
Janusz Korczak nasceu em Varsóvia, capital da Polônia, em 1878 ou 1879. Pode não ter sido o primeiro a se preocupar com as crianças, mas sem dúvida foi dos mais importantes, como nos mostra Viviane Nogueira de Azevedo Guerra (Violência de Pais Contra Filhos: a Tragédia Revisitada, Cortez, 2008). Por viver numa família burguesa, Korczak se sentia num “aquário de luxo”, mas tinha muito interesse nos meninos de rua, com os quais não podia brincar porque “eram pobres e consequentemente doentes”. “Se da janela os vejo brincar, como podem estar doentes?”, se interrogava. Problemas financeiros e a morte do pai quando Korczak tinha 17 anos levaram a família a morar num lugar mais modesto. Korczak começou a dar aulas particulares para pagar os estudos, frequentando casas burguesas e, ao mesmo tempo, mantendo contato com jovens pobres do bairro. Ingressou na Faculdade de Medicina e passou a integrar uma sociedade secreta com fins patrióticos, que organizou uma biblioteca pública gratuita para moradores de um bairro humilde. Isso lhe rendeu 13 semanas de detenção “por incitar as pessoas contra o czar pelo acesso à leitura”. Preso, Korczak conheceu um acusado de atentar contra a vida do governador russo na Polônia e depois deportado para a Sibéria, que o introduziu nas ideias marxistas e com quem teve longas discussões a respeito de Marx e Engels.
Contratado por um jornal, começou a escrever a respeito das crianças de classes populares, texto que mais tarde fez parte do romance “L’enfant de la rue” (a criança da rua). Optou pela pediatria e foi a Berlim aperfeiçoar os estudos. Na volta, foi trabalhar num hospital e continuou a publicar artigos nos quais falava das opressões às quais as crianças, independentemente da classe social, eram submetidas em casa e na escola. Por isso ganhou fama de anarquista, ao mesmo tempo em que lançou “L’enfant de salon” (a criança de salão), que fala das crianças burguesas. Mais do que um teórico, Korczak colocou em prática ideias revolucionárias, como organizar colônias de férias para crianças menos favorecidas e encontros de convivência para crianças de diferentes classes sociais. Com a guerra russo-japonesa, em 1904 foi para as fronteiras da Manchúria, tendo a oportunidade de observar a infância em outros países. Ao retornar, instalou um consultório que lhe deu fama e continuou trabalhando junto às crianças pobres e escrevendo, o que lhe custou acusações de conspirar contra os russos.
Em 1909 fez estágios na França, Inglaterra e Suíça. Em 1911 fundou a Casa do Órfão para judeus, provavelmente a primeira da Europa especialmente feita para cerca de 200 crianças sem família. Korczak fechou então seu consultório e foi morar na Casa do Órfão, ali introduzindo inovações pedagógicas como um tribunal através do qual as crianças aprendiam justiça, respeito ao outro, responsabilidade, regras da vida coletiva, e criou um jornal redigido pelas crianças. Através de várias experiências, tentou instalar uma república infantil. Convocado por causa de uma nova guerra, ficou no fronte até 1918, tendo ali escrito “Como amar uma criança”. Em 1919 tornou-se professor do Instituto Pedagógico Especial, ligado à Universidade de Varsóvia, e passou a dirigir também um refúgio para crianças órfãs operárias. Em 1926 fundou “La Petite Revue” (a pequena revista), totalmente redigida por crianças para as quais ele exigiu salários. A revista recebia de 8 a 10 mil cartas por mês de toda a Europa. Por causa da ameaça nazista, a Casa do Órfão foi transferida para os limites do gueto. Mesmo doente, ele seguiu trabalhando e, indignado, se recusou a fugir quando lhe trouxeram papéis falsos, porque queria continuar junto das crianças. Mas acabou, junto com a fiel auxiliar Madame Stefa e seus 200 órfãos, pego pelos nazistas, sendo todos conduzidos por trem a Treblinka e à câmara de gás, em 1942. Felizmente o trabalho de Korczak permaneceu e estudos aprofundaram aspectos revolucionários da visão que ele tinha das crianças. * Com Lucila Cano. ———- Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social. Este artigo somente poderá ser reproduzido ou publicado com autorização prévia do autor.
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