De repente a sociedade vê-se às voltas com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra a impedir o trânsito nas rodovias federais, de norte a sul do País, sem que o Governo federal, que seria o destinatário dos protestos, tome qualquer providência para resolver o impasse. Explicar as razões pelas quais o Governo está pouco se lixando para o problema, não é difícil; a resposta vem escrita com todas as letras: ações localizadas que não emperram os seus passos administrativos não têm poder de pressão – é fogo de palha, logo se apaga.
Se não afetam o Governo, as arruaças do MST incomodam ao povo e muito, especialmente, o povão sem eira nem beira. Digo assim, com o espírito desarmado e sem menosprezo, apenas para destacar o vilipêndio, porque são os mais pobres, os usuários de ônibus interestaduais que pagam o pato. Impedidos de seguir adiante, ficam à deriva, sob o desconforto de uma longa espera, incerta e aleatória, a depender das volições vigorosas dos Sem Terra. As pessoas que viajam em carros privativos, também sofrem, mas têm a opção de dar meia-volta, os pobres, não. Como o MST até agora não bloqueou aeroporto algum, nem prejudicou o direito de ir e vir dos ricos, por conseguinte, seus atos, segundo a lei, não podem ser considerados terrorismo. Aí, eles deitam e rolam… sobre os mais fracos.
Não sei até onde a corda do povo agüenta. A meu ver o MST está cutucando o cão com vara curta, porque de repente, um empurrãozinho daqui, outro de lá e o povo injustiçado como se encontra, pode optar por fazer justiça com as próprias mãos, pois que, diga-se de passagem, a indiferença da força pública, ante descalabro desse tamanho, dá oportunidade para que ocorra um desastre de grandes proporções e, Deus nos livre, com muito sangue inocente podendo ser derramado. Estou certo, de que o Governo não conta com isso, mas não deve confiar na apatia do povo brasileiro, porque um dia a casa cai e não vai ter na polícia o seu bode expiatório, como no episódio do Pará, pois que agora, calejada, ela prefere ficar na moita olhando o circo pegar fogo.
Acho que o MST está cavando o seu próprio túmulo. O povo brasileiro que até hoje tem apoiado as invasões, dada a iniqüidade histórica na distribuição de terras, em nosso país, a esta altura olha preocupado a movimentação dos Sem Terra, porque não transparece serem as suas ações voltadas para corrigir as desigualdades sociais. Enquanto ocorriam ocupações de terras improdutivas, o Movimento cada vez mais ganhava o apoio da população e se fortalecia, pois que as massas sabiam que o fogo estava sendo dirigido para o alvo certo – os latifundiários. Agora, não. É um tiro no pé. Dá para entender tratar-se mais de um jogo político, cujas regras visam somente favorecer lideranças do Movimento em sua busca pelo poder, do que uma luta a fim de resgatar melhores condições de vida para a população carente.
O comportamento hostil do MST denotado pela exibição acintosa do seu arsenal de “ferramentas de trabalho” (machados, foices, facões…) ante a força policial amedrontada, suscita na população apreensão e medo, ao invés de admiração e apreço. É difícil convencer a gente do povo de que aquelas pessoas são de paz e desejam apenas um pedaço de terra para se instalar e produzir alimentos.
A situação se agrava quando outros movimentos, ligados a sindicatos de funcionários públicos, por reivindicação salarial, e seguros da impunidade, resolvem proceder de idêntica forma, bloqueando estradas. O País vira casa de mãe Joana.
Não sei o que se passa na cúpula do MST, porém tenho certeza de que essa estratégia é furada e os seus adversários estão de olho. Recentemente, a bancada ruralista, do Partido Democratas botou as unhas de fora na TV e atacou abertamente os Sem Terra, um fato que não se via há tempo. Mesmo os ambientalistas que sempre deram as mãos ao MST, mas discordavam da devastação florestal que eles impunham ao ecossistema, no local da invasão, já não se sentem à vontade quando o assunto dos bloqueios de estradas vem à baila.
Como caldo de galinha e precaução não faz mal a ninguém, a Coordenação do MST deveria fazer uma correção de rumo e não confiar no imponderável, porque em ano de eleição o Governo Lula pode inclinar-se para o lado que tiver mais votos. 2010 está chegando e no momento em que a Mídia abrir as portas, a população vai despejar reclamações.
MST! Por via das dúvidas, é bom colocar as barbas de molho.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).Não há matéria relacionada.
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