Quer queiramos, quer não, entramos no clima natalino. Ou somos empurrados…
As luzinhas da China, coloridas, brilhantes e chamativas, tremeluzem em todos os lugares: nas lojas, nos enfeites, nas sacadas dos prédios, nos jardins das casas e na decoração das ruas de comércio. E parecem nos dizer: “comprem, comprem, comprem!”. E nós, como robozinhos descerebrados, obedecemos.
Tudo vem da China a preços irrisórios. São roupas, sapatos, bolsas, bijuterias, cosméticos, enfeites e mil e uma “inutilidades” domésticas. Quinquilharias de todo tipo.
Sempre me prometo não adquirir nada proveniente da China. Mas o apelo é tão forte que a gente acaba sucumbindo e não resistindo às tentações. Somos facilmente seduzidos pelas armadilhas. Compramos o brinquedo que talvez não funcione ao chegar nas mãos da criança, que ficará decepcionada. Compramos o enfeite que desbota ao sol, a bijuteria que oxida no primeiro contato com a pele, a roupa chamativa que se abre nas costuras e o tecido se esgarça, a bolsa que arrebenta na alça e o cosmético que provoca alergia.
As bijuterias douradas se tornam prateadas após o uso e as de cor prata perdem o brilho e ficam pretas. Os cristais são de plástico e as pedrinhas se soltam facilmente. Não dá para usar mais do que duas vezes uma peça.
Relógios, se já não chegam quebrados, param de funcionar em pouco tempo. O salto do sapato descola e os bordados da blusa se soltam. Mas como pagamos tão baratinho, nem nos damos ao trabalho de fazer a troca e acabamos comprando outro produto igualzinho da próxima vez, alimentando a indústria da porcaria.
Meu marido ficou muito descontente ao adquirir uma camisa num estabelecimento do shopping. A loja vendia sua marca famosa e o preço era compatível com um produto de qualidade como a propaganda pregava. Mas ao experimentar a camisa em casa, e constatar que ela não assentava bem e não tinha aquele caimento que as roupas de bom corte costumam ter, examinou melhor a etiqueta. Qual não foi a sua surpresa ao verificar que sob ela, havia outra etiqueta com os dizeres: “Made in China”. Ficou muito desgostoso e diz que não volta àquela loja.
Eu mesma, num famoso hipermercado de Campinas, onde havia filas de pessoas comprando enormes papais-noéis a preço de banana, resolvi, num ímpeto consumista irresistível, pegar um também. Muitos levavam de dois ou três de uma vez. Era contagioso. Todo mundo na fila dos caixas tinha pelo menos um daqueles bonecos enormes. Satisfeita com a compra, ao tirá-lo da embalagem em casa, que desilusão…O papai noel estava degolado, pois já havia perdido a cabeça que era presa por um fio que havia arrebentado.
Pensei comigo, não é só o boneco que perdeu a cabeça e sim todos nós que permitimos que a indústria brasileira seja desvalorizada e ultrajada. Perdemos a cabeça quando nos entusiasmamos com tanta bugiganga de má qualidade. Em vez de quinquilharias da China, deveríamos prestigiar a indústria brasileira que tem produtos de muito mais qualidade, comprando presentes de Natal feitos aqui mesmo e de muito bom gosto.
—
Ivana Maria França de Negri é escritora, colunista fixa de vários jornais e integrante, há 10 anos, da SPPA – Sociedade Piracicabana de Proteção aos Animais.
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