PENSATA

LUIZ CESAR FARO
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17 de agosto de 2009 14:25 

Obama aduba o “protecionismo verde”

O desenvolvimento sustentável já é um filho pródigo antes mesmo do seu nascimento. Mas as dores do seu parto se revelam lancinantes de antemão. Um aumento do conflito distributivo, decorrente da “inflação verde” e do aumento do fosso entre países pobres e ricos, é a dolorosa seqüela da transição para um mundo que se espera melhor. Possivelmente, só uma improvável pactação entre nações ou um “Big brother sustentável” poderiam evitar o calvário. É mais realista acreditar que a travessia será toda feita com os pés descalços pisando sobre espinhaços, ainda que verdes.

Dores do crescimento, diriam alguns. Exemplo escolar de destruição criativa, diriam outros. Oportunismo puro, digo eu. Sim, a sustentabilidade possui uma espécie de partogênese da esperteza comercial. Há uma correlação mais estreita do que imaginam ambientalistas de boa cepa entre a profilaxia do acidente climático e o abuso do poder econômico sustentado em causas nobres, como conservação ambiental e justiça social.

Os empresários, que sentem a questão no bolso, estão ligados no surgimento anunciado do “protecionismo social”. Na primeira semana de agosto, foi criado na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo ( FIESP ) um comitê de discussões sobre mudanças climáticas que tem como objetivo formal buscar uma posição oficial da classe para tentar influir o governo brasileiro. O objetivo tácito é preparar o lobby contra os eventuais contrabandos que poderão ser apostos a proposta de metas de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa. Este é o principal tema da Conferência de Copenhague, com realização prevista para o final do ano.

No momento, a indústria brasileira está dividida em relação ao assunto. Há um grupo que defende que o governo brasileiro não se comprometa com metas de redução de gases, pois ficaria demasiadamente exposto a retaliações pelos países centrais, que já queimaram, dizimaram e devastaram tudo aquilo o que queriam e podiam no âmbito das suas fronteiras. Outro grupo, ao contrário, apóia uma posição afirmativa do Brasil, já que o país tem uma matriz energética limpa, necessitando apenas reduzir de forma acentuada o desmatamento.

Um dos motivos de preocupação é com o oportunismo dos EUA, que, antes mesmo de chegar a Copenhague, querem usufruir da janela protecionista. Já está em votação no Senado americano o “American Clean Energy and Security Act”, que apregoa a defesa comercial das empresas contra os países que não cumprem metas de redução de carbono. A discussão sobre as metas promete ser longa. Mas os americanos querem arbitrar desde já que o não comprometimento com metas pode ser considerado um subsídio, deixando as empresas brasileiras sujeitas à retaliação.

A cruzada neoprotecionista de Obama tem duas direções: a primeira, a reconfiguração da matriz energética dos EUA; a segunda, a recriação da indústria norte-americana, que emigrou quase inteira para outros países. Obama pretende trazer de volta para solo pátrio os fabricantes de eletro-eletrônicos, química e metal-mecânica, que são setores considerados intensivos em inovações. Uma das formas de repatriar as multinacionais é taxar ou proibir o comércio exterior. Como os EUA são o mercado central, os grandes produtores reabririam suas fábricas na América para driblar o impedimento. Mas taxar ou proibir por qual motivo? O justiçamento das nações sócio e ambientalmente incorretas é a pedra filosofal da sustentabilidade americana.

É muito provável que a posição do governo brasileiro seja favorável a aceitar a meta de redução das emissões, o que é desejável. O que não é aceitável é que o Brasil seja tratado como potencial meliante e policiado unilateralmente por outro Estado nacional, que se arroga ao direito truculento de punir e castigar preferencialmente em seu benefício e não do mérito. Na verdade, os EUA usam a política climática como asfalto para uma estrada de mão única. É nela que pretendem rodar, celeremente, o novo protecionismo, que, em última instância, acabará ampliando o surrado desequilíbrio entre países ricos e países pobres.

Para os países da periferia, o protecionismo verde é apenas uma amostra do que vem por aí. As retaliações comerciais deverão atingir o chamado dumping social, como, por exemplo, a produção amparada por prática de trabalho infantil. Condenável? Sem dúvida. Mas a questão é cheias de matizes e tonalidades sutis. Um exemplo são os diversos países da África e Ásia – para não dizer algumas regiões do Norte do País – que não conseguem se prover de alimentos sem essa prática. Ao invés de retaliação e isolamento comercial seria mais razoável uma ajuda humanitária para correção dos desníveis exagerados entre nações. Ao invés de um cascudo, um braço amigo. Ao invés de retaliação, fraternidade entre povos. Mas com certeza não é isso o que vem por aí.

Envolvido no manto de boas intenções, o Leviatã americano promete inaugurar um novo tempo de injustiças sustentáveis.


Luiz Cesar Faro é publisher das revistas Brasil Sempre/Brazil Forever, Inteligência, Cases Studies e Carioquice.

política climática, levia



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