Doar alimentos não perecíveis para assistir a um show ou a um espetáculo teatral é ação que já se incorporou à rotina das grandes cidades. No afã de fazer alguma coisa – qualquer coisa – para ajudar os mais necessitados, artistas e cidadãos comuns se unem em torno de uma causa que não tira pedaço de ninguém.
Os artistas entram com o talento e algumas horas de trabalho não remunerado. Em troca, recebem o aplauso de platéias ampliadas e somam dupla satisfação: realizar um ato de solidariedade e conquistar um público sempre renovado. O cidadão comum entra com a doação, de valor reduzido – geralmente um ou dois quilos de alimento – e também é duplamente recompensado: ajuda quem precisa e garante acesso à cultura que, na maioria das vezes, lhe foi negado por absoluta falta de dinheiro para pagar um ingresso.
Hoje, em São Paulo, ocorre fato curioso. Não sei se a novidade é comum a outras capitais – e digo capitais, porque o fenômeno me parece essencialmente urbano -, mas há dias venho me deparando com anúncios do que passei a chamar de “imóvel solidário”.
A indústria automobilística saiu na frente dos demais segmentos, oferecendo mimos diferenciados para quem adquirisse um carro. Isso, antes do período de bondade decorrente da suspensão do IPI. As tentações eram variadas. Lembro daquela do televisor de n polegadas (recentemente resgatada por uma marca japonesa) e da passagem para Paris (obviamente associada a uma montadora francesa).
Sempre achei esses apelos desnecessários. Afinal, o comprador quer um carro ou um televisor, ou uma passagem para Paris? Mas, quem sou eu para questionar as iscas mercadológicas?
Com a explosão do mercado imobiliário, logo as ideias criativas foram importadas daqui e dali. Quem estiver de geladeira vazia e tiver disposição para circular pela cidade, pode fazer um tour gastronômico pelos plantões de venda dos empreendimentos recém-lançados. Está certo que sempre haverá uma contrapartida. O gourmet em questão deverá ter a paciência necessária para enfrentar o trânsito, ainda mais caótico com a proximidade do final do ano, e a insistência característica dos corretores de imóveis. Mas a recompensa virá na forma de delícias mil. Há quem sirva feijoada, comidinha de boteco, quitutes do restaurante não sei das quantas e por aí afora.
A oferta é tamanha que uma construtora se aventurou a trilhar caminho inverso e anunciar em páginas e páginas sequenciais que não propõe nada a não ser a qualidade do empreendimento que assina. Espero que ela tenha boa sorte.
De repente, algo de novo na propaganda imobiliária. Um empreendimento em São Caetano, cidade próxima de São Paulo e reconhecida por apresentar o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País, segundo critérios da ONU, propaga uma ação solidária. Diz o anúncio: “O empreendimento da sua vida também pode ajudar o próximo. Até o dia 31/12/10, comprando uma unidade, você estará ajudando com R$ 1.000,00 as instituições Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Caetano do Sul e Associação Assistencial Anália Franco”.
Viro páginas do caderno de classificados e encontro mais dois anúncios de imóveis solidários, ambos da mesma construtora, mas de lançamentos diferentes. Neles, o convite é para que o interessado no imóvel leve ao stand de vendas um brinquedo, o qual será doado à Casa Hope, entidade que presta apoio à criança com câncer.
Embora admire as iniciativas, acho que é mais fácil alguém ir ao stand doar brinquedos, independentemente do seu interesse no imóvel, do que se decidir pela compra de um apartamento por causa do dinheiro que será doado às instituições de São Caetano. De qualquer forma, imagino que quem participar dessas ações, comprando o apartamento ou doando brinquedos, terá prazer em tornar-se parte integrante de uma ação social.
Só o tempo dirá se estamos diante de um fenômeno natalino, de um modismo, ou de um novo movimento solidário. Nos seus arroubos criativos, a indústria automobilística não chegou a tanto.
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* Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.
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Lucila Cano é jornalista especializada em projetos editoriais, consultoria
empresarial e produção de textos sobre Responsabilidade Social e Ética.a coluna., criador desta coluna.
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