A Avenida Álvaro Calheiros, em Maceió, começa no pé do Viaduto Industrial João Lyra e termina à beira-mar. Ela contém um canteiro central repleto de árvores e trânsito em mão única. Antes era mão dupla, sendo os sentidos invertidos, um de cada lado do canteiro. No fim da Rua, pertinho da praia, as amendoeiras e outras plantas do canteiro não resistiram à fúria dos maloqueiros e dos pedintes que se aboletavam perto do semáforo. No resto do canteiro as árvores estavam bem.
Certa noite ouvi o barulho de galhos sendo arrastados, na minha rua. Corri à varanda e vi duas pessoas puxando hastes de amendoeiras e descartando-as no terreno defronte do meu prédio. Desci correndo e avistei os criminosos mutilando o resto das copas de duas árvores, na rua vizinha, a Av. Álvaro Calheiros. Interpelei-os e me informaram terem sido contratados pelos proprietários de seis casas comerciais, dali, que reclamavam estarem aquelas árvores prejudicando a visibilidade de suas lojas.
Voltei para casa apanhei minha câmera e fiz fotografias dos danos e dos criminosos materiais. Dia seguinte denunciei o caso aos órgãos competentes. Acrescentei uma denúncia à Delegacia de Repressão aos Crimes Ambientais – DRCA, para formalizar um processo criminal.
Até aí, tudo bem. Eu havia recorrido à DRCA uma vez e saíra satisfeito. Fui lá de novo. A Delegacia ocupava um espaço pequeno e acanhado. Havia dois funcionários e a Delegada não estava presente. Deixei a denúncia e recebi o protocolo.
Dez dias após fui informado da audiência que seria dali a uma semana. Compareci no dia e hora aprazados e fiquei a esperar. Enquanto aguardava a autoridade reuni mentalmente várias reflexões, entre elas a de sugerir ao meu filho Matheus para fazer o curso de Direito e, quando se formar, que enverede pela área dos concursos públicos, para tentar ser delegado de polícia, porque aqui em Alagoas esse emprego é moleza, já que ninguém comparece regularmente ao trabalho, mesmo com salário que vai de nove a quinze mil reais por mês, conforme a categoria. O delegado(a) só tem que tomar uma precaução: manter o celular ligado e deixar o resto por conta do chefe de serviço, exceto se for um caso de repercussão; aí ele deve aparecer para dar entrevistas.
Três horas depois a Delegada chegou. Chamou as partes e eu me vi sozinho, frente a frente com os criminosos intelectuais. Agressivos, procuraram me ridicularizar. Em dado momento um deles, o mais hostil, começou a fazer gestos labiais que eu li e dizia o seguinte: -“filho da pu… vou lhe pegar! Seu ecologista via…!” Imediatamente, comuniquei à Delegada e pedi providência. Para minha surpresa, ela respondeu que não vira absolutamente nada e com ar irônico, perguntou aos presentes (aos agressores) se alguém vira os gestos. Protestei, mas ela não deu ouvidos. Indignado, levantei-me e desafiei o desordeiro a bater em mim lá fora, saindo incontinenti do local. Como ele não veio, voltei à sala e informei à Delegada que iria denunciá-la ao Ministério Público. Assim o fiz, no dia seguinte, embora até hoje e, já faz três anos, nenhuma notícia desse processo tenha chegado a mim.
De lá para cá, alguma coisa mudou. A DRCA que servia para nada foi extinta, em uma das raras atitudes coerentes do Governo Ronaldo Lessa, ao tempo que a Avenida Álvaro Calheiros sofria transformações. A Prefeitura de Maceió mandou derrubar todas as árvores ornamentais que ficavam a cem metros do fim da Rua e removeu o canteiro, naquela área, substituindo-o por concreto e asfalto. A partir do Viaduto João Lyra, o canteiro sofreu diversas intervenções, sendo estreitado em vários locais, como também, foram cortadas muitas árvores para a construção de modernos pontos de ônibus, no lugar delas.
A licença ambiental, para a realização dessa obra, não se tem notícia e muito menos das compensações pela remoção das árvores.
Ora, se as empresas privadas pintam e bordam com os objetos naturais, sem que a Secretaria Municipal de “Proteção” ao Meio-Ambiente de Maceió – SEMPMA, tome nenhuma atitude, imaginem se ela seria capaz de encaminhar alguma ação contra a Prefeitura!…
E a história terminou conforme minha avó Idalina costumava contar: entrou por uma perna de pinto saiu por uma perna de pato!
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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