19 de maio de 2010 18:07 

Ideias simples para um futuro melhor

Ana Carolina Amaral (Envolverde), para o Instituto Ethos

Pode ser um grande insight criativo, como canalizar a iluminação solar por um tubo de paredes reflexivas que levam a mesma intensidade de luz – ou 99,7% dela – para ambientes internos. Pode ser um banco de DNA que reconecta crianças desaparecidas às suas famílias, dando-lhes o “Caminho de Volta”. Ideias que criam laços entre o que existe e o que precisa existir compunham a 3ª edição da Mostra de Tecnologias Sustentáveis, que ocorreu paralelamente à Conferência Internacional Ethos 2010.

Também pode ser algo bem mais simples: ideias que, em vez de criar, refazem laços, fechando um ciclo onde a atividade humana esqueceu de “dar o nó”, ou seja, dar a destinação que traria benefícios para toda a cadeia. É o que vimos nos projetos expostos nos estandes em que o lixo vira energia, a terra retirada de rios assoreados se transforma em pavimento e os resíduos orgânicos da alimentação passam a existir como adubo por meio da composteira.

“Lixo é a palavra que inventamos para nomear o que não soubemos aproveitar”, afirma, sorrindo, Flávio Mourão Passos. O sorriso tem sua razão de ser: é a satisfação por ter encontrado mais um bom caminho sustentável, já que é o idealizador e agora comercializa um pavimento ecológico produzido a partir dos resíduos retirados dos leitos dos rios em desassoreamento.

O formato dos blocos da cobertura rígida permite um encaixe entre todos os lados das peças e, como num quebra-cabeças, não requer rejunte. Isso, por sua vez, permite uma maior penetração da água das chuvas, tornando o solo mais permeável. A desoneração do ciclo da água do início ao fim, para Passos, “não é uma idéia genial. Pelo contrário, é uma coisa muito simples”.

A moda na trilha da sustentabilidade

Entre os estandes da 3ª. Mostra de Tecnologias Sustentáveis, uma expositora de roupas para pessoas portadoras de necessidades especiais dá uma pequeno exemplo daquilo em que a moda pode se transformar. A coleção de Leny Pereira, professora de moda do Senai na cidade de Cianorte (PR), se apropria de sobras de tecidos para produzir numa escala maior modelos mais confortáveis para pessoas com deficiência, em que os recortes são em maior número, possibilitando maior comodidade no ato de vestir desse público. Para Leny, “a sustentabilidade impõe à moda não só novos desafios, mas também um novo papel”.

Além do desafio comum às indústrias de bens de consumo na busca por materiais e processos menos impactantes para o meio ambiente, a moda precisa se voltar para sua função essencial e parar de ser apenas a renovação dos guarda-roupas a cada estação, diz a criadora. Hoje as pessoas vestem conceitos que não são seus e que parecem adequados por pouco tempo, critica Leny. “É como se trocassem de personalidade a cada seis meses”, constata. Quando se considera mais o gosto pessoal na composição de um estilo, aumenta-se a vida útil do produto: mais autêntico, ele não é trocado tão facilmente.

Leny Pereira acredita que mudar o papel de “criadora de tendências” para “criadora de estilos” significa diminuir o ritmo de produção e acalmar o consumo. Apesar de parecer algo longe do real e de interesses conflitantes, essa mudança pode simplesmente corresponder à lógica já vigente no mercado da moda: estar o mais próximo possível da identidade do consumidor.

“A grande maioria das pessoas só leva em consideração o preço, seja por economia, seja por status. Felizmente, já existe uma fatia do mercado que tem a preocupação ambiental.” Com essa análise, Leny aposta que as decisões de consumo mais conscientes, que envolvem menor impacto ambiental e social, devem provocar mudanças definitivas na indústria da moda. Ela cita o exemplo da cidade onde atua: na paranaense Cianorte, considerada a capital do vestuário, existem mais de 500 confecções. E estas exigem garantias mínimas dos fornecedores. Um exemplo são as lavanderias de jeans, das quais se requer tratamento de água e cuidados com a saúde dos trabalhadores.

A adoção cada vez maior das roupas funcionais é um dos grandes caminhos para a moda, acredita a estilista. “Como ficamos cada vez mais tempo fora de casa, as roupas funcionais se tornam práticas e econômicas.” E, afinal, o que são roupas funcionais? São aquelas que se multiplicam: vestidos que viram blusas, bermudas que viram calças e o que mais a imaginação permitir.

“Há muito trabalho pela frente para os profissionais do setor, que vão precisar de mais criatividade do que nunca”, conclui Leny, garantindo que as montanhas de coleções em liquidações baratíssimas devem começar a ser substituídas por confecções mais resistentes ao tempo e às lavagens. Mas não basta que a roupa resista às estações: seu dono também precisa passar longe das vitrines, queimas de estoque e outras armadilhas. Afinal, quando o consumidor faz a sustentabilidade virar moda, a moda também se rende aos princípios que garantem sua perenidade.



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