Quando José Melo Souza, o Juquinha, foi contratado pelo Instituto Nacional de Estatística para trabalhar como recenseador, no município de Coruripe, ano de 1936, a barra era pesada e qualquer um que não tivesse peito dificilmente aceitaria o emprego.
Afora os rapazes que fugiram mata à dentro para não serem recenseados, havia também, cabra macho que enfrentava, o agenciador do governo, armado de foice e espingarda soca-tempero. Nesse caso, Juquinha partia para o diálogo, mas sem baixar a guarda nem a altivez, porque se o caboclo notasse fraqueza, não tinha mais conversa. Primeiro informava o seu próprio nome, que era falado na região. Mesmo não sendo conhecido daquela pessoa, ao menos o pré-nome proferido junto ao nome – Juquinha Souza – lembrava alguém da terra, alguma familiaridade… No fim, o trabalho era feito e ficava mais um amigo de portas abertas.
Certa vez, no início da semana, Juquinha saíra de casa para comprar uma garaçuma1 na Ribeira, logo cedo quando os homens encostavam as canoas de volta da pesca. Ele pensara em levar o peixe para ser preparado por exímia cozinheira, Dona Cícera, sua comadre do povoado Açú, que ficava no caminho do trabalho, três horas a cavalo, desde a cidade de Coruripe. Apreciador de uma boa peixada, Juquinha não esquecera os ingredientes: além do peixe, dois côcos, um pacote de farinha-de-mandioca e uma garrafa de aguardente de cana, que viajaram no alforje da montaria.
Por volta das 10 horas chegara à casa da comadre Cícera e do compadre João Crioulo, aos quais entregara os alimentos do almoço. Dali, a uma hora, a refeição estaria pronta e após o almoço, ele seguiria viagem. Nesse ínterim, contudo haveriam de prosear bastante sob os auspícios da boa azuladinha, a pinga que ele trouxera de Coruripe.
Pois bem. Depois de umas duas lapadas de cachaça e animada conversa na sala de estar, com direito a aragem que as portas abertas permitiam, no lugar privilegiado, a visita dava para ver o movimento da cozinha.
A comadre Cícera já havia tratado o peixe e estava a espremer, com as mãos, o côco raspado, quando de repente, desemboca cozinha à dentro, em disparada, o afilhado de Juquinha, nu e com uma lombriga pendurada entre as nádegas, pedindo que a mãe retirasse o verme. A mulher, rapidamente com a mão nua, arrancou o parasita e atirou-o porta afora. Depois, procurou algo para limpar-se e não encontrando, esfregou os dedos na barra da saia e voltou a espremer o côco.
Juquinha, de onde se encontrava presenciara tudo. Dissimuladamente, fizera de contas nada ter visto. Passados alguns minutos, desculpou-se com os compadres, por não almoçar e alegando ter esquecido uma obrigação inadiável, montou a cavalo e foi-se embora.
Àquela altura, o dia estava perdido. Voltou a Coruripe a fim de almoçar e deixou o trabalho para outra ocasião.
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1 Garaçuma – peixe do mar que pode ser apanhado na foz do rio. É saboroso se bem preparado, especialmente, com leite de côco e sob a forma de peixada.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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