A disputa pelo governo de Alagoas, no ano de 1990, entre Renan Calheiros e Geraldo Bulhões, Calheiros levou a pior. Durante quatro anos comeu o pão que o diabo amassou – desempregado e endividado.
Na campanha de 1994, porém, Divaldo Suruagy deu uma mãozinha e Renan ascendeu a Senador, levando com ele o irmão, Olavo Calheiros, eleito Deputado Federal. Do dia para a noite, por coincidência, a Mata de Murici passou a ser castigada impiedosamente.
Antes, sob Geraldo Bulhões, Alagoas ganhara o Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, em que um punhado de ecologistas alagoanos apoiados pela FBCN e por algumas instituições importantes como a Universidade Federal de Alagoas – UFAL, o IBAMA, o IMA e o Instituto de Terras de Alagoas – ITERAL, elegeram a Mata de Murici como área de prioridade máxima, com vistas à sua preservação.
Até a posse do Governador Divaldo Suruagy, em janeiro de 1995, Alagoas possuía, ainda, formações florestais contínuas e bem conservadas que, sob o olhar de Dante Luiz Martins Teixeira – renomado ornitólogo e pesquisador – em 1984, considerara referência no Nordeste, por serem superiores aos remanescentes de Mata Atlântica encontrados em Pernambuco, na Paraíba e no Rio Grande do Norte.
O que fascinara o ornitólogo Dante Luiz e mais tarde, aos pesquisadores da UFAL, fora a presença de endemismos e de espécies novas ocorrentes na sub-região noroeste de Alagoas, ocupando os municípios de Messias, Murici, União dos Palmares, Flexeiras, Joaquim Gomes e São José da Laje, onde um dos remanescentes mais significativos da Floresta Pluvial Atlântica, a Mata de Murici, revestia o modelado cristalino. Eram cerca de 3000 hectares de cobertura florestal repletos de encostas íngremes, entremeadas por vales e destacadas pelos morros, cuja altitude alcança aproximadamente 600 metros.
Mesmo pressionada pela expansão das atividades canavieiras, devido ao programa nacional – PROALCOOL, a Mata de Murici resistira às incursões e mostrava-se exuberante com a ocorrência de espécimes arbóreos de até 40 metros de altura, formando um dossel fechado, composto de elementos florísticos peculiares.
Contudo, o advento do governo, chefiado por Divaldo Suruagy, trouxe a degradação para aquele pedaço da floresta Atlântica, não obstante os esforços das ong’s alagoanas, notadamente, a Sociedade Ambientalista Mãe Natureza – SAMAN, que patrocinara uma audiência pública para salvar a Mata de Murici, em fevereiro de 1996, após a constatação de grandes desmatamentos no Bioma.
Outros segmentos da sociedade alagoana apoiaram a Audiência Pública, em que se encontravam presentes representantes da UFAL, do IBAMA, do IMA, da ABES, do Sindicato dos Engenheiros Agrônomos, do MPE, do MPF e, também, o Presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa de Alagoas, entre outras pessoas importantes.
O evento não apresentara os resultados pretendidos, mas os idealizadores encaminharam denúncias e processos foram instaurados pelo MPE e MPF, além de ganharem a simpatia da Mídia. A imprensa escrita deu destaque local e um jornal paulista – Folha de São Paulo – noticiou a audiência. A televisão Gazeta (Globo) fez uma longa reportagem na região, mostrando os desmatamentos criminosos e nomeando os devastadores. Mas, o trabalho jornalístico não foi ao ar, nem em Alagoas, tampouco, no programa “Fantástico” da Rede Globo, onde os ecologistas alagoanos articulados com a FBCN pretendiam veicular a denúncia. Os ambientalistas deram com os burros n’água, quando o Senador Renan Calheiros e o Deputado Federal Olavo Calheiros, entrincheirados no Congresso Nacional, mostraram o seu poder de fogo, submetendo a Organização Arnon de Mello, aos seus desígnios e fechando as portas aos denunciantes.
Ao longo dos últimos treze anos, ficamos a assistir, de braços atados, aos irmãos Calheiros deitarem e rolarem protegidos por imunidade parlamentar, enquanto arrasam a Mata de Murici, cujas terras representadas por diversas propriedades, segundo notícias publicadas em um jornal de grande circulação, de Alagoas, vêm sendo adquiridas por aqueles políticos e registradas em cartório, sob o nome de terceiros – os seus “testas-de-ferro”.
Hoje, dos 3000 hectares de remanescentes florestais que ocorriam na Mata de Murici, até o início do ano de 1995, restam menos de 1000, dispersos em alguns fragmentos isolados, como um arquipélago de matas, rodeado por um oceano de capim, destinado à criação extensiva de gado bovino, que os fazendeiros alagoanos cultivam, em substituição aos improdutivos canaviais.
Em alguns desses criatórios, fincados na Mata de Murici, anos mais tarde, jornalistas brasileiros flagraram, pastando, os badalados “bois de ouro” do Senador Renan Calheiros.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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