A tarde apenas começara, naquela segunda-feira, em Coruripe, município do litoral sul de Alagoas. Dona Idalina, esposa de um abastado empresário, havia trabalhado fortemente de manhã e encontrava-se cansada àquela hora. Fazia calor, o que induzia ao banho e a um bom descanso na rede. Tomou as duas providências e agora estava a aguardar o sono.
Os pensamentos voavam. Filha do Seu Antônio Pedro – pequeno proprietário – casara-se com um rapaz que viera dos seringais da Amazônia, o Júlio de Souza. Ele era de trabalhar muito e ela não ficava atrás. Trouxera algum dinheiro e aos poucos, paulatinamente, fora multiplicando a riqueza. E como diz o provérbio: Deus ajuda a quem cedo madruga. Não deu dez anos e tornara-se um dos homens mais ricos de Coruripe. Difícil contar os seus bens, nas diversas áreas da economia, pois havia se metido em quase todas. Desde um empório bem sortido, onde se vendia tudo, de botão a colchão; passando pela posse de vários sítios de coqueiros, de quilômetros e mais quilômetros de terras repletas de mata e de gado até a criação de cavalos e rebanhos de outros animais, em grande quantidade.
Como as estradas de rodagens não sonhavam em dar os primeiros passos, viu que o comércio mais próspero, ainda, estaria ligado ao ramo do transporte marítimo, para o qual fundou um estaleiro. Nesse segmento, tanto fabricava para vender como para usar, de sorte que, a sua frota dispunha de dois barcos de médio calado, uma barcaça com capacidade para duzentos sacos de açúcar – a Ridilina, e duas outras um pouco menores – Japurá e Jacy, que viviam ocupadas transportando mercadorias de Alagoas para o Estado da Bahia e vice-versa; às vezes iam mais longe, até o Rio de Janeiro. Para completar sua fortuna, a maioria dos empresários da terra estava a dever-lhe dinheiro, por algum empréstimo tomado a juros de mercado.
Morava em uma casa com vários quartos, sala de visitas, corredor, sala de estar, sala de refeições, copa, cozinha, banheiro e quintal que dava até a outra rua.
Idalina deitara-se na sala de estar, em uma rede, com as janelas abertas, enquanto seu filho Juquinha e alguns meninos faziam zoada na sala de visitas, brincando.
A casa daquele tamanho, para uma pessoa só, dava medo, motivo pelo qual a mulher não reclamara do barulho das crianças; ao contrário induzira o filho a não sair de casa, alegando que o calor da rua poderia causar-lhe mal. A empregada estava de folga e o marido Júlio cuidava dos negócios em outro lugar. Enquanto ouvia as vozes dos garotos, ela se sentia aliviada, não só pelo fato de o filho não estar a bater pernas no mundo, como, também, pela presença dele e dos outros, no casarão. Aos poucos, a barulheira foi se afastando e ela adormeceu.
Os meninos saíram, furtivamente, ganhando a estrada. Idalina ficara sozinha, envolta em sonho. Seu filho José, tratado carinhosamente por Juquinha, levado da breca e cheio de vida, era o seu xodó. Como o primogênito, Miguel, não vingara, os cuidados com o segundo redobraram. Agora, ele estava com oito anos de idade e ela não mais engravidara. Na Europa a guerra recrudescera; os alemães estavam a levar vantagem. Sem saber a razão, ela guardava no imo, simpatia pela causa germânica…
– D.Idalina! D.Idalina!…
A voz era-lhe familiar. Lembrou-se logo de uma menina que morava na vizinhança, a Francisca. Nunca simpatizara com ela. Aquele seu ar doentio, muito magra, desagradável, e além de tudo, inconveniente. Será possível que ninguém pode descansar em paz, dentro de sua própria casa, pensou.
– O que é? Perguntou mal-humorada.
A menina fez o apelo: – D.Idalina, por favor! Brigue com o Juquinha, pois ele está me aperreando!
A mãe não titubeou em responder, taxativa: – Vá para sua casa que ele não vai lhe aperrear!
Incontinenti, sentiu pressão sobre os punhos da rede e esta balançou com toda a força. A dona da casa não se conteve: – “Pera aí, sua malcriada!”…
Tentou levantar-se de pronto, porém ficou meio tonta com o balanço. Fincou os pés no chão e parou a rede. Olhou em volta. Não havia ninguém. Veio um calafrio e os pêlos arrepiaram-se. Levantou-se depressa e correu desabalada no sentido da rua.
Em lá chegando, já a vizinha Ambrosina anunciava: – Idalina, sabe quem acabou de falecer? A Francisca, filha da Isabel. Aquela menina era mesmo doente, não é?
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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