VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

4 de fevereiro de 2010 23:30 

O Bispo e o engraxate

Viera do município de Cajueiro, fugindo da miséria, o filho mais velho de Dona Maria Doméstica que, analogamente ao nome, exercia a profissão de doméstica, naquela cidade do interior alagoano. Aos doze anos, semi-analfabeto, recém chegado à Maceió, José Cícero ia tirando o seu sustento da caixa de engraxate.

Moleque simpático, conversador, não lhe faltava serviço. Cobrava um real para engraxar cada par de sapatos que lhe confiavam. Mas, conforme revelou, havia sempre gorjetas, após as tarefas.

Sua maior dificuldade consistia em arranjar um lugar para dormir, porquanto, ao anoitecer, fugia das ruas como o cão foge da cruz, conforme aconselhara sua mãe. Às vezes, quando chegava cedo, arranjava dormida no Abrigo São Vicente de Paulo. Ali, um senhor idoso, o administrador, lhe oferecia café, pão e sopa quente. Porém isso nem sempre era possível, pelo número reduzido de cômodos e escassez de alimentos. Freqüentava, também, o Repouso dos Artistas, na Rua Pedro Monteiro, em que não lhe davam comida, mas deixavam-no dormir em um cantinho da sala, livre dos malfazejos. O problema era o gerente. Quando este se encontrava na casa, não tinha pernoite. Alegava que o abrigo não era lugar para maloqueiro. Havia, ainda, dois outros locais, onde em último caso, passava a noite. A Pousada do Baiano, junto da Auto Fon-Fon, na Barão de Penedo e o Bar da Severina, no Mercado da Produção. Na Pousada, dormia no corredor, somente, se uma mulher da vida, a Creusa, sua conterrânea, estivesse presente. Sem a mesma não confiava, pois, um dia em que ela não se encontrava e que ele dormira ali, foi acordado por uma mijada de um bêbado. Já no Bar do Mercado, havia o Augusto, um velho cego, conhecido de sua mãe, mas cobrava dois reais pela noite em um colchão sem lençol e com muito mosquito.

Normalmente, acordava cedo, corria para o Mercado da Produção, a fim de tomar o desjejum no Bar da Salete, um freje-mosca, que fornecia um copo de café, macaxeira ou batata doce ou inhame, com carne seca, por um real e cinqüenta centavos.

Considerava-se um garoto de sorte, pois nunca havia sido assaltado. Uns meninos engraxates, como ele, contavam histórias terríveis, de homens que lhes bateram e roubaram o apurado. Outros narravam coisas piores, como atentado violento ao pudor, de que foram vítimas.

Fazia 10 meses que estava em Maceió. Por seu juízo, a vida melhorara sobremaneira, em comparação com a de Cajueiro. Na cidade grande tudo era mais fácil. Tinha comida, bebida, roupa, até educação, pois que ele planejava estudar no ano seguinte. Depois, quando estivesse mais ambientado, quem sabe, pretendia alugar uma casa e trazer a mãe e os irmãos. Pensou bem: os irmãos iam ser uma carga pesada. Não podia dar conta. Era melhor deixar pra lá. Além do mais, sua mãe não iria querer abandonar o emprego, para não perder a indenização… Afinal de contas, todo mês ele não viajava para ver a mãe?…Ficou triste, de repente. A família passava uma fome danada, em Cajueiro. O tempo só melhorava no verão, quando a Usina Capricho estava moendo. Aí corria dinheiro. Os irmãos pequenos iam esmolar e voltavam sempre com alguma grana. Mas, no resto do ano, a miséria imperava.

-“Bom dia, Seu Zé Luiz! Vai engraxar, hoje?” perguntou ao dono da Auto Fon-Fon.

–“Vou sim”. Respondeu o comerciante. –“Mas, não demore muito porque estou ocupado”.

-“Deixe comigo!”. Disse o engraxate.

Nesse ínterim entra um carro na loja. Desceram o motorista e Dom Edvaldo Gonçalves do Amaral, este, arcebispo metropolitano de Maceió. O proprietário da casa, prontamente, dirigiu-se à autoridade para atendê-lo, interrompendo o serviço. Dom Edvaldo informou sua necessidade e o carro foi encaminhado para o conserto.

Enquanto aguardava o reparo, o Bispo ficou sentado próximo ao engraxate, que não perdeu tempo: – “Seu padre, vamos dar um trato?”. Disse apontando para os sapatos do religioso.

Dom Edvaldo era simpático, de comportamento simples, comunicativo e gostava de ajudar as pessoas. Viu naquele garoto, a oportunidade de fazer o bem; colaborar de alguma maneira, pagar por um serviço, passar o tempo…

-“ Está bem”. Disse o Arcebispo. –“Você sabe engraxar, mesmo, rapaz?” perguntou entabulando conversa.

A prosa foi boa. Menino tagarela, em pouco tempo, colocou Dom Edvaldo a par de sua vida pregressa. O Bispo ficou enternecido. Estava diante de uma criança de boa índole, dada ao trabalho, propensa aos estudos, com possibilidades… Se lhe desse um empurrãozinho, quem sabe, poderia ir longe. Pensou em uma maneira de encaminhar o garoto. Lembrou-se de uma instituição situada no bairro do Tabuleiro dos Martins. Poderia dar certo. Lá, o menino iria estudar, ficaria abrigado, com direito a alimentação, roupa lavada e receberia até uniforme da casa.

-“ Diga-me uma coisa, José Cícero: se eu arranjasse, você aceitaria morar na Cidade de Menores Humberto Mendes?” . Perguntou o Arcebispo.

O menino parou o serviço, levantou a cabeça, olhou para o Sacerdote e disparou: -“ Eu, seu padre, pros meninos maior comer o meu cu!”
-

José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



Indique esta Mteria a um amigo

Não há matéria relacionada.



Colunas Anteriores
Visão nordestina

Todas as colunas


Amarnatureza.org.br - Jornal da Associação de Defesa do Meio Ambiente Araucária
Copyright © 2009