VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

12 de novembro de 2009 12:28 

Não há mal que sempre dure

Semana passada estávamos a ler uma reportagem sobre desmatamento em jornal alagoano de grande circulação, o qual destacava índices expressivos de devastação da Mata Atlântica e dava conta de que nos últimos trinta anos nosso Estado arrasara noventa por cento da sua cobertura florestal.

A notícia não dava nome aos bois, seja por impertinência ou receio em desagradar potenciais clientes, porque a cada dia a coisa fica mais complicada para os jornais impressos que precisam valer-se de tudo a fim de permanecerem vivos. Já, no mundo virtual é tudo diverso daquele e podemos nos dar ao luxo de sermos independentes.

Enquanto isso, cá estamos livres como passarinho e, sem necessitarmos voar por paisagens outrora ocupadas pela Mata Atlântica, podemos afirmar categoricamente, serem os industriais do açúcar os principais responsáveis pela destruição dessa parte do Bioma, em Alagoas. Entretanto, para ser justo, não se pode debitar toda a conta do desmatamento na ficha deles. A Contabilidade da devastação deve registrar, também, significativo percentual em desfavor dos políticos alagoanos. Embora saibamos que a influência nefasta dos usineiros é capaz de tirar dos eixos locomotiva, por mais pesada que seja, continuamos a acreditar que, se os trilhos do caráter estivessem bem fixados nos dormentes políticos, o descarrilamento poderia ter sido evitado. Não foi, contudo e agora não se deve chorar o leite derramado.

Alagoas permanece há cinco décadas sob a mesma elite política, com alguma variação para pior, à medida que o poder é transferido de pai para filho. Antes, no tempo dos coronéis, imperava a lei do trabuco e as pessoas elegiam os políticos que os donos dos currais eleitorais indicavam. Posteriormente, quando a sociedade “evoluiu”, os descendentes dos coronéis estabeleceram uma nova estratégia, menos hostil, todavia não menos infame, que é a chantagem política sobre os governantes, de sorte que aos parlamentares não faltam recursos pecuniários a fim de possibilitar sua reeleição. Daí para a compra de votos é um salto. Em nosso Estado dificilmente alguém se elege sem a utilização desse expediente.

Antes que alguém veja prolixidade nesse texto, peço vênia por acrescentar uma recordação que paira insistente, como ela só, em recôndito cantinho do meu imo. É que nos primeiros anos da minha juventude, quando trabalhava para a Companhia de Habitação Popular de Alagoas – COHAB/AL, havia entre outros colegas meus, um senhor idoso chamado João Severo. Era exímio datilógrafo e profundo conhecedor do espírito humano. Para ele todo político alagoano era um patife e por isso Alagoas jamais iria para frente. Patife, segundo Aurélio Buarque significa desavergonhado, descarado, insolente, tratante, velhaco, covarde… Seu João tinha um conceito diferente: -“patife é um indivíduo que não tem amigo fracassado, nem inimigo no poder!”

De fato, patifes é o que não falta no tabuleiro da política alagoana. Disso resulta um Estado pobre, dilacerado em suas entranhas, incapaz de oferecer boas perspectivas ao contingente sempre maior de jovens que se apresentam a cada ano em busca de oportunidade de trabalho.

Se Seu João Severo vivo fosse haveria de balançar a cabeça, inconformado com o seu próprio vaticínio, que tem infelicitado tanto à sua terra e ao seu povo.

Não obstante a expectativa pouco animadora que envolve uma potencial disputa pelo poder, em Alagoas, no próximo ano, entre políticos contumazes no xadrez da corrupção, mesmo assim a chama da esperança permanece viva no coração de muitas pessoas, principalmente, naquelas mais esclarecidas e informadas, confiantes de que assim como não há bem que não se acabe, não há mal que sempre dure.

Esperam chegar o dia em que uma nova geração de alagoanos, forjados na adversidade das intempéries, ascendam ao trono, a partir do qual varrerão para sempre todos os resíduos de devassidão que enlameiam nossa terra. Amém!
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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