Em junho, representantes da UNESCO se reunirão em Sevilha, na Espanha, para definir quais festas espanholas se converterão em Patrimônio Cultural da Humanidade. Entre elas, a abominável Corrida de Touros, uma estúpida tradição que consiste em deixar os animais extenuados e nervosos durante perseguição pelas ruas, e culmina com a tortura dos touros dentro das arenas, seguida de morte por afiadas lâminas fincadas sem piedade em seu dorso. Isso tudo sob os aplausos de uma multidão ensandecida que grita “olé” a cada performance do toureiro que traiçoeiramente esconde sob a capa vermelha as bandarilhas que perfuram o couro do desditoso animal.
Uma tourada, o que é? Uma festa? Um espetáculo? Arte? Uma tradição cultural? Um show? Diversão? Esporte? Para mim, a touromaquia é um crime legalizado, uma prática criada para aflorar os instintos perversos ocultos nos homens.
Certos comportamentos “humanos” jamais vou compreender. O que leva pessoas comuns, que são pacíficas no seu dia-a-dia, mães com seus filhos, pais trabalhadores, jovens estudantes, a se transformarem numa turba sanguinária ávida por assistir a morte e o sofrimento de uma criatura que poucas horas antes era um animal belo e vigoroso, cheio de vida, e horas depois jaz inerte, tombado ao solo, esvaindo-se em sangue?
Enquanto existir quem financie, quem apóie, quem organize e quem pague para assistir, esse circo de horrores vai continuar. Mas daí a oficializar a barbárie como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO, já é demais!
Não há graça nenhuma em ver um touro, que não está lá como voluntário e sim obrigado, lutar até o fim numa batalha desigual, tendo as bandarilhas espetadas em sua carne que se rompe deixando o pobre animal sangrando até quase desfalecer, e depois de muito fraco, ser traiçoeiramente espetado por uma espada que lhe atinge o coração com o golpe “de misericórdia”, a estocada final.
Vira e mexe algum grupo aficionado dessa mostra de sadismo pressiona o governo para trazer essa prática para o Brasil, mas graças a Deus ainda não conseguiram. Grupos de proteção aos animais ficam atentos para que não seja aprovada. Enquanto isso, os pervertidos satisfazem sua sede de sangue com a farra-do-boi, outra bestialidade semelhante, proibida por leis recentes, mas que continua sendo praticada nas praias catarinenses, sob a complacência das autoridades.
Quando acontece de um ou outro touro levar a melhor, eu fico feliz pelo touro, afinal, ele não pediu para estar ali, apenas tentou se defender de seus algozes.
Atirar pessoas aos leões em arenas foi uma tradição que durou muitos séculos e nem por isso a UNESCO vai colocar essa prática como patrimônio da humanidade…
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Ivana Maria França de Negri é escritora, colunista fixa de vários jornais e integrante, há 10 anos, da SPPA – Sociedade Piracicabana de Proteção aos Animais.
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