Se eu disser que o ambientalismo alagoano não tem o sabor do açúcar, falto com a verdade, porque tudo o que vinga ou fenece na terrinha, tem a ver com ele. É certo não ser essa generalidade livre da regra e, por conseguinte, cabe alguma exceção. Existem talvez duas ong’s, porém seguramente não mais de três que escolheram adoçante diverso. Sair à procura de outras entidades ambientalistas, além dessas, torna-se mais fácil achar agulha em palheiro.
Alagoas é um Estado atípico. Herdou da Coroa, como os demais, a iniquidade na distribuição das terras, contudo, diferentemente dos outros estados, foi o único que resistiu ao Império, à República e suas revoluções, permanecendo com latifúndios superiores a quarenta por cento do seu território nas mãos de doze a quinze famílias.
Não admira, portanto, existir nesse Estado uma confluência de forças que conspira para a concentração de riqueza e poder na direção de poucas pessoas.
Nesse contexto, basta procurarmos no mapa o local da zona da mata que encontraremos o monocultivo da cana-de-açúcar, no lugar das florestas. Uma monocultura sazonal, ainda repleta de irregularidades no âmbito trabalhista e que desemprega as pessoas durante a metade do ano. Todavia, essa gramínea (Saccharum officinarum) que cobre os melhores solos do Estado, significa poder. É ela que elege vereadores, deputados, senadores, prefeitos e também o Governador; controla magistrados e promotores de justiça, nomeia delegados de polícia, indica secretários de Estado, amordaça a Imprensa e ocupa todos os postos de trabalho importantes, no serviço público.
Em Alagoas, para onde se vira dá de cara com usineiros. Eles estão, obviamente, nas indústrias do açúcar e do álcool espalhadas em uma região de pluviosidade regular e terrenos férteis. E como não poderia deixar de ser, abraçaram outras atividades, ultrapassaram os limites da zona da mata e adentraram o sertão. Podem ser vistos nas grandes propriedades criadoras de gado bovino de corte e leiteiro; nas indústrias de derivados de leite e na construção civil; nas empresas de transportes e nas comunicações; na indústria têxtil e no comércio de confecções e tecidos; nas concessionárias de automóveis, caminhões e tratores; nas empresas imobiliárias, nos centros de educação privada e até na geração de eletricidade. Não são Deus, mas estão em toda parte.
Ante essa dominação não há quem não se curve, até porque o lema é “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. É esse poder que impõe as regras e a população, faz tempo, esqueceu dos valores – os intangíveis cederam lugar aos pecuniários. Enquanto uma parte significativa da juventude alagoana, aturdida não sabe distinguir enriquecimento material de progresso moral, outra parcela de jovens, não menos expressiva, deixa levar-se pela apatia, acomodando-se aos padrões estabelecidos pelos donos do açúcar. Mesmo a flor da intelectualidade alagoana deixou-se estar à distância, silenciosa e fria, sem exalar suspiro algum; a universidade já não cumpre o seu papel – não questiona, não forma opinião e não educa. A classe estudantil, por sua vez, parece estar nos braços de Morfeu.
Toda essa massa de gente sem esperança que não sabe mobilizar-se, (a não ser em protestos por aumento salarial), que não produz lideranças e olha indiferente para a miséria ao seu redor, não poderia jamais gerar um ambientalismo forte.
O movimento ambientalista alagoano é raquítico assim como o idealismo da maioria dos seus integrantes, estes alojados em cargos públicos sob a proteção de políticos forjados no fisiologismo e na corrupção, procedem tal qual Pilatos, lavando as mãos para o destino do meio-ambiente em Alagoas.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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