VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

30 de abril de 2010 1:19 

O dono do pedaço

Ele não tem papas na língua e é abusado. Um dia desses me acordou com aquele seu barulho característico. Eu digo barulho porque não se pode chamar de sã consciência, o seu piado de canto. A meu ver, canto é um som mavioso que os pássaros canoros, especialmente, costumam liberar para gáudio da natureza. O dele não, é só: “bem-te-vi…bem-te-vi…” Mas, o Sérgio, nosso porteiro acha bonito. Ontem quando voltei da rua, pelas 11 horas, lá estava ele: – bem-te-vi… bem-te-vi… bem-te-vi… E o Sérgio ouvia maravilhado.

No dia em que ele pousou na minha varanda e pareceu me dar bom dia, nem esperou que eu respondesse, bateu asas e foi parar nas amendoeiras que ficam defronte do meu prédio, porém antes de sair defecou em minhas plantas, certamente por desaforo.

Faz dias que tento me aproximar dele; só para conhecê-lo melhor. Coloquei banana, depois laranja, algum alpiste, xerém de milho e até algumas uvas, na varanda, sem que ele voltasse.

É um indivíduo curioso. Veste roupagem escura, sua cabeça é ornada por uma coroa negra encimada de uma nesga amarelo-avermelhado e destacada do resto do corpo por causa de um friso branco que a circunda. Alto, por volta de 24 centímetros, de peito largo amarelado, pareceu-me muito bem de saúde apesar da poluição. Sua eloqüência é o que mais impressiona. Dias há em que passa toda a manhã cantando – à maneira dele, é claro.

 Mas, tem um grave defeito moral: é prepotente! Quando ele canta ninguém mais dá um pio. Sua turma deve ter por volta de quatro a cinco indivíduos, obedientes. Também, ele é um animal tão forte e largo que lembra o Carlos Rêgo, saudoso massagista do meu querido Clube de Regatas Brasil – CRB, na década de 1960. Rêgo, quando alguém do CRB caía, nem precisava de maca, ele colocava o jogador nas costas e o retirava de campo. Por causa disso chamei o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) de Carlão. É um Carlos Rêgo melhorado.

Às vezes quando me encontro na varanda, ele voa das amendoeiras e posa no teto do prédio, de onde pode me ver, sempre de cima para baixo. Ao que tudo indica não quer papo com seres humanos. Talvez, por isso continue vivo até hoje – mantém distância. Dizem que não aceita gaiola. Segundo a lenda, houve casos em que seus orgulhosos ancestrais preferiram a morte à prisão.

Eu respeito sua vontade e poderia até admirá-lo mais não fosse a ingratidão de que é portador. Pois, embora passe boa parte do dia fora, ele volta sempre para casa que são as minhas amendoeiras, onde mora sem pagar aluguel. Já fez ninho em algumas delas e pelo visto sua prole está aumentando, ali. Não faz muito tempo presenciou uma confusão danada, quando enfrentei as motosserras da Prefeitura de Maceió para que não derrubassem aquelas árvores, em que ele reside. Nem por isso me foi grato, o arrogante!

No entanto, eu gosto dele. Basta-me vê-lo imponente, audacioso a cortar o céu velozmente. Livre, altaneiro, como se fosse um símbolo da resistência animal ante a arrogância humana. Um cavaleiro intrépido a desafiar o poderoso inimigo em seu próprio campo de batalha: a cidade.

Aí, eu penso que nem tudo está perdido e o mundo ainda pode ter jeito.

– Viva o Carlão, nosso bem-te-vi imperador! O Dono do pedaço!
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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