Nesse tempo eu era membro do Conselho Estadual de Proteção Ambiental de Alagoas – CEPRAM-AL, conselheiro intransigente e radical, segundo os usineiros alagoanos.
Mesmo sendo um “ecochato” nunca perdi o respeito dos industriais do açúcar, que às vezes convidavam-me para eventos ligados a área ambiental, inclusive festas. A festa que deu origem a essa crônica foi comemorada em um balneário da homenageada – Usina Coruripe – próximo da área de encosta declivosa florestada que recebera naquela semana, a concessão, pelo IBAMA, do título de Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN.
Choviam convivas. Porém, antes do rega-bofe, fomos dar uma volta para conhecer a Reserva. Havia uma professora, com mestrado patrocinado pelo grupo açucareiro, que ciceroneava os convidados, guiando-os pelo ambiente da mata e que de quando em quando parava para dar explicações sobre alguns indivíduos da flora, ali presentes. Era uma aula interessante e prendia nossa atenção. Seguimos a observar todo o ecossistema da floresta até nos darmos conta de que havia chegado a hora do regresso, ao balneário.
No retorno sentou-se ao meu lado, no banco da “jardineira”, o administrador de campo da Usina, um engenheiro agrônomo, meu conhecido, chamado Cição. Este, sem meias palavras, queixou-se do pároco e do promotor de justiça de Coruripe, em face de uma devastação provocada por fiéis vinculados à igreja católica, que incentivados adentraram a mata em busca de um mastro para a festa do santo Filomeno.
Entre aborrecido e curioso revirei meus arquivos, inutilmente. Vim para Coruripe ao nascer e fiquei por lá boa parte da minha infância sem que soubesse da existência daquele santo. Cição explicou, no entanto, que era obra do novo pároco, há dois anos na Cidade. Ele viera de Sergipe e lá, em determinada cidade do interior sergipano, comemorava-se a festa de São Filomeno. Consistia na derrubada de uma árvore de fuste longo (cerca de 15 m) e fino (próximo de 60 cm de circunferência), trazida por uma multidão, para ser fincada na frente da igreja, com a bandeira do Santo, presa na ponta do lenho.
Sem perder tempo, por causa do adiantado da hora, Cição levou-me para ver os estragos. No caminho contou tudo. O padre pedira-lhe permissão para retirar a madeira da Reserva, no que fora negado, por motivos óbvios. Entretanto, o Agrônomo oferecera um madeiro de eucalipto, nos moldes daquele pretendido pelo religioso, que poderia ser retirado de um monocultivo da administração. Mas, o padre fora taxativo: -“eucalipto não serve!”
Dia seguinte, vieram os católicos armados de foices, facões e machados, invadiram a reserva florestal, deixando pelo caminho uma trilha de destruição até encontrarem a árvore ideal, que foi abatida sem contemplação e removida para o pátio da igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Coruripe.
Antes de mim, Cição reclamara providências do Promotor, que não dera ouvidos.
Voltamos ao balneário. Eu estava com um nó na garganta. Sentei à mesa sozinho, mas logo, o dono da Usina veio ter comigo, seguido do Promotor. Mal se acomodaram, desabafei. Perguntei ao Promotor se ele não soubera do desmatamento e porque não adotara as providências cabíveis. O Homem ficou nervoso e tomando de um guardanapo de papel, começou a rascunhar a denúncia, enquanto eu soltava o verbo: -“ Esse padre de merda não tem o direito de estimular o desmatamento de uma reserva florestal, protegida por lei!”… Ele parou de chofre. Levantou-se, amassou o papel, atirou-o ao chão e com a face transtornada pela cólera, disparou: -“ Não dá para conversar com você, ateu!” Deu meia-volta e saiu. Voltou em seguida e atacou: -“Argolo, jamais volte a dirigir a palavra a mim!” Foi embora soltando faíscas. O usineiro saiu de fininho, rapidamente, atrás do Promotor. Ao ficar só na mesa, aproveitei para ir embora, dali.
Posteriormente, nos encontramos em outros eventos de meio-ambiente. Na audiência pública da barragem da Usina Coruripe, solicitada pela Sociedade Ambientalista Mãe Natureza, fomos forçados a sentar à mesma mesa – a das autoridades, na abertura dos trabalhos. Ele estava constrangido, eu também. Contudo, da discussão do balneário não restara maiores conseqüências e o fato de não me dirigir à pessoa dele, fazia nenhuma falta, a mim.
O que eu não contava era com a retaliação do Santo. Cerca de um mês após a ocorrência do Balneário, fui a uma reunião da ONG que eu secretariava – o Fórum de Defesa Ambiental de Alagoas – FDA e logo na abertura da assembléia, o Presidente dirigindo-se indiretamente, a mim, disse que “a gente devia evitar desavença com os nossos aliados naturais”. O vice-presidente foi mais direto, informou a preocupação dele por “eu ter arranjado inimizade com uma pessoa poderosa”.
Foi o pingo d’água que fez transbordar o copo. Abandonei a reunião e nunca mais voltei ao Fórum de Defesa Ambiental de Alagoas. E, lá se foram os companheiros ambientalistas.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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