Ontem, acordei com uma barulheira danada. Gritos de “pega-ladrão! Pisa! Mata!”… Fiquei assustado. Corri para a varanda e havia, lá embaixo, cerca de 20 pessoas a perseguir um rapaz franzino, por entre as amendoeiras da minha rua. O desafortunado adentrou o terreno vazio e foi apanhado pela turba.
Busquei o telefone e na pressa quase não lembrei o número 190. Por fim, liguei e invoquei o socorro da polícia.
Voltei à varanda. O jovem não parava de apanhar. Uns batiam com skate, outros davam socos, pontapés, até pedaços de paus e pedras foram usados contra o infeliz. O sangue corria enquanto a fúria dos assassinos aumentava.
Como a polícia demorava, considerei necessário chamar mais uma vez. Quando liguei novamente, a policial respondeu-me: “Senhor, não posso fazer mais nada! Já mandei a viatura. Não vai demorar!”
Na rua, o pessoal da CEAL – Companhia Energética de Alagoas, que havia desligado a energia para manutenção preventiva, deixando-me sem elevador, ignorava o sofrimento do rapaz. Pensei em descer correndo, mas achei que não iria dar tempo. Meu coração aos pulos e uma ânsia de vômito veio logo. Agüentei firme e comecei a gritar: Socorro! Parem com isso! Por favor, acudam!…
No auge do massacre surgiram dois homens robustos e intervieram, afastando os linchadores. Eram provavelmente encarregados da segurança de uma pousada próxima dali. Eles levantaram o jovem, quase desfalecido e o conduziram até debaixo de uma árvore na rua vizinha. Quando os agressores cercaram novamente o fugitivo, informaram talvez que o suspeito havia furtado algo deles, fato que provocou o repentino afastamento dos salvadores. Recrudesceram, então, as agressões. Agora estavam mais longe do meu prédio, embora eu ainda pudesse vê-los.
Foram alguns minutos sem fim. O rapaz, em dado momento, conseguiu escapar e disparou rua afora com o que ainda lhe restava de força, porém ao cabo de alguns metros foi alcançado por um atacante mais ágil. Contudo, naquele novo local, alguém de um prédio pediu clemência e os agressores amenizaram as pancadas. Possivelmente, a pessoa que apareceu em socorro do desvalido tenha ponderado de forma convincente, pois as hostilidades cessaram de imediato.
Pensei que aquilo fora providencial; atrasaria o linchamento, até a polícia chegar. Ledo engano. O grupo, que àquela altura era mais numeroso, logo arrastou o desgraçado rua abaixo. Havia, entre os valentões, vendedores de água que passavam por ali de bicicleta, fazendo gestos, exigindo mais hostilidade; entregadores de pizzas e de gás; outros transeuntes afoitos e até estudantes de colégios próximos que, também incentivavam a chacina.
Cá em cima, não dava para eu gritar de novo, porque àquela distância ninguém iria ouvir. Interiormente, recriminei a polícia pelo atraso. Por que os policiais em Maceió nunca compareciam na hora da necessidade? Por onde andariam as viaturas policiais naquele momento? Normalmente, havia muitas delas a circular nas imediações, menos naquele dia. Haja demora e a angústia a me consumir…
Enquanto isso, o grupo hostil não parava de crescer e as palavras de ordem estimulavam justiça com as próprias mãos. Meu pensamento voou de encontro aos grandes furtos do nosso Estado, em que se envolveram deputados estaduais num alcance de 300 milhões de reais dos cofres da Assembléia Legislativa. Não vi ninguém gritar em público, exigindo a cabeça de parlamentar nenhum. Agora estava ali, aquela gente toda diante de um pobre coitado – vítima por certo dessa mesma sociedade que não lhe dá absolutamente nada e ao contrário fecha o seu caminho, negando-lhe talvez, oportunidade de ocupar um posto de trabalho honesto – com o intuito de tirar sua vida.
Os minutos corriam depressa no meu imo. Avistei o rapaz que sangrava copiosamente. Cadê a polícia? Por que tanta demora? Nos países desenvolvidos, uma ocorrência desse tipo receberia a atenção imediata de uma viatura próxima, visto que elas se dirigem logo conforme a proximidade do local do evento em que se encontrarem. Em Maceió, no entanto, a coisa não funciona assim. Onde estará a polícia, agora? Por que não vem logo? Pensei.
Eu pretendera ligar de novo para o 190, mas a atendente havia me advertido de que a conversa estava sendo gravada e que eu poderia ser enquadrado por desacato à autoridade ou perturbação da ordem. Contive-me.
Os arruaceiros agora conduziam de volta o “saco de pancadas” na direção da praia. Pelos gestos, estavam torturando-o psicologicamente, contudo conservando-o vivo com o propósito de levá-lo, quiçá para o ermo, onde poderiam massacrá-lo até a morte, sem que houvesse alguém piedoso para interferir. Meu sangue ferveu e peguei o telefone. A policial que atendeu disse irada: “O Senhor de novo?”… Respondi: – Sim, sou eu para pedir que mande também o rabecão!
Finalmente, a polícia apareceu, tomou o azarado das mãos dos linchadores, jogou-o na viatura e foi embora.
Espero que ele não tenha morrido.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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