O escritor Monteiro Lobato, em seu romance “Urupês”, expôs toda a sua indignação com os incêndios criminosos que devoravam as matas de sua fazenda, situada na Serra da Mantiqueira/MG, nos idos de 1914.
É dele os fragmentos que reproduzo nesta coluna, por atuais que são: “…Foi assim o caso. Em 1914, nos primeiros meses da guerra, o autor não passava de humilde lavrador, incrustado na Serra da Mantiqueira. Terrível ano de seca foi aquele! O fogo lavrou durante dois meses a fio, com fúria infernal. O céu toldado, o ar espesso, o crepitar permanente das matas em chama, a fumarada invadindo a casa, os olhos a arderem… Um fim de mundo. E sempre notícias más, a toda hora. – Rebentou outro fogo no varjão! Vinha dizer um agregado… Mal se ia aquele, vinha outro: – Patrão, o Trabiju está queimando! -Então, já seis? – É verdade. Há o fogo do Teixeirinha, o fogo do Maneta, o fogo do Jeca… –Fogos “Signés”!… Que patifes! Mas, hão de pagar. Denuncio-os todos à polícia. O capataz sorriu. –Não vale a pena. São eleitores do governo; o patrão não arranja nada. – Mas, não haverá ao menos um incendiário oposicionista que possa pagar o pato? – Não vê! Caboclo é ali firme no governo justamente p’r’amor do fogo. Tinha razão o homem. Eram todos do governo. E o eleitor da roça, em paga da fidelidade partidária, goza-se do direito de queimar o mato alheio”…
No tempo do lavrador Monteiro Lobato, as terras brasileiras ocupadas pelas matas eram cerca de setenta por cento do nosso território, enquanto o número de “caboclos” incendiários estava por volta de cinco vezes menor. O motivo do fogo, Lobato debitava à má índole e à preguiça de que era portador o “famigerado caboclo”, além da complacência e cumplicidade do governo.
No dias atuais, aos “caboclos” incendiários somam-se fazendeiros gananciosos e políticos sem escrúpulos, estes que ficam nos bastidores a estimular as queimadas a fim de burlar as leis ambientais, com o propósito de expandir as fronteiras agrícolas.
Essa maneira insidiosa de solapar os bens da natureza contava e permanece contando com a complacência do governo. É uma vergonha nacional que a administração Luís Inácio Lula da Silva carrega nas costas, porque não há cabimento que situação vexatória desse tipo continue a existir em plena era tecnológica. O que resta patente nesse caso é o desinteresse do governo em combater veementemente, os incêndios criminosos que devoram as nossas matas; por certo, se houvesse empenho governamental, essa praga já teria sido erradicada de nosso País, há muito tempo. Para isso, bastariam alguns puxões de orelhas nos infratores a fim de que as coisas voltassem aos seus devidos lugares. Porém, assim não se dá.
Enquanto isso, sem o aceiro dos cursos d’água, que se afiguram visivelmente debilitados, além da ausência das “grotas noruegas”, devastadas para incremento das pastagens ou mesmo cultivo de lavouras, o fogo no mato está cada vez mais aceso. Agora, o satélite registra número superior a 20 mil focos de incêndio que estão a transformar nossas paisagens em cinzeiro.
Ontem, como hoje, os incendiários têm a cumplicidade oficial, que pagam com o voto. Uma troca justa, não acham?
———-
José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
Matérias relacionadas:
13 de dezembro de 2010
4 de dezembro de 2010
28 de novembro de 2010
22 de novembro de 2010
15 de novembro de 2010
7 de novembro de 2010
4 de novembro de 2010
28 de outubro de 2010
21 de outubro de 2010
14 de outubro de 2010
7 de outubro de 2010
1 de outubro de 2010
27 de setembro de 2010
22 de setembro de 2010
16 de setembro de 2010
8 de setembro de 2010
2 de setembro de 2010
27 de agosto de 2010
22 de agosto de 2010
15 de agosto de 2010
10 de agosto de 2010
28 de julho de 2010
26 de julho de 2010
22 de julho de 2010
17 de julho de 2010
11 de julho de 2010
4 de julho de 2010
29 de junho de 2010
23 de junho de 2010
20 de junho de 2010
14 de junho de 2010
8 de junho de 2010
4 de junho de 2010
31 de maio de 2010
28 de maio de 2010
21 de maio de 2010
15 de maio de 2010
10 de maio de 2010
4 de maio de 2010
30 de abril de 2010
25 de abril de 2010
20 de abril de 2010
16 de abril de 2010
12 de abril de 2010
5 de abril de 2010
2 de abril de 2010
26 de março de 2010
21 de março de 2010
15 de março de 2010