Eu era criança. Contava oito anos de idade e morava na Fazenda Bom Jardim, em plena Mata Atlântica, no município de Flexeiras, Alagoas.
Certo dia, meus irmãos e uns primos combinaram pescar jacaré, em um curso d’água a alguns quilômetros dali, na Fazenda Riachão.
Resolvi ir com eles. Em princípio não concordaram, mas chantageei um deles ameaçando contar aos meus pais algum de seus malfeitos. Deu certo. Mesmo contrariados, concordaram. Impuseram, no entanto, condições: eu não deveria entrar no rio e, nem tampouco reclamar de cansaço durante a viagem. Concordei.
Dia seguinte, logo cedo, partimos. Aos primeiros albores chegamos a Riachão. Do alto, avistamos o rio que serpenteava mansamente pelo vale. O seu curso destacava a irregularidade do terreno, alternando inclinações, ora de um lado, ora de outro, seccionando ribanceiras e destas expondo complexos habitats, dentre eles os de indivíduos pouco hospitaleiros, como besouros mangangás, aranhas caranguejeiras, escorpiões, cobras e outros animais residentes naquelas barreiras.
Iniciamos a descida e não demorou a que adentrássemos no vale. No começo, o relevo era forte ondulado, depois ia paulatinamente, suavizando-se até tornar-se plano.
Lugar bonito. Todo o ecossistema estava pontilhado, aleatoriamente, por diversos capãozinhos de mato, cercados de capim nativo de baixa estatura. Todavia, uma mata ciliar densa ocupava as margens do rio, em ambos os lados, formando uma faixa estreita e contínua que acompanhava o riacho, até perder de vista.
Meus irmãos mandaram que eu parasse. Procurei uma posição melhor para observá-los enquanto se distanciavam. Encontrei um araçazeiro grande à beira de um barranco, perto do rio. Este, naquele ponto, bifurcava-se formando uma pequena ilha, onde ocorria formidável diversidade de plantas, predominantemente arbustivas, intercaladas por algumas árvores de porte mais elevado.
Deitei-me de bruços. Coloquei os cotovelos no chão e pus-me embevecido a apreciar o cenário. Àquela hora, o sol, com seus raios cálidos, iluminava a ilha de modo aparentemente especial. Havia muitos pássaros. Tantos, de tantas cores, de tão variados gorjeios, tão belos, tão alegres… Numerosos em quantidade que eu, mesmo se quisesse, não teria podido contá-los.
Eram galos e galinhas d’água a fazer vôos curtos; perdizes a pastorar. Azulões, sangue-de-bois, cardeais, guriatãs, caboclinhos, canários, curiós, papa-capins, bem-te-vis, três-côcos, socós, beija-flores, anumarás, rolinhas, jaçanãs, muitas aves coloridas que eu não conhecia e alguns animaizinhos da fauna terrestre, como os preás que timidamente deixavam seus abrigos à procura da sua primeira refeição do dia.
O labor diário era festa para aqueles indivíduos. A mãe natureza lhes provinha. A vida acontecia despreocupadamente.
Hoje, nada mais existe lá. A vegetação foi devastada. Os animais silvestres, mesmo os pássaros, sem ter para onde ir, foram caçados ou morreram de inanição. O Riachão, que dá nome à Fazenda, secou. A terra perdeu o viço. Responsável pela transformação, a cana de açúcar adubada quimicamente, deixou de ser produtiva e a Usina Bititinga fechou.
Meus parentes tinham voltado, então. Traziam os samburás repletos de peixe e nenhum jacaré.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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