Severino era um homem descuidado, em tudo na vida. O pior é que não gostava de trabalhar. Trabalho para ele, só na horizontal. Ali, poucos homens seriam capazes de superá-lo.
Era casado com Wilma, filha mais velha de Dona Luzia, proprietária de uma faixa de terra estreitinha, onde residia com os filhos, em uma casa de teto baixo e escura, cuja frente adaptada servia de mercearia, lá para as bandas do sítio do Fragoso, no bairro de Bebedouro, Maceió/AL.
Moça prendada em artes domésticas, Wilma tinha o corpo moreno, pernas bem torneadas e grossas, olhos vivos destacados do rosto arredondado e que formava um conjunto gracioso, sem ser bonito.
Rapaz de tez morena, quase escura e olhar penetrante, Severino fazia valer esse charme como seu principal atrativo. De estatura baixa e corpo enxuto, conforme sua idade, próxima dos vinte e dois anos, demonstrara uma queda por Wilma, a quem chamava de Milma.
A moça correspondera ao afeto e não demorou a que se desse o enlace matrimonial.
O vizinho, Senhor Djalma Alencar facilitara as coisas, ao doar um lote de terra, para a edificação da casa de morada dos noivos. Melhor, ainda, com o material de construção fornecido, graciosamente, pelo também, vizinho e de certa forma, pai adotivo de Severino, o senhor Manoel Fragoso. Para completar a maré de sorte, houve um mutirão na rua e várias pessoas ajudaram a edificar a casa, de maneira que, após o casamento, o casal seguiu direto para o lar, novinho em folha.
Severino exercia a profissão de carroceiro e até essa labuta fora amenizada ao receber de presente, de um companheiro de infância, uma carroça completa, com cavalo e arreios. Era como se tudo houvesse caído do céu, dada a prodigalidade com que os bens entravam na vida dos recém casados. Uma confluência de forças conspirava, positivamente, para a felicidade daqueles jovens.
Sucede que o moço não era do trabalho e com a sua lua-de-mel prolongada, não foi surpresa vir ao mundo, ao cabo de nove meses, o primeiro rebento. Daí, para o segundo foi um pulo. Veio o terceiro, incontinenti, o quarto, o quinto… E, após vários anos, o número de descendentes alcançara a expressiva soma de quinze pessoas.
Dizer que o corpo de Wilma estava deformado pelos sucessivos ciclos de gestação e parto, seria o mesmo que chover no molhado. Da mulher atraente que enfeitiçara o coração de Severino, quase nada mais restara. Contudo, o homem continuava firme em sua saga prolífica.
Um dia, quando a tarde dava lugar aos primeiros momentos noturnos, Wilma e Severino bateram à porta de nossa casa, que ficava no começo da Rua do Banheiro, em Bebedouro, para fazer uma ligação telefônica pedindo uma ambulância, porque a mulher estava a entrar em trabalho de parto. Prontamente, minha irmã Norma dirigiu-se ao telefone, na sala vizinha. De minha parte, fui para a cozinha, enquanto o casal permaneceu na sala de estar, aguardando. A mulher não quis sentar-se devido ao seu estado de iminente parição.
Norma, na sala vizinha e eu, em um cômodo mais distante, ouvimos de repente um baque surdo seguido do choro de recém-nascido. Corremos na direção do casal e presenciamos o evento. Um bebê moreno e fornido, lambuzado de um líquido placentário e com o cordão umbilical rompido, chorava convulsivamente, no duro chão ceramizado da casa.
O corre-corre só terminou na Maternidade Santa Mônica, para onde Wilma foi encaminhada, envolta em vários lençóis, num táxi cuja corrida ficou por conta de minha irmã Norma.
Dias depois, Severino bate, novamente, à nossa porta, desta vez para nos fazer um singular convite, sermos padrinhos-de-vela do recém-nascido, que na pia de batismo recebeu o nome de Olival.
E assim ganhei um afilhado que não nasceu: caiu!
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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