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15 de janeiro de 2010 18:11 

Há 90 anos, jornal denunciava desmatamento e matança de animais

DA REDAÇÃO

    “A natureza extremamente generosa, assegura-nos, em quasi todas as regiões da terra, enormes recursos. Seria uma medida de prudencia muito digna conservar os legados preciosissimos; velar pela sua reproducção normal, para mantel-os, pelo menos, no mesmo grao de prosperidade. Desgraçadamente não nos contentamos com o desfructar das fontes naturaes de riquezas immensas; a nossa incuria, a nossa deploravel falta de comprehensão de certas circumstancias especiaes permitte destruirmos estupidamente incomparaveis elementos de fortuna”, denunciava o Jornal de Alagoas, há quase 90 anos.
Na edição de domingo, 29 de fevereiro de 1920, enviada a amarnatureza.org.br pelo colunista José Luiz Malta Argolo, o jornal de Maceió denunciava a destruição de florestas no Brasil, a matança de búfalos nos Estados Unidos, as caçadas de elefantes na África e o extermínio de castores, martas, raposas azuis e outros animais das regiões árticas para extração de peles.
O jornal destacava que apenas nos EUA providências eram tomadas para a proteção de búfalos em parques nacionais.
O jornal destacava que, no Brasil, nenhuma providência era tomada para deter o desmatamento. “O sertanejo ignorante e o proprietario ambicioso vão destruindo desordenadamente as mattas preciosas, tão necessarias para a riqueza da terra”, concluía o jornal alagoano.
O então diretor do Jornal de Alagoas, Luiz Silveira, e o secretário de redação F.M. Silveira certamente não imaginavam que o editorial se manteria atual no século 21.
A seguir, o texto do editorial, com a grafia da época:
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Notulas

Quando Julio Verne escreveu A volta do mundo em oitenta dias ainda milhões de bufalos povoavam as immensas savanas da America do Norte, a ponto de grandes manadas, por vezes, obstruirem a linha de ferro de S. Francisco a Nova Yorke. Hoje daquela multidão incalculavel de animais corpulentos não restam mais que pequenos rebanhos fugidios entre o ataque systematico do homem.
A natureza extremamente generosa, assegura-nos, em quasi todas as regiões da terra, enormes recursos. Seria uma medida de prudencia muito digna conservar os legados preciosissimos; velar pela sua reproducção normal, para mantel-os, pelo menos, no mesmo grao de prosperidade. Desgraçadamente não nos contentamos com o desfructar das fontes naturaes de riquezas immensas; a nossa incuria, a nossa deploravel falta de comprehensão de certas circumstancias especiaes permitte destruirmos estupidamente incomparaveis elementos de fortuna.
O homem insaciavel vae desolando os confins mais reconditos da terra. Na trilha dos Stanley seguem os caçadores. Na Africa austral as investidas contra os elephantes são organisadas com o cuidado de uma campanha. Pouco ha, uma grande partida foi realisada com successo retumbante. Poucas vezes em tão pouco tempo se realisou uma obra de morte assim completa.
Um dos caçadores, por sua parte, matou 33 pachydermes, e estabeleceu um record extraordinario abatendo vinte elephantes em uma hora. Nesta jornada sangrenta 81 desses animaes cahiram sob as balas dos seus perseguidores.
Entretanto o elephante é um animal susceptivel de educação, podendo mesmo prestar grandes serviços ao homem.
Não somente o elephante e o bufalo estão desapparecendo; os castores, martas, raposas azues e outros animaes que têm o seu habitat nas regiões articas, pelo facto de possuirem pelles apreciaveis são objectos de uma caçada constante. Cada anno, é preciso ir mais longe para alcançar a presa desejada; e assim, dentro em pouco, o polo será o logar da ultima hecatombe.
Entre nós, o systema de destruição é o mesmo; o homem depois de despovoar as florestas, toma a ancia de destruir as proprias arvores. E a campanha prosegue sem treguas; em poucos dias paragens formosissimas, com perspectivas encantadoras, são transformadas em regiões desnudas, e o solo calcinado na maioria dos casos, fica improprio, dentro de poucos annos, para qualquer cultura. É o inicio das caatingas que cada dia augmentam a sua area nos sertões brasileiros.

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Homens previdentes têm proposto medidas salvadoras, com o acautelar a destruição completa dos thesouros na natureza. O congresso americano já consignou varios creditos para a conservação dos ultimos rebanhos dos bois selvagens, e foram construidos grandes parques onde estes animaes se possam multiplicar.
Em nosso paiz principalmente do Piauhy á Bahia, a questão vital é a conservação das mattas. A fatalidade de nos acharmos numa zona de terra, onde, por circumstancias diversos, é para receiar frequentes periodos de secca, obriga-nos a ser menos desprevenidos.
Desde os tempos coloniaes, os responsaveis pelos nossos destinos têm tentado impedir a destruição systematica das florestas brasileiras. Mas desgraçadamente ainda nenhuma medida foi rigorospmente posta em pratica. O sertanejo ignorante e o proprietario ambicioso vão destruindo desordenadamente as mattas preciosas, tão necessarias para a riqueza da terra.



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