VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

25 de abril de 2010 15:40 

Favas contadas

 Minha vida de ativista ambiental, que já beira aos 20 anos, impõe a mim, situações das mais diversas, maioria delas desafiadoras, algumas sob o risco de sofrer agressão física ou mesmo de perder a vida. É uma coisa paradoxal: eu que sou pacífico por natureza e poderia ser enquadrado entre aqueles que têm medo até de sua própria sombra, de súbito uma energia desconhecida me faz tomar atitudes corajosas e até inconseqüentes, em prol do ecossistema.

Por causa disso, os meus familiares, principalmente, a minha esposa tem sofrido mais do que bode em passagem d’água. Fica jururu quando vou a algum evento ecológico que segundo ela é o mesmo que embarcar numa canoa furada, sobretudo em Alagoas. Pior, quando sou o protagonista desse evento, como no caso da Audiência Pública sobre a instalação do Estaleiro EISA, em Pontal de Coruripe, Estado de Alagoas – Brasil, que foi solicitada por mim, em nome da Sociedade Ambientalista Mãe Natureza – SAMAN.

 Pois bem. Sexta-feira passada (23.04.10) desloquei-me até ao município de Coruripe a fim de participar da tal audiência pública. Antes, na segunda-feira, eu conseguira um cd do EIA-RIMA, através do qual reuni as informações necessárias a fim de contrapor às alegações dos empreendedores, expondo o lado negativo da instalação do Estaleiro, na foz do Rio Coruripe e dentro de um manguezal. Não foi uma tarefa fácil. Tenho limitações de natureza física (sou idoso) e intelectual, visto tratar-se de um documento que envolve conhecimento sobre vários campos científicos. Mesmo assim, após auferir informações importantes e sintetizá-las em um discurso, segui junto com o vice-presidente da SAMAN, além do meu filho, para aquela cidade do litoral alagoano, em que chegamos de manhã e fomos ouvir pessoas representativas de alguns segmentos diretamente afetados, caso o Estaleiro venha a ser implantado, no Pontal.

Ouvimos pessoas ligadas à comunidade dos pescadores e ao segmento de hotelaria e turismo. Havia apreensão da parte delas ante a possibilidade da presença do empreendimento concretizar-se, porquanto suas chances de sobrevivência nos ramos abraçados ficariam inviáveis.

A partir da impressão obtida daquelas pessoas, consolidei meu ponto-de-vista que já estava registrado, antecipadamente, no papel.

Havia cerca de 2.000 pessoas no local, entretanto só às 15 horas foi iniciada a Audiência, com uma hora de atraso, devido à “necessidade” da presença dos políticos importantes, como sempre atrasados. Finalmente, depois de aberta a reunião e expostos os argumentos do apresentador, sobre os estudos dos impactos ambientais, onde os negativos foram amenizados e os positivos magnificados, a palavra foi franqueada; então, aguardei duas intervenções dos presentes, para depois fazer a minha.

 O meu discurso foi longo – reconheço – repleto de questionamentos e advertências, porém necessário para rebater a apologia que se fez ao projeto. Eu já esperava que parte do público tivesse sido cooptada pelo grupo político do governo local, a fim de infernizar aos adversários do empreendimento que porventura viessem a dar as caras por lá e não foram surpresa os apupos, quando minhas palavras atingiram o âmago da questão: os impactos negativos, especialmente, os irreversíveis e suas conseqüências. A coisa extrapolou o limite tolerável e fui obrigado a interromper a oratória e socorrer-me do Ministério Público. Deu certo. O Promotor advertiu que se eu não pudesse terminar minha fala, a audiência poderia ser anulada. Conclui meu discurso sem mais interrupções, porém a atmosfera não estava boa.

O fato da maioria dos moradores de Coruripe e dos municípios vizinhos – Feliz Deserto, Jequiá e Piaçabuçu – estarem vivamente interessados nos supostos 4.500 empregos diretos e 22.500 indiretos, tornou-se um apelo insuperável. A vitória do Estaleiro EISA era favas contadas, ao passo que a nossa presença ali, poderia ser “confundida” com a de um grupo inimigo, demoníaco, capaz de implantar o mal e impedir o desenvolvimento do bem.

Ao descer da tribuna, saí furtivamente e conforme houvera combinado antes, com os meus companheiros de viagem, batemos em retirada.

Afinal de contas, diz o ditado: “quem espera por tempo ruim é a mulher do sertanejo!”

Leia também: Por que construir um estaleiro em área de manguezal?

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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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