador da feira de produtos orgânicos da Glória, no Rio, Renato Martelleto.

A feira coordenada por Martelleto é a mais antiga da capital fluminense e, ao completar 15 anos de existência em outubro, passou a ter uma diversidade maior de alimentos ofertados. As barracas também passaram por uma reforma no seu desenho. Atualmente, 13 produtores são responsáveis pelo abastecimento de produtos, vindos da área rural de cidades da Serra dos Órgãos fluminense.

“Estive agora no Brejal, em Petrópolis, e fiquei triste com a situação dos produtores, sem condições financeiras para a colheita e o transporte até as feirinhas onde vendem. Se a Feira da Glória acabasse hoje, pelo menos 20 famílias do Brejal não teriam como sobreviver”, relata. Martelleto se queixa do pouco acesso dos pequenos produtores às medidas de estímulo criadas pelos governos, muitas, vezes, por razões burocráticas.

A questão da certificação obrigatória dos produtos orgânicos a partir de 2011, com a vigência da Lei dos Orgânicos, trará uma nova realidade ao mercado, na opinião não só de Martelleto como de outros interessados no assunto. Engenheira agrônoma da Associação de Agricultores Biológicos do Rio de Janeiro (Abio), Lúcia Helena Almeida comemora uma mudança que considera essencial no novo marco regulatório.

“A Abio poderá certificar e orientar os produtores, o que hoje não pode fazer. Uma coisa é certificar o produto como orgânico, vendo que é cultivado morro abaixo e não dizer nada. Outra coisa é ensinar o produtor a plantar em outro lugar, evitando a erosão. Isso é sustentabilidade, é princípio do desenvolvimento sustentável”, explica.

A aplicação da lei dará à produção orgânica brasileira uma personalidade institucional que não tem, praticamente reabrindo o mercado que já existe, mas de maneira precária. Como costuma enfatizar o coordenador de Agroecologia do ministério da Agricultura, Rogério Pereira Dias, “o consumidor que ter confiança no produto”, e o selo de certificação contribuirá para reforçar esse sentimento, na opinião dos participantes do processo.

Outra consequência da certificação obrigatória será o acesso mais fácil ao mercado externo, onde ela é pré-requisito para qualquer produto. Já estão em andamento, por exemplo, negociações com importadores alemães de orgânicos para adequar a certificação nacional aos moldes europeus.

Coordenador do Grupo Executivo de Agroindústria da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), o economista Antônio Salazar vê o mercado consumidor cada dia mais consciente como uma das origens da legislação mais rigorosa.

“Não só os produtos orgânicos estão em desenvolvimento. Os produtos convencionais também estão e a prova é que a agricultura procura utilizar cada vez menos defensivos, embora eles sejam necessários numa produção em larga escala. E a pesquisa científica, que leva aos transgênicos, busca exatamente produtos imunes às pragas e doenças evitadas pelos defensivos. Na minha opinião, é falsa a dicotomia entre transgênicos e orgânicos”.

Para ele, a produção e a comercialização de orgânicos “são o resgate de uma prática antiga da humanidade”. Mas o economista ressalta que o setor tem espaço limitado de expansão. “Não acredito que a produção orgânica alcance a escala da necessidade de alimentos no mundo de hoje. É claro que são produtos mais saudáveis e a iniciativa da família Obama é emblemática. Mas nem sei se há espaço no terreno da Casa Branca para uma produção capaz de abastecer a mesa dos eventos oficiais”, comenta.

A Firjan desenvolve projetos de fruticultura no norte e noroeste do estado, tradicionais produtores, respectivamente, de cana-de-açúcar e de gado. A proposta da federação é criar um polo produtor de frutas para o mercado interno e para exportação. Salazar comemora a primeira colheita de pêssegos, no norte fluminense, num total estimado de 400 toneladas, neste ano.

Produtores formam associações para facilitar a venda e trocar experiências

No mercado de alimentos orgânicos, as associações de produtores vão além da simples intermediação de vendas.

 Além de dar a seus associados orientação sobre o manejo e a venda dos alimentos, elas garantem a certificação dos produtores, que dividem os custos desse serviço.

Os membros da Associação de Agricultura Ecológica (AGE) do Distrito Federal, por exemplo, aprenderam juntos os princípios da produção orgânica. Com 20 anos de atuação, a AGE tem atualmente 17 associados, sendo 12 deles ativos (os que levam produtos para vender nas feiras).

Os associados da AGE só comercializam os alimentos que produzem em feiras. Eles estimam em R$ 15 mil por semana o total vendido pelo grupo. Depois de retirada a porcentagem da associação e dos gerentes de pontos de venda, o valor obtido é dividido entre os produtores.

O gerente da AGE, Marilberto Zavão Lima, diz que não tem dificuldade para vender. “A dificuldade é ter produto para vender.”

Deusmar Alves, produtor do Sítio Mangabeira, que trabalha com orgânicos há 16 anos, conta que aprendeu o que sabe na AGE e que há muita troca de informações com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF).

“Hoje a Emater cresceu muito, abriu muito espaço para o crescimento da agricultura orgânica, mas, no início, a gente tinha mais informações só entre nós mesmos produtores.” Ela destaca o tipo de auxílio que os produtores recebem da associação e a ajuda que prestam uns aos outros. “Nosso lado técnico hoje é bastante informal. Quando um produtor tem dificuldade já vem procurar saber com outro o que está certo, o que está errado.”

Também filiado à AGE, Jorge Artur Chagas produz orgânicos há 25 anos. Segundo ele, no início, a associação não tinha ajuda do Poder Público. “Os programas agropecuários são bastante voltados para o modelo convencional, ainda hoje há dificuldade”, afirma Chagas, que defende a venda sem intermediários. “A venda nas feiras é o ideal para a produção local. O consumidor sabe o que está comendo, conhece o produtor e o sítio.”

O Sítio Gerânio, de Francisco Marcolino, produz orgânicos desde 1988. “Percebemos a importância do alimento orgânico ao ver os males causados pelo convencional – entre os próprios produtores, muitos passavam mal de tanto usar veneno, tanto produto químico. Aí, a gente viu a necessidade de não mexer mais com esse tipo de produto.”

Por motivo semelhante, José Ibaldi, dono da Chácara Santa Cecília, decidiu converter sua produção para orgânicos em 1998. “Não estava me sentindo bem usando produtos químicos, sobretudo agrotóxicos. Aquilo não estava me agradando, e também aos empregados que trabalhavam comigo, porque me pareceu prejudicial à saúde do pessoal todo.”

Para iniciar a nova atividade, Ibaldi conversou com outros produtores, visitou propriedades e fez cursos na Emater. A empresa reuniu um grupo de produtores para discutir comercialização de orgânicos e daí surgiu a ideia de criar o Supermercado Orgânico da Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa-DF), em 2001.

Em dezembro do mesmo ano, uma associação de produtores orgânicos começou a funcionar na Ceasa, inicialmente em um estacionamento. Quatro anos depois, eles foram para um galpão e atualmente contam com apoio de um mercado na Ceasa que funciona durante dois dias na semana. As vendas semanais ficam em torno de R$ 15 mil.

Há também barracas que vendem produtos orgânicos em diversos pontos da cidade. Uma delas funciona semanalmente, há cerca de seis anos, em frente ao Ministério do Meio Ambiente, por meio de parceria entre os funcionários e produtores do Assentamento Colônia I.

Dora Sugimoto, que presidia a Associação dos Trabalhadores do Ministério do Meio Ambiente, conta que a ideia surgiu em 2003, quando fez um trabalho sobre economia solidária com alunos da Escola Técnica de Unaí, a convite da Universidade de Brasília (UnB).

Ela sugeriu, então, que os funcionários agissem como se fossem consumidores. Eles fizeram então uma visita ao assentamento e doaram sementes orgânicas aos agricultores.

“Uns 40 dias depois, eles apareceram com os produtos, e nós pensamos: ‘agora temos que fazer a nossa parte’.” Foi daí que surgiu a feira, lembra Dora, que consome orgânicos desde essa época. “Você economiza na farmácia a diferença que gasta num preço mais diferenciado.”



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