Minha vida de ativista ambiental, que já beira aos 20 anos, impõe a mim, situações das mais diversas, maioria delas desafiadoras, algumas sob o risco de sofrer agressão física ou mesmo de perder a vida. É uma coisa paradoxal: eu que sou pacífico por natureza e poderia ser enquadrado entre aqueles que têm medo até de sua própria sombra, de súbito uma energia desconhecida me faz tomar atitudes corajosas e até inconseqüentes, em prol do ecossistema.
Por causa disso, os meus familiares, principalmente, a minha esposa tem sofrido mais do que bode em passagem d’água. Fica jururu quando vou a algum evento ecológico que segundo ela é o mesmo que embarcar numa canoa furada, sobretudo em Alagoas. Pior, quando sou o protagonista desse evento, como no caso da Audiência Pública sobre a instalação do Estaleiro EISA, em Pontal de Coruripe, Estado de Alagoas – Brasil, que foi solicitada por mim, em nome da Sociedade Ambientalista Mãe Natureza – SAMAN.
Pois bem. Sexta-feira passada (23.04.10) desloquei-me até ao município de Coruripe a fim de participar da tal audiência pública. Antes, na segunda-feira, eu conseguira um cd do EIA-RIMA, através do qual reuni as informações necessárias a fim de contrapor às alegações dos empreendedores, expondo o lado negativo da instalação do Estaleiro, na foz do Rio Coruripe e dentro de um manguezal. Não foi uma tarefa fácil. Tenho limitações de natureza física (sou idoso) e intelectual, visto tratar-se de um documento que envolve conhecimento sobre vários campos científicos. Mesmo assim, após auferir informações importantes e sintetizá-las em um discurso, segui junto com o vice-presidente da SAMAN, além do meu filho, para aquela cidade do litoral alagoano, em que chegamos de manhã e fomos ouvir pessoas representativas de alguns segmentos diretamente afetados, caso o Estaleiro venha a ser implantado, no Pontal.
Ouvimos pessoas ligadas à comunidade dos pescadores e ao segmento de hotelaria e turismo. Havia apreensão da parte delas ante a possibilidade da presença do empreendimento concretizar-se, porquanto suas chances de sobrevivência nos ramos abraçados ficariam inviáveis.
A partir da impressão obtida daquelas pessoas, consolidei meu ponto-de-vista que já estava registrado, antecipadamente, no papel.
Havia cerca de 2.000 pessoas no local, entretanto só às 15 horas foi iniciada a Audiência, com uma hora de atraso, devido à “necessidade” da presença dos políticos importantes, como sempre atrasados. Finalmente, depois de aberta a reunião e expostos os argumentos do apresentador, sobre os estudos dos impactos ambientais, onde os negativos foram amenizados e os positivos magnificados, a palavra foi franqueada; então, aguardei duas intervenções dos presentes, para depois fazer a minha.
O meu discurso foi longo – reconheço – repleto de questionamentos e advertências, porém necessário para rebater a apologia que se fez ao projeto. Eu já esperava que parte do público tivesse sido cooptada pelo grupo político do governo local, a fim de infernizar aos adversários do empreendimento que porventura viessem a dar as caras por lá e não foram surpresa os apupos, quando minhas palavras atingiram o âmago da questão: os impactos negativos, especialmente, os irreversíveis e suas conseqüências. A coisa extrapolou o limite tolerável e fui obrigado a interromper a oratória e socorrer-me do Ministério Público. Deu certo. O Promotor advertiu que se eu não pudesse terminar minha fala, a audiência poderia ser anulada. Conclui meu discurso sem mais interrupções, porém a atmosfera não estava boa.
O fato da maioria dos moradores de Coruripe e dos municípios vizinhos – Feliz Deserto, Jequiá e Piaçabuçu – estarem vivamente interessados nos supostos 4.500 empregos diretos e 22.500 indiretos, tornou-se um apelo insuperável. A vitória do Estaleiro EISA era favas contadas, ao passo que a nossa presença ali, poderia ser “confundida” com a de um grupo inimigo, demoníaco, capaz de implantar o mal e impedir o desenvolvimento do bem.
Ao descer da tribuna, saí furtivamente e conforme houvera combinado antes, com os meus companheiros de viagem, batemos em retirada.
Afinal de contas, diz o ditado: “quem espera por tempo ruim é a mulher do sertanejo!”
Leia também: Por que construir um estaleiro em área de manguezal?
——–
José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
Matérias relacionadas:
13 de dezembro de 2010
4 de dezembro de 2010
28 de novembro de 2010
22 de novembro de 2010
15 de novembro de 2010
7 de novembro de 2010
4 de novembro de 2010
28 de outubro de 2010
21 de outubro de 2010
14 de outubro de 2010
7 de outubro de 2010
1 de outubro de 2010
27 de setembro de 2010
22 de setembro de 2010
16 de setembro de 2010
8 de setembro de 2010
2 de setembro de 2010
27 de agosto de 2010
22 de agosto de 2010
15 de agosto de 2010
10 de agosto de 2010
28 de julho de 2010
26 de julho de 2010
22 de julho de 2010
17 de julho de 2010
11 de julho de 2010
4 de julho de 2010
29 de junho de 2010
23 de junho de 2010
20 de junho de 2010
14 de junho de 2010
8 de junho de 2010
4 de junho de 2010
31 de maio de 2010
28 de maio de 2010
21 de maio de 2010
15 de maio de 2010
10 de maio de 2010
4 de maio de 2010
30 de abril de 2010
25 de abril de 2010
20 de abril de 2010
16 de abril de 2010
12 de abril de 2010
5 de abril de 2010
2 de abril de 2010
26 de março de 2010
21 de março de 2010
15 de março de 2010