Da Assessoria de Comunicação da UFMG
“Quando uma criança ou adolescente portador do vírus HIV começa a apresentar dificuldades na aprendizagem escolar, como identificar as causas do problema? Trata-se de reação emocional associada à evolução da doença, a desconfortos resultantes do seu tratamento ou de algum comprometimento neuropsicológico produzido pela infecção do vírus?”
Essas questões sintetizam discussões apresentadas em dissertação de mestrado defendida na UFMG em 2009, por Nelsa Carol Nicolau. Sob o tema Avaliação neuropsicológica em crianças e adolescentes com infecção por HIV/Aids, o trabalho reuniu conjunto de procedimentos de avaliação para investigar o comprometimento neuropsicológico na capacidade de aprendizagem em uma amostra de 408 pessoas entre cinco e 18 anos, das cidades de Belo Horizonte e Lavras.
O método utilizado consistiu na aplicação de bateria de 12 tarefas – ou testes – consideradas mais relevantes para avaliação de domínios como inteligência, linguagem, atenção seletiva, habilidades visoespaciais e visoconstrutivas, memória episódica, memória de trabalho e destreza manual.
Para compreender o impacto do comprometimento cognitivo, Nelsa Nicolau recorreu à estratégia de comparar os resultados das avaliações entre três grupos da amostra: um formado por 362 crianças e adolescentes sem a doença – chamado grupo controle -, outro por 14 pacientes com HIV e um terceiro por 32 portadores de Aids – conhecidos como grupos clínicos. Todos os três grupos eram semelhantes em idade, sexo e escolaridade.
“Crianças em estado mais avançado da doença apresentam maiores comprometimentos cognitivos”, registra a autora, numa conclusão mais sintética sobre os resultados das avaliações. As funções afetadas identificadas referem-se sobretudo à menor velocidade de o grupo portador de Aids processar informações, a prejuízos na atenção focalizada e no desempenho da habilidade motora fina, e a limitações da capacidade de memória de trabalho, demonstradas por seus integrantes. No entanto, o estudo não encontrou diferenças significativas de inteligência e fluência verbal entre os grupos.
Vulneráveis
“As crianças, diferentemente dos adultos, apresentam mais complicações neurológicas provenientes da infecção pelo HIV, uma vez que o cérebro em desenvolvimento encontra-se mais vulnerável e propenso a complicações”, explica Nelsa Nicolau. Essa vulnerabilidade, especifica, decorre do fato de o cérebro infantil possuir neurônios e células gliais [que dão suporte ao funcionamento do sistema nervoso, entre outras funções] imaturos com “maior capacidade de replicação e infecção pelo vírus HIV, comparativamente ao cérebro adulto”.
Apesar do rigor do método usado – e cujo poder da amostra, segundo Nelsa Nicolau, não encontra paralelo na literatura sobre o tema -, o estudo alerta que uma limitação deve ser levada em conta: a ausência de análise por ressônancia magnética. O recurso, de acordo com a pesquisadora, permitiria identificar anomalias estruturais do cérebro, que gerariam argumento para justificar diferenças entre os grupos HIV e Aids. “Futuras pesquisas serão necessárias para esclarecer melhor esse argumento”, defende.
Acesse aqui o arquivo da dissertação.
Dissertação: Avaliação neuropsicológica em crianças e adolescentes com infecção por HIV e Aids
Autor: Nelsa Carol Nicolau
Orientadores: Vitor Geraldi Haase e Jorge Andrade Pinto (co-orientador)
Ano: 2009
Unidade: Faculdade de Medicina da UFMG
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