
O 31 de agosto, Dia do Nutricionista, é bom para lembrar que o G-8, que reúne os oito países mais ricos do mundo, admitiu, na reunião de abril, em Treviso, na Itália, que estava perdendo a luta contra a fome.
Assim, a meta da ONU de reduzir pela metade o número dos que passam fome no mundo até 2015 não deve ser cumprida. Estima-se que hoje eles já sejam mais de 1 bilhão de pessoas.
De acordo com entidades internacionais, a reunião foi um fiasco, tendo servido só para “admitir o fracasso total” dos países ricos em dar uma resposta à fome no mundo. As recomendações feitas pelos países emergentes, como o Brasil, nem foram incluídas na declaração final.
Segundo a FAO, organismo da ONU que cuida de agricultura e alimentação, seriam necessários US$ 30 bilhões por ano para combater a fome. Esse número não é nada perto do US$ 1,1 trilhão aprovado pelo G-20 para o combate à recessão mundial, que deve agregar entre 75 milhões e 100 milhões de novos famintos no mundo.
Na América Latina e no Caribe, o número de subnutridos deve chegar a 53 milhões, oito milhões a mais do que no período de 2004 a 2006 (13% de alta), voltando ao nível dos anos 90.
Um dos pontos que sempre são lembrados quando se fala de combate à fome são os US$ 125 bilhões em subsídios dados aos fazendeiros dos países ricos. Para se ter uma idéia da disparidade, EUA e Europa contribuem com apenas US$ 5,9 bilhões por ano para ajudar a agricultura no mundo.
Apesar de tudo, o Brasil sabe há muito tempo como se pode diminuir a fome e ainda melhorar a educação: “Em 1975, a nutróloga e pediatra brasileira Clara Terko Takaki Brandão introduziu a ‘multimistura’ na dieta de 13 jardins de infância de Santarém, no Pará, e observou como as crianças desnutridas ganhavam peso, se alfabetizavam e se tornavam adultos ingressando na faculdade. Naquela época, preocupada pela seca que multiplicava as filas de desnutridos em Santarém, Clara decidiu pesquisar os costumes da culinária local e fundou a Sociedade de Estudos e Aproveitamento da Amazônia. Com apoio de outras entidades, montou os jardins de infância, para os quais elaborou uma dieta variada e própria, enriquecida com a multimistura” (site Terramérica, 10/8/09).
“Essa mistura de farelo de cereais e pó de sementes, vegetais e cascas de ovo, é parte do princípio de que a qualidade está ligada à variedade e não apenas à presença de carne, frango ou peixe, explicou a nutricionista”, nascida há 67 anos no Estado de São Paulo e descendente de imigrantes japoneses. O plano dela contra a desnutrição lhe valeu prêmios e já chegou a todos os Estados brasileiros e a mais de 15 países.
Ela conta que começou “a trabalhar em segurança alimentar com agentes de saúde indígenas no Mato Grosso. Quando se trata deste assunto, é interessante incluir a questão da soberania alimentar, que é o direito que cada povo tem de usar seus alimentos tradicionais em programas de políticas públicas. Ali comecei o trabalho com as estações do ano. Por exemplo, no Rio Grande do Sul há praticamente as quatro estações. Então podemos usar todos os alimentos que existem nessa região em cada temporada, resgatando a cultura local, as plantas medicinais, as preparações típicas e analisando as doenças próprias de cada clima. No inverno, a quantidade de cítricos do Brasil é imensa, e são ricos em vitaminas e minerais. E quais doenças ocorrem nessa época do ano? Sobretudo as respiratórias. Então, precisamos de grande quantidade de vitaminas e minerais, que estão disponíveis nos produtos da época. Assim fica mais fácil trabalhar a segurança alimentar: você comprova que o uso de alimentos próprios da estação e da região, além de gerar menos resíduos químicos, é mais barato, pois existem em abundância e respondem à necessidade biológica de promover a saúde nesse período do ano”.
P.S. A coluna está completando oito anos. Obrigado pela atenção, o maior incentivo para nosso trabalho.
* Com Lucila Cano.
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Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social.
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