RESPONSABILIDADE SOCIAL E ÉTICA

LUCILA CANO*
lcano@terra.com.br

25 de junho de 2010 0:01 

Mobilização à brasileira

O comércio popular faz a festa com a venda de camisetas, bonés, faixas, uma infinidade de adereços e sucesso garantido para cornetas e similares do barulho.

As grandes marcas de artigos esportivos empolgam a torcida e fomentam o consumo, inclusive com mensagens motivadoras. A camiseta oficial dos meus sobrinhos tem etiqueta com frase de encher a boca: “nascido para jogar futebol”.

Os fabricantes de fogos, então, nem se fale. Devem soltar rojões de alegria com o crescimento das vendas em época de tabelinha: Copa do Mundo pela lateral esquerda, festas juninas pela lateral direita. Ainda mais agora que os donos de assustados cãezinhos podem comemorar sem culpa. Li no jornal que há tratamento de acupuntura, homeopatia e florais de bach para que os bichinhos encarem a artilharia de fogos com serenidade. Palmas para quem teve a boa ideia. Aí está um negócio que, qualquer que seja o seu faturamento, tem uma causa. Porque só quem tem, ou teve um animal de estimação, sabe o perigo que esse foguetório representa.

De tudo para todos

Crianças que estreiam a primeira Copa de suas vidas, seguidas de perto por adolescentes e adultos fanáticos por futebol, colorem muros e ruas, fazem bolão em casa, na escola, na vizinhança. Dessa forma, desenvolvem a criatividade – alguns desenhos são muito bons -, o treino matemático e a integração social, cada vez mais desejada nos tempos atuais.

O cardápio oficial da Copa, exceto por variações regionais em clima de São João, sugere o combinado “churrasco com cerveja”, com direito a refrigerante para as crianças. Assim, supermercados engordam os seus caixas e cerram as portas nos horários de jogos do Brasil, porque ninguém é de ferro e todos merecem festejar.

Na televisão, os comerciais nos enchem de amor próprio e de promoções. Somos campeões: bravos guerreiros que acreditam na vitória e adoram cantar “sou brasileiro, com muito orgulho…”. Nem os velhinhos da terceira idade (ou da eufemística melhor idade) escapam da mobilização no asilo (casa de repouso, se o leitor preferir).

Em matéria de exemplos, vou parando por aqui. A temática do nosso entusiasmo futebolístico é vasta e o espaço desta coluna é limitado. Mas, desde que começou a Copa, fico me perguntando como é possível tamanha capacidade de mobilização.

Mobilização para a festa e para a tragédia

Seria injusto e falso da minha parte afirmar que o brasileiro só se mobiliza para festejar. Somos solidários e nos comovemos muito com o sofrimento alheio. Entramos em ação rápido e não há barreira que nos detenha, inclusive além fronteiras.

Acompanho o noticiário dos prejuízos causados pelas chuvas em Alagoas e Pernambuco. O estrago é grande e há milhares de desabrigados, além das inevitáveis mortes e um número ainda impreciso de desaparecidos. A chuva continua. Mas, desde as primeiras notícias, também ouço que as doações chegam de vários pontos do País.

O brasileiro é assim: se mobiliza para a festa e para a tragédia, sem pestanejar. Torço para que esse espírito de solidariedade não se deixe levar só pelas mobilizações grandiosas. Porque em todas as áreas, temos muito a fazer.

Outro dia, deu na televisão: o inverno chega e os estoques dos bancos de sangue diminuem em níveis preocupantes. Quer dizer que doar sangue é solidariedade sazonal? O frio coagula nossa nobre capacidade de transferir energia para a vida? Vamos lá, pessoal. Assim como o time adversário em campo, as doenças não nos dão trégua.

Em tempo 1: Adoro futebol, visto a camiseta do meu time do coração, assisto aos jogos da Copa e aos programas esportivos, simpatizo com o bom humor da nossa propaganda. Sempre que posso, procuro fazer alguma coisa para ajudar alguém. Sou doadora.

Em tempo 2: Em 20 de junho, a SOS Mata Atlântica publicou em jornal de São Paulo um “anúncio fúnebre” para o “seu futuro”, em alerta ao Código Florestal que tramita no Congresso. Está aí uma causa que merece mobilização.
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*Homenagem a Engel Paschoal (07/11/1945 a 31/03/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

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Lucila Cano é jornalista especializada em projetos editoriais, consultoria
empresarial e produção de textos sobre Responsabilidade Social e Ética.



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