A propriedade montanhosa era banhada por um riacho que no tempo de chuvas crescia e dava medo.
Havia uma casa no meio da encosta de onde se podia olhar a paisagem. Às vezes, da beira d’água, vinha perfume dos lírios, que o cair da noite fazia desabrochar no verão e quando os outros sons diminuíam, dava para ouvir o barulho da cachoeirinha, lá embaixo.
Na margem do riacho tinha um cajueiro enorme deitado sobre o lajedo. Na safra, o chão ficava amarelo e debaixo, no remanso do rio, boiavam cajus para regalo dos peixes.
Era fácil trepar no cajueiro, pelo tronco esparramado ao chão e subir rapidamente, até a fronde ampla e pouco elevada que oferecia sombra e mantinha fresco o ambiente.
Naquele espaço havia um capãozinho de mata pendurado no barranco e um pé de ingazeira encravado nas pedras, dentro do rio. Na outra margem, uma gameleira centenária olhava presunçosa o resto da vegetação, enquanto jasmins palustres, de cor branca e perfume agradável, debruçados na margem, molhavam as pétalas ao balanço do vento.
O garoto gostava de brincar sozinho ali, sem roupas, com bois e vacas de baronesa, entremeando mergulhos na água, conforme fosse o calor.
Quando lhe convinha, corria a espantar os passarinhos e apreciar os animais de criação a pastarem no campo. Divertia-se subindo e descendo de cajueiros, pitombeiras, goiabeiras, mangueiras, jenipapeiros e em outras fruteiras mais baixas, colhendo e degustando frutas.
À noite, na varanda da casa, quedava-se tranqüilo entre os irmãos, a ouvir das pessoas mais velhas, histórias de trancoso ou os projetos de cada um para o dia seguinte.
No inverno, ficava a olhar a chuva que caía barulhenta no telhado, descendo pela biqueira e drenando para o rio. Os animais, no pasto, recebiam paciente a umidade, ao passo que as aves fugiam em busca de abrigo.
A terra, nas primeiras precipitações, exalava um odor de chão seco invadido pela água.
Dava gosto ver o rio encher e precipitar-se encosta acima. Depois, quando a chuva parava, as águas iam baixando e a correnteza abrandava era o momento em que se podia pescar sem medo. Algum dos meninos saía de vara na mão em busca de jundiás.
Um dia, porém, o pai arrendou a fazenda e após vários meses, de espera, na casa de um parente, a família se mudou para outra região, menos as irmãs mais velhas que já moravam na Capital, com uma tia.
Era vida nova, mas, o menino viajara constrangido, triste. Estava inseguro na cidade onde conhecia ninguém. Fora afastado das suas coisas, do seu meio e a sua existência estava diferente, por certo, estranha e temerária.
Nas casas mal-iluminadas dos familiares, puxado pela mão da mãe, ele fora apresentado a uns e a outros. O garoto estava desambientado, no meio dos novos parentes, de muitas pessoas idosas e até então desconhecidas, algumas afáveis, outras com ar de severidade e nenhuma graça, que olhavam inexpressivas, para ele. Umas punham a mão de leve em sua cabeça ou no ombro e inquiriam: -“É o mais novo?”… Outras perguntavam, com indiferença: -“ Já está na escola?”…
Dia seguinte, a avó com voz austera, disse-lhe, franca: “Aqui, é diferente. Não é como a fazenda. Tem regras e você não pode andar por aí solto, não! De noite não sai de casa, só se for com os seus irmãos, entendeu?”
Fora morar em uma casa enorme e velha, com poucas lâmpadas, para iluminá-la toda, além do agravante da sujeição aos ditames da Companhia Força e Luz, que só liberava energia ao escurecer e desligava-a, impreterivelmente, às 22 horas, embora estivesse sempre a faltar, por algum defeito.
As regras da avó logo entraram a valer. Era o começo do calvário.
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