VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

16 de abril de 2010 1:07 

O recenseador

Por volta de 1936, o Instituto Nacional de Estatística estava com dificuldade em promover o censo, face aos empecilhos naturais da época, como falta de estradas, transporte, comunicação e, também, educação do povo.

No entanto, o serviço precisava ser feito e o governo arregaçou as mangas. Em Alagoas, o município de Coruripe, por causa de sua grande extensão e especialmente pelos numerosos encraves populacionais situados em florestas virgens do seu território, tornava a pesquisa complicada.

O jeito que as autoridades encontraram a fim de resolver o problema foi convocar os mateiros conhecidos na região, com a proposta de um salário atraente, desde que o candidato soubesse ler e escrever e dispusesse do seu próprio transporte – da sua montaria.

Dado o pontapé inicial do recenseamento, foram habilitadas três pessoas, do lugar, entre elas, o Sr. José Melo Souza, que atendia pelo nome de Juquinha. Este, mesmo sendo um cidadão de família abastada, aceitara a tarefa mais pelo seu espírito aventureiro do que propriamente por necessidade pecuniária. Caçador contumaz, que era, costumava errar pelas florestas em busca de animais silvestres, então abundantes, por ali. Aquele emprego temporário viera em boa hora para tirar do seu pé a amolação da família.

Juquinha não era de pegar no pesado nem de aceitar trabalho que exigisse assiduidade ou hora marcada para chegar e sair. Seus pais abastados, já haviam feito de tudo a fim de por juízo em sua cabeça, inutilmente. Filho único, contava com a complacência materna para financiar sua boa vida, já que o pai, por si só, havia fechado o cofre fazia tempo.

Agora, estava ele ali, pronto para o serviço. Vestia um conjunto de cor cáqui, calça e camisa de mangas compridas, botas cano longo e chapéu preto de massa. Cavalo arreado, bolsa do governo a tiracolo, espingarda, bornal, um 38 carregado, o facão rabo de galo e o cachorro Bolante, este num pé e noutro para a viagem. Saiu furtivamente como se não quisesse ser visto; costume próprio de quem faz as coisas contra a vontade dos seus.

Foi-se embora e logo desapareceu na mata. Nela, sentia-se em casa. Conhecia cada palmo daquele chão; a parte plana e a montanhosa; o mato ralo e o fechado; o lugar em que ficavam as árvores mais altas e que serviam de referência para não se perder; os córregos aonde beber água; as cabanas para dormir; e as casas dos sitiantes, ilhadas no meio da floresta.

O trabalho era difícil para qualquer ser vivente da terra, menos para ele, Juquinha, que encarava a tarefa espinhosa como um passatempo diletante.

Sucede que naquele ano, a Europa convulsionara-se e os rumores da guerra voavam em todas as direções e chegaram, também, a Coruripe, nas conversas de feira, nos botecos, na igreja, na intendência… A notícia ruim corria veloz como tal e até os caboclos das grotas ficaram sabendo da novidade. O problema é que notícia passada de boca em boca chega sempre deturpada, reinando porém, a que maior temor consegue impregnar nas pessoas.

Pois bem. Juquinha embrenhara-se pela mata a serviço do Governo, escrevendo nas fichas, os nomes de cada habitante encontrado na sua área de atuação. No seu terreno, era estimado por todos. Tinha muitos afilhados e as pessoas sabiam que da parte dele nada de ruim poderia brotar, de sorte que, o caminho estivera livre e a empreitada fora facilitada.

Contudo, à medida que adentrava pelas florestas mais longínquas, onde o seu nome não se fazia conhecer, obstáculos inesperados começaram a surgir, tirando do sério o novel recenseador. Um desses complicadores disparou o alarme, entre os matutos, de que um homem do governo andava pegando à força os jovens para combater na guerra. Juquinha, não contava com esse imprevisto e somente, devido ao seu discernimento e coragem pessoal conseguiu levar adiante a tarefa.

Ocorreu o seguinte: ao despontar nas clareiras, defronte das casas, sua figura era logo associada à autoridade e os homens aptos fugiam da sua presença, como o diabo foge da cruz. Juquinha registrava mulheres, crianças, velhos e nenhum moço. Ficou desconfiado e indagou pelos machos. Não obteve resposta satisfatória. Articulou um plano. Fez que ia embora e voltou repentinamente, uma hora após. Pintou um flagrante e os jovens surpreendidos espirraram das moradas, pelas portas dos fundos, na direção do mato. Juquinha cercou-os de revólver em punho, ameaçando-os; empurrando-os de volta sob o peito do cavalo e o rosnado do cão. Reunidos no terreiro, ficou esclarecido o equívoco.

Depois, voltou à cidade e deu um tempo para que o episódio fosse alardeado entre os nativos. Não demorou e o caminho ficou livre. Em poucas semanas o serviço estava concluído sem mais nenhuma objeção.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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