VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

27 de agosto de 2010 9:20 

Fogo no mato

O escritor Monteiro Lobato, em seu romance “Urupês”, expôs toda a sua indignação com os incêndios criminosos que devoravam as matas de sua fazenda, situada na Serra da Mantiqueira/MG, nos idos de 1914.

É dele os fragmentos que reproduzo nesta coluna, por atuais que são: “…Foi assim o caso. Em 1914, nos primeiros meses da guerra, o autor não passava de humilde lavrador, incrustado na Serra da Mantiqueira. Terrível ano de seca foi aquele! O fogo lavrou durante dois meses a fio, com fúria infernal. O céu toldado, o ar espesso, o crepitar permanente das matas em chama, a fumarada invadindo a casa, os olhos a arderem… Um fim de mundo. E sempre notícias más, a toda hora. – Rebentou outro fogo no varjão! Vinha dizer um agregado… Mal se ia aquele, vinha outro: – Patrão, o Trabiju está queimando! -Então, já seis? – É verdade. Há o fogo do Teixeirinha, o fogo do Maneta, o fogo do Jeca… –Fogos “Signés”!… Que patifes! Mas, hão de pagar. Denuncio-os todos à polícia. O capataz sorriu. –Não vale a pena. São eleitores do governo; o patrão não arranja nada. – Mas, não haverá ao menos um incendiário oposicionista que possa pagar o pato? – Não vê! Caboclo é ali firme no governo justamente p’r’amor do fogo. Tinha razão o homem. Eram todos do governo. E o eleitor da roça, em paga da fidelidade partidária, goza-se do direito de queimar o mato alheio”…

No tempo do lavrador Monteiro Lobato, as terras brasileiras ocupadas pelas matas eram cerca de setenta por cento do nosso território, enquanto o número de “caboclos” incendiários estava por volta de cinco vezes menor. O motivo do fogo, Lobato debitava à má índole e à preguiça de que era portador o “famigerado caboclo”, além da complacência e cumplicidade do governo.

No dias atuais, aos “caboclos” incendiários somam-se fazendeiros gananciosos e políticos sem escrúpulos, estes que ficam nos bastidores a estimular as queimadas a fim de burlar as leis ambientais, com o propósito de expandir as fronteiras agrícolas.

Essa maneira insidiosa de solapar os bens da natureza contava e permanece contando com a complacência do governo. É uma vergonha nacional que a administração Luís Inácio Lula da Silva carrega nas costas, porque não há cabimento que situação vexatória desse tipo continue a existir em plena era tecnológica. O que resta patente nesse caso é o desinteresse do governo em combater veementemente, os incêndios criminosos que devoram as nossas matas; por certo, se houvesse empenho governamental, essa praga já teria sido erradicada de nosso País, há muito tempo. Para isso, bastariam alguns puxões de orelhas nos infratores a fim de que as coisas voltassem aos seus devidos lugares. Porém, assim não se dá.

Enquanto isso, sem o aceiro dos cursos d’água, que se afiguram visivelmente debilitados, além da ausência das “grotas noruegas”, devastadas para incremento das pastagens ou mesmo cultivo de lavouras, o fogo no mato está cada vez mais aceso. Agora, o satélite registra número superior a 20 mil focos de incêndio que estão a transformar nossas paisagens em cinzeiro.

Ontem, como hoje, os incendiários têm a cumplicidade oficial, que pagam com o voto. Uma troca justa, não acham?

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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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