VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

23 de junho de 2010 1:45 

O preço de uma tragédia

Em meio às comemorações pela vitória do Brasil sobre a Coréia do Norte, na estréia da Copa do Mundo de Futebol 2010, Alagoas era arrasada, em cerca de vinte e cinco por cento de suas cidades, notadamente aquelas banhadas pelos rios Mundaú e Paraíba, além do Canhoto e Jacuípe.

O horror provocado pelo transbordamento daqueles rios e pela fúria de sua correnteza não poupou vinte e duas cidades alagoanas, desde São José da Laje, União dos Palmares, Branquinha, Santana do Mundaú, Murici, Rio Largo, Atalaia, Capela, e Quebrangulo, como as mais atingidas, passando por Paulo Jacinto, Viçosa, Satuba, Marechal Deodoro, Coqueiro Seco, Santa Luzia do Norte, Cajueiro e Matriz de Camaragibe, que também sofreram grandes danos, até São Luiz do Quitunde, Boca da Mata, Anadia, Jacuípe e Colônia de Leopoldina, todas com perdas de vidas humanas e prejuízos materiais ainda não conhecidos.

Faço o registro dessa catástrofe com o peito apertado e a angústia de não dispor de condições superiores às que despendi ao entregar às instituições ligadas à Defesa Civil, peças de vestuário e alguns víveres que não faziam falta à minha família, como doação aos desabrigados.

A situação de carência que envolve milhares de famílias alagoanas atingidas pelo crescimento abrupto dos cursos d’água é de cortar coração, mas somente aqueles apanhados por eventos desse tipo são capazes de aquilatar, de verdade, o sofrimento dessa gente.

De minha parte, perdi a conta de quantas pessoas apareceram, nas lentes das câmeras, desfilando a miséria de quem perdeu o lar e os bens materiais que possuíam, muitos chorando também, pelas vidas de parentes próximos carregados rio abaixo por águas enfurecidas. Eram semblantes desesperados, de almas sem esperança, força ou dignidade, a mendigar qualquer coisa a fim de atenuar sua penúria.

É difícil descrever fielmente o trágico cenário que se abateu sobre os alagoanos, entre os dias 18 e 21 de junho de 2010. A força da enxurrada levou de roldão tudo o que encontrou pela frente: casas, estradas, pontes, cercas, móveis, utensílios domésticos, animais e seres humanos, com tamanha velocidade que não deu tempo para salvar quase nada do que as pessoas tinham de seu.

Não é o primeiro evento trágico provocado pelas chuvas nas cidades de São José da Laje, Atalaia, Capela, Cajueiro, União dos Palmares e Matriz de Camaragibe. Laje foi atingida duas vezes, no século passado, com intensidade similar e as outras também foram arrasadas nesse mesmo tempo, pelo menos, uma vez.

É lamentável que homem não aprenda, nem com os desastres, a respeitar o meio-ambiente. Não se pode ocupar todos os lugares, sobretudo aqueles que o mesmo ser humano reconhece como impróprio para ser habitado, como as áreas de preservação permanentes, inclusive as que deveriam conter matas ciliares, em vez de casas, porque mais cedo ou mais tarde a Natureza vem requisitar tudo de volta.

Agora, depois da catástrofe, quando São Pedro fez trégua, surgiu uma paisagem horrenda semelhante àquela descrita no apocalipse, como um véu negro a cobrir grande parte da zona da mata alagoana.

Sensibilizado, o Governo Federal acenou com proposta de ajuda em torno de cem milhões de reais. Não sei como o dinheiro vai chegar a Alagoas, nem como será utilizado em prol dos desabrigados/desalojados, contudo esse numerário precisa vir bem amarrado para não se perder no caminho, pois que estamos em período eleitoral e a tentação dos políticos, de por a mão na botija, especialmente aqueles que ficam ao lado do atual Governador e ele próprio, pensando em reeleger-se, é enorme. Não seria o primeiro caso em que os pobres ficaram a ver navio…

Portanto, vai o meu apelo ao Ministério Público Federal a fim de que venha rastrear o trajeto dos recursos e acompanhar a sua aplicação. Se me permitem sugerir: uma forma interessante seria converter os numerários em moradias para os desabrigados, porquanto muitas casas desapareceram tragadas pelas águas revoltosas, deixando os seus proprietários impossibilitados de reconstruí-las, principalmente, em lugar seguro, longe dos rios.

O preço dessa tragédia, para os alagoanos pobres, é imensurável. Entretanto, se os recursos não forem aplicados corretamente, será muito pior. A vida do nosso povo não terá futuro!

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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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